Archive for 28 de junho de 2011

Ilha de Curaçao

junho 28, 2011

Este é um momento de puro recreio no Boteco Escola.

Saldo uma dívida antiga. Estou lendo finalmente um dos clássicos das ciências sociais brasileiras, Geopolítica da Fome, de Josué de Castro.

Na página 90 da segunda edição da obra em português (1952), li  história que quero contar aqui. Josué de Castro narra episódio no qual um grupo de marinheiros portugueses, embarcados em navio de uma das viagens de Colombo à América, é acometido por uma doença terrível, o escorbuto. A doença era um dos terrores dos mares na época das grandes navegações. Ela acabou com a vida de milhares de marinheiroros. Para não se tornarem alimento dos peixes do Caribe, os lusitanos pediram para serem deixados numa ilha, em local aparentemente desabitado. Queriam morrer em terra firme, com alguma dignidade. Colombo lhes fez as vontades.

Reproduzo desfecho da história na linguagem elegante e deliciosa do próprio Josué de Castro:

Estes [os marinheiros], enquanto aguardavam a morte certa, foram-se alimentando de folhas, frutos e brotos silvestres, dos quais a terra era fértil. Meses depois, quando o barco regressava pela mesma rota, ao passar pela ilha antes  deserta, o piloto avistou gente fazendo sinais em terra. Abordada a costa, lá foram encontrados, cheios de vida e saúde, todos os marinheiros deixados como mortos e que se haviam milagrosamente curado com o uso de alimentos frescos. A ilha, onde se processou o milagre da ressureição daqueles condenados à morte pelo escorbuto, estava situada na região tropical a 12º de latitude Norte e chama-se hoje ilha do Curaçao, graças ao episódio, desde que “curação”, em português, significa cura. Ilha da milagrosa cura do escorbuto.

Como veem é uma história do tipo “nice to know” (not necessaraly “need to know”). Ou, falando português claro, é uma história boa para momentos de jogar conversa fora em qualquer boteco. Eu não sabia que essa era a origem do nome Curaçao. E vocês?

Lição de tecnologia

junho 28, 2011

O cientista Donald Norman observa que prodígios de engenharia não são suficientes para criar formas revolucionárias de comunicação. Novas tecnologias, segundo ele, só ganham importância no palco da história quando artistas criam formas originais de expressão com base nos novos meios. Um exemplo clássico disso é o cinema. Inventado no final do século XIX, este só se tornou uma linguagem importante de comunicação em 1915, ano em que Griffith filmou The Birth of a Nation(Cf. Boorstin,  The Creators, 1992, 741-4).

Relembrei observação que já fiz várias vezes para justificar assunto abordado neste post. Dias atrás, recebi de meu amigo Juvenal Alvarenga indicação de  link para uma coleção de fotos realizadas no período de 1909-1912. A referida coleção é obra do fotógrafo russo Sergei Mikhailovich Prokudin.

As fotos são, supreendentemente, modernas. Prokudin utilizou técnicas de tricromia (superposição de três cores básicas na gravação de uma mesma imagem para obter colorido bastante parecido com o original; recurso que ainda era comum nos anos de 1960 quando trabalhei como tipógrafo). E o que impressiona, no caso, é como um grande artista consegue resultados que um “engenheiro” jamais alcançaria.

Registro o caso da obra do fotógrafo russo para reiterar que ainda estamos longe de obras primas como as dele no campo da utilização de computadores no campo da comunicação. Ainda curtimos admiração por maravilhas de engenharia. Ainda não temos uma arte original de narrativas completamente inéditas para ambientes computacionais.

Reproduzi aqui duas fotos de Sergei Mikhailovich Prokudin. Para ver mais exemplos da arte do fotógrafo russo, em imagens feitas cem anos atrás, clique aqui.