TIC’s e literatura em The Diagnosis (1)

Prometi que abordaria relações entre tecnologias da informação e comunicação e literatura na obra de Alan Lightman, The Diagnosis. Começo a cumprir minha promessa neste post.

The Diagnosis tem diversos elementos narrativos que se vinculam às novas tecnologias e à tecnociência. Não é adequado abordar todos eles num único post. Por isso, vou falar das relações do romance de Lightman com a Sociedade da Informação em três ou quatro textos. Começo com os elementos que dão sabor dramático ao romance.

A história começa num dia normal de trabalho. Bill Chalmers, o protagonista está indo para o escritório. Acaba de deixar seu carro no estacionamento e embarca no metrô que o levará ao centro de Boston. No trem, ao lado de outros executivos, Bill utiliza seu laptop e celular para verificar agenda, ver o noticiário do dia, rever documentação que usará em reuniões com clientes. Dadas as facilidades tecnológicas, inicia seu dia de trabalho no trem, bem antes do começo do expediente. Detalhe: Bill trabalha numa empresa cujo serviço é o de processar e interpretar, a pedido, informações para corporações.

A normalidade do dia é quebrada por uma coisa estranha: nosso herói não consegue se lembrar da estação em que deve saltar. Seu cérebro começa a sugerir idéias confusas. Um processo de amnésia vai se aprofundando. Bill perde laptop e celular. Vai até o final da linha. Volta, com esperança de que se lembrará da estação certa. Arranca o paletó. Desce numa estação para ele desconhecida. Arranca as últimas peças de roupa. Perde inteiramente todas as suas referências. É atendido por policiais que lhe cobrem com um cobertor fétido. É levado para um hospital onde é atendido como indigente. Sofre uma operação cerebral porque um médico de plantão resolve experimentar equipamento ultramoderno que ainda não fora testado. Foge do hospital, vestido apenas com o camisolão típico de pacientes internados.

Na rua, ele vive diversas aventuras até recuperar a memória e ter condições de retornar ao estacionamento, encontrar seu carro e dirigir até sua residência no subúrbio. Bill não tem mais problemas de memória, mas começa a sentir leve dormência em seu corpo. Procura assistência médica para saber o que causa sua súbita amnésia e aquela dormência que começara a sentir.

O início da história, que resumi acima, cria o pano de fundo para o drama de Bill. Desde o começo, a cada consulta, os médicos prescrevem dezenas de exames. Os resultados são negativos. Não há diagnóstico. Mais e mais consultas se sucedem. Mais e mais exames acontecem. Os resultados nada apontam. Mas, a doença continua progredindo. Não vou aos detalhes, nem forneço aqui indicação de desfecho (mantenho o suspense para quem for ler o romance). Passo agora a analisar o que os dissabores de Bill, em sua peregrinação por médicos e laboratórios, tem a ver com tecnologias da informação e comunicação.

Os médicos que examinam Bill não se fiam em exames clínicos. Querem informações seguras, fornecidas por exames realizados através de equipamentos que incorporam muita tecnologia. Recebem dos laboratórios número expressivo de informações. Não conseguem fechar um diagnóstico e continuam a pedir mais exames, continuam a reunir mais informações.

Com mais e mais tecnologia, houve uma mudança significativa nas práticas médicas. A maior parte dos médicos deixou de confiar em intuições profissionais. Os doutores querem o máximo de informações possíveis. E exageram na dose, pedem muitos exames que tem pouca ou nenhuma relação com as queixas dos pacientes. Os diagnósticos costumam demorar. No afã de conseguir informações seguras, os pacientes são muitas vezes encaminhados a outros especialistas. Estes, é claro, pedem mais exames. A medicina passa a ser uma prática profissional que se torna cada vez mais dependente de sistemas de informação. Cresce a impressão de que os médicos apenas mediam acesso a exames. Cresce a impressão de que o diagnóstico será formulado por sistemas de informação.

Lightman, em sua ficção, cria um drama no qual nunca se chega ao diagnóstico. Mas, apesar dos traços ficcionais, a situação que ele sugere guarda muitas semelhanças com o nosso cotidiano. Ao terminar minha primeira leitura de The Diagnosis, comentei a obra com um amigo, bom leitor. Prometi emprestar-lhe o livro. Ele, porém, recusou a minha oferta. Na época estava realizando vários exames prescritos por um médico que não conseguia fechar diagnóstico apesar do número significativo de informações que já reunira. E meu amigo vivia uma espera angustiada para saber que doença era aquela.

Precisamos de informação. Mas, ela não é tudo. Em quase todos os contextos, precisamos de informação para tomar decisões. O que anda acontecendo é que tardamos em decidir, sempre achando que podemos reunir mais informações que nos darão segurança. Isso pode ser uma ilusão. Boa parte de nossas decisões vitais não pode esperar por levantamento de dados cuja finalização é demorada.

A imensa capacidade de produzir informações gerou uma expectativa de que estas são mercadorias que devemos consumir com entusiasmo e em doses cada vez maiores. Esse fenômeno já foi descrito por Daniel Boorstin em seu essencial The Image, numa época em que a produção e distribuição de informações ainda não eram feitas por meio de equipamentos digitais. Mas, como observa Boorstin, desde a invenção de impressoras rotativas (recurso que expandiu consideravelmente capacidades gráficas de impressão) e de meios de transporte que garantiam ampla distribuição de jornais e revistas, a informação se converteu em mercadoria. Converteu-se num bem cuja posse é justificada por si mesma, não por qualquer outra finalidade.

O argumento principal da trama de The Diagnosis aproveita-se da tendência em eleger a informação como objeto de consumo cada vez mais expressivo. E, numa história dramática, evidencia o vazio de uma massa enorme de dados informativos que não resolvem um problema de vida ou morte. O autor apresenta uma metáfora que nos faz pensar sobre uma fartura de informações incapazes  nos garantir entendimento, significado.

Acho que não preciso insistir na importância que a conversão da informação em mercadoria tem a ver com educação. Deixo para o leitor as conclusões.

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