Como escrever cientificamente

Diversas vezes, já abordei neste Boteco a questão da escrita científica. Muita gente acha que textos científicos devem ser necessariamente chatos, com predomínio da voz passiva, sem a graça das figuras de linguagem, sem expressar compromisso de quem os escreve com o leitor. O resultado é uma escrita intragável, incapaz de transmitir para quem a lê a paixão que sempre está subjacente em boa ciência.

Infelizmente, nos casos de ensino de metodologia científica que já acompanhei, a exigência de texto legível, elegante e  bem escrito inexiste. Aos alunos é ensinada uma abordagem burocrática de registros do conhecimento científico. Ensina-se um processo regido por normas e padrões impostos como modos de produzir pesquisa, como se procedimentos assegurassem qualidade do conhecimento e garantia de verdade.

A Origem das Espécies, obra de inegáveis méritos científicos, é literatura de qualidade. Darwin sabia escrever, além de fazer ciência. Não há incompatibilidade entre texto bem escrito e ciência. Faço essas observações iniciais para situar minhas considerações sobre livro que acabo de ler, Geoplítica da Fome, de Josué de Castro.

Antes de tudo, preciso compartilhar algumas observações sobre o livro. A obra, escrita para atender a pedido de uma editora americana, foi traduzida para diversos idiomas. Meu exemplar é a terceira edição brasileira, publicada em 1952. O prefácio da edição americana (reproduzido na versão brasileira) foi escrito por Pearl S. Buck, Nobel de Literatura. A edição inglesa também foi apresentada por um Nobel (da Paz), o cientista Lord John Boyd Orr. Confesso que tenho o livro desde 1967 e só agora saldo um dívida intelectual antiga. Geoplítica da Fome é um dos clássicos de nossa literatura no campo das ciências sociais, leitura obrigatória para todas as pessoas com título universitário.

Sir John Boyd Orr e o Doutor Max Sorre (professor da Sorbonne que apresenta a versão francesa da obra) ressaltam a qualidade científica do livro de Josué de Castro, observando que o trabalho do brasileiro é a mais completa e importante obra sobre o fenômeno da fome no nosso planeta. Não preciso, portanto, insistir sobre os méritos científicos do livro desse brasileiro ilustre.

Josué de Castro faz ciência e, além disso, escreve bem, faz literatura. Geopolítica da Fome, apesar dos registros de grande sofrimentos humanos, é obra de muito prazeirosa. O autor escreve bem. Passa para o leitor uma verdade científica que convence e apaixona. Seu texto nada tem daqueles escritos supostamente científicos que espantam o leitor já nas primeiras linhas.

Para benefício de quem queira conhecer um de nossos mais brilhantes cientistas, selecionei alguns trechos de Geopolítica da Fome e os reproduzo a seguir.

Vejam este comentário sobre as consequências da Grande Depressão de 29 sobre os pobres do Sul americano:

A desorganização econômica provocada pela exploração capitalista da terra, com a mecanização da lavoura, determinou a expulsão de grande número de camponeses que se dirigiram para o Oeste, formando a mais estranha e paradoxal caravana de imigrantes de todos os tempos, porque os pobres, famintos e esfarrapados se deslocavam, na maioria, em automóveis, símbolos da abastança em nossa civilização mecanicista. É bem verdade que viajavam os retirantes aos magotes, em velhos carros usados, calhambeques que iam largando as peças pelo caminho, arrebentando os motores esfalfados e fazendo crescer, à margem das estradas, os cemitérios de automóveis, em competição com seus proprietários, que também iam povoando os cemitérios do Oeste, com suas velhas carcaças aniquiladas. Mas este fato paradoxal, para os filhos esfomeados, como relata John Steinbeck no romance Vinhas da Ira, reflete a miséria no meio da abundância – apanágio constante do Velho Sul. (p. 167)

Aqui vai outro trecho escrito com paixão, descrevendo um aspecto da agricultura chinesa:

Para que a terra escassa permita ao povo chinês continuar existindo, põe ele o maior número de braços para amanhar essa terra e o maior número de mãos para ajudar as plantas a crescerem. A planta de cultivo típico do Oriente – o arroz – é tão manipulada, tão acariciada o ano inteiro pelas mãos orientais, plantando-a, repicando-a, irrigando-a, limpando-a de plantas daninhas, que não há exagero em afirmar que o arroz na China é cultivado metade do tempo no solo e outra metade na palma da mão do agricultor. E foi esse excesso de cuidado e de carinho do chinês pelo arroz que fez dessa planta um vegetal tão exigente de mão-de-obra, estragado como uma criança excessivamente mimada pela família. (p.176)

Ao comentar os desdobramentos da fome na Polônia após a II Grande Guerra, Josué de Castro diz:

Uma das mais graves consequências da intensa deficiência alimentar fora a perda de resistência às infecções de toda ordem. A tuberculose tomou os freios nos dentes e, como um dos cavalos do Apocalipse, entrou a devastar o país inteiro. Com o término da luta armada, verificou-se que 80% das crianças polonesas apresentavam reação positiva ao teste de tuberculose e que cerca de 15 mil crianças eram portadoras de lesões tuberculosas abertas, disseminando bacilos por toda parte. (p. 290)

Escolhi muitos outros trechos de Geopolítica da Fome para ilustrar a afirmação de que o cientista Josué de Castro escrevia bonito. Infelizmente não há aqui espaço para tudo que selecionei. Contento-me com uma última citação:

A luta contra a fome e a sua possível eliminação da superfície da Terra não constitui, portanto, utopia, nem o fantasmagórico sonho de um mundo de fadas, mas um objetivo perfeitamente realizável nos limites da capacidade dos homens e das possibilidades da Terra. O que se faz necessário é proceder-se a um melhor ajustamento dos homens às terras por eles ocupadas e a uma melhor distribuição dos benefícios com que a terra costuma brindar o homem. No momento atual, essa batalha contra a fome não constitui mais uma tarefa de idealismo quixotesco, porém uma necessidade que transparece à análise fria e realista da atual situação política e econômica do mundo. (p. 318)

Geopolítica da Fome, além de méritos científicos, tem méritos literários. Mas, às vezes chego a pensar que o texto de Josué de Castro não seria aprovado por professores de metodologia científica de nossas universidades.

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3 Respostas to “Como escrever cientificamente”

  1. Carlos Seabra Says:

    Jarbas, excelente análise a sua, escrita também em linguagem acessível e prazerosa de se ler!

  2. Rosimeri Carvalho Says:

    Concordo com você, mas como ensinar (e aprender) a escrever assim?!

    • jarbas Says:

      Não tenho uma resposta clara e definitiva. Mas, tenho alguns palpites.

      Educadores precisam: 1. apresentar ciência como paixão, 2. exigir textos de qualidaxde de seus alunos, 3. sugerir leitura de produção científica bem escrita, 4. ler textos científicos bem escritos, 5. escrever textos bonitos, 5. respeitar leitores quando escrevem, 6. escrever para leitores, não para iniciados.

      Alunos precisam: 1. ler textos de qualidade, 2. escrever muito, 3. escrever para leitores, 4. entrar em contato com textos bonitos de ciência, 5. exigir textos de qualidade.

      Em resumo, o que proponho é que educadores e alunos mergulhem com gosto na leitura e escrita de bons textos. Isso exige esforço, dedicação, não cai do céu, não é aprendido de forma divertida.

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