Tecnologia, educação e eficiência

Com a rede mundial de computadores o acesso à informação fica cada vez mais fácil, mais imediato, menos trabalhoso. E essa constatação coloca em xeque a educação cujos meios informativos ainda vivem os efeitos de um acordo que entronizou nas escolas a fala e a  escrita. Muitos educadores ficam entusiasmados com as novidades que vão aparecendo na Internet. Boa parte desses educadores acredita que agora temos uma solução contra a “chatice” da escola e fórmulas que deixarão os alunos entusiasmados com a aprendizagem.

Entusiasmos e promessas de um paraíso educacional que pode ser construído com os recursos das novas tecnologias me preocupam. E minha preocupação nada tem a ver com sentimentos negativos quanto à Internet, ao computador. O que me preocupa é a tecnofilia que exalta a fé nos novos instrumentos, mas não considera fins da educação. Ou, quando conversa sobre fins da educação, reduz tudo a uma interpretação que costumo chamar de “pedagogia da eficiência”.

As considerações que fiz até aqui se devem a conversa que tive com uma de minhas ex-alunas, Claudinha Caroprezo, a partir de uma provocação dela via Face Book. Claudinha me convidou uma conversa sobre tecnologia educacional a partir de um diálogo que ela manteve com o educador holandês Matthijs Leendertse  .  O diálogo era bastante interessante e abordava questões relativas a interesse e motivação dos alunos. Ambos os interlocutores acreditam que as novas tecnologias podem criar ambientes muito mais favoráveis à aprendizagem que os meios tradicionais que ainda predominam nas escolas. O caminho que sugerem nos dá esperança de que as coisas podem melhorar muito em educação.

Além da conversa entre Matthijs e Claudinha, entrei em contato com uma coleção de eslaides que sintetizam palestra do primeiro num evento recente: EBU Conference 2011. O professor holandês centrou sua fala no Futuro da Aprendizagem. Vejam aqui o roteiro da palestra de Matthijs Leendertse:

Os eslaides refletem um modo de pensar baseado na pedagogia da eficiência. O autor começa com sugestões de que temos em nosso bolso ou bolsa instrumentos que podem mudar radicalmente percursos de aprendizagem. Um desses instrumentos é o celular. Ou seja, em qualquer tempo e lugar podemos acessar informação que nos interessa.   Ele ilustra isso com uma frase do Bill Gates:

Daqui a cinco anos, na web gratuita, você será capaz de encontrar as melhores aulas do mundo.

A seguir, o professor holandês mostra porque é preciso reformar a educação. Mostra duas fotos de salas de aula, uma de 1900, outra de 2011. Ambas as salas são praticamente idênticas. Depois disso, apresenta sequência de eslaides comentando situação atual e futuro da aprendizagem. Tudo isso prepara o palco para mostrar como anda a educação. O autor destaca então que

Os Mercados de Trabalho Estão Mudando Rapidamente.

No quadro seguinte, o professor holandês destaca dados de uma pesquisa recente. Em tal pesquisa – provavelmente um levantamento de opinião – aparecem  os seguintes números:

  • 52%  pensam que em 2025 os formandos não terão habilidades cruciais
  • 88%  indicam que é impossível para a educação formal antecipar todas as mudanças na sociedade e no mercado de trabalho
  • 81% dizem que é necessária maior cooperação entre as empresas e as escolas

O roteiro segue com observações sobre novas formas de educação, enfatizando uma aprendizagem personalizada e o uso preferencial da Internet.

O que me impressiona na exposição do Dr. Leendertse é a definição de educação como uma atividade de preparação para o mercado de trabalho. Essa, a meu ver, é uma das consequências da pedagogia da eficiência. Ficam esquecidos, no caso, fins tradicionais da educação. Cabe perguntar se a educação do futuro não terá compromissos com cidadania, valores, ética, vida democrática, civilização, arte. Sobrarão apenas demandas do mercado?

Não tenho aqui tempo e espaço para mostrar o engano de uma educação atrelada a supostos interesses do mercado. Como já observou Cláudio Salm no clássico Escola e Trabalho, “o capital utiliza os resultados da educação de acordo com seus interesses”. Nesse sentido, o mecanicismo de uma congruência entre instituições educacionais e mundo do trabalho é uma bobagem levada a sério.

Apresentar a pedagogia da eficiência como abordagem vinculada à tecnologia educacional é outro aspecto que merece crítica. Boa tecnologia educacional, antes de planejar modos de apresentar informação, preocupa-se com levantamento de necessidades. Ou seja, preocupa-se com diferenças entre situação constatada e situação desejada. E é claro que modos de ver situação são essenciais. Nos meus distantes anos de mestrado em tecnologia educacional (1983/4), Brock Allen não se cansava de dizer que para determinar situações e levantar necessidades é preciso recorrer a várias fontes. Listo e comento tais fontes de acordo com um pequeno subsídio elaborado pelo Brock:

  1. Aprendentes. Na escola ou em centros de treinamento. é preciso ouvir alunos e treinandos. Eles têm expectativas quanto ao que precisam aprender. Vêem o conhecimento de acordo com seus interesses. Assim conteúdo, organização da informação e mídia precisam ser pensados de acordo com os aprendentes com os quais vamos trabalhar.
  2. Professores. Em qualquer processo de aprendizagem há dois atores fundamentais: professor e aluno. Professores têm experiência. Conhecem o conteúdo. Têm expectativas. Conhecem dificuldades dos aprendentes. Por isso tudo e outras coisinhas mais precisam ser ouvidos e considerados.
  3. Especialistas. Em qualquer campo de saber há especialistas. Eles conhecem a matéria. Têm opiniões bem fundamentas sobre o que é importante, o que é atualizado, o que pinta em termos de futuro nas suas áreas de conhecimento. Assim, não se pode pensar em aprendizagem de literatura sem considerar o que pensam os especialistas no ramo. Idem com relação à física. Etc.
  4. Sociedade. Os aprendentes vivem numa sociedade. Essa alimenta expectativas com relação ao saber de seus membros. Enfatiza certos valores. Tem sonhos quanto a uma vida melhor para todos. Vê qualquer atividade de educação como oportunidade para concretizar seus melhores sonhos.
  5. Mercado de Trabalho. Uma dimensão importante na vida em sociedade é o trabalho. Ela não pode ser esquecida quando se planeja educação.
  6. Representantes dos Cidadãos. Qualquer atividade educacional acontece numa sociedade politicamente organizada. No nosso mundo, as políticas educacionais são responsabilidade de gente que elegemos para nos representar. Por isso, é preciso considerar as diversos níveis de políticas educacionais quando planejamos organização de informações para fins de aprendizagem.

A sugestão do Brock valia para grandes cenários e para pequenas decisões no campo da educação. Em todos os casos, levantamentos de necessidades precisavam considerar atores muito diferentes. Ouvir apenas os aprendentes e atender as suas demandas, como insistem os talibans da Escola Nova, é uma bobagem. Deixar de lado os especialistas, acusando-os de conteudistas, é um ato de pura ignorância. Servir apenas a interesses do mercado é outra bobagem. Comentários semelhantes podem ser feitos quando se elege apenas uma das dimensões dessa lista proposta pelo Brock. Resumo da ópera: é preciso considerar todas as dimensões e conciliá-las. Quando se faz isso, como já disse, faz-se boa tecnologia educacional.

Quem chegou até aqui deve ter reparado que pouco falei sobre mídias. Não que elas não sejam importantes. Mas, em planos bem feitos de tecnologia educacional, elas devem estar a serviço de fins educacionais.

Tenho muito mais o que falar sobre o assunto. Mas, paro por aqui. Já ultrapassei em demasia os limites máximos de um post.

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3 Respostas to “Tecnologia, educação e eficiência”

  1. Carlos Seabra Says:

    Jarbas, que belíssimo texto este teu, que tanto diz!

  2. Ana Scatena Says:

    Jarbas,
    Texto muito lúcido, como sempre.
    Essa história de que a tecnologia vai modificar a sala de aula só funciona na cabeça de quem nunca deu aula! Uso muita tecnologia nas minhas aulas particulares: computador, iPad, iPhone, Skype. Tudo isso facilita minha produção de material, que em nada se compara aos meus tempos de mimeógrafo. Um grande avanço de produtividade e qualidade. Contudo, se eu não me empenhar para criar uma boa interação com meus alunos, essa tecnologia toda não passa de parafernália inútil.
    Ensinar é, antes de tudo, relacionar-se com o outro. Sem uma relação de reciprocidade professor-aluno, nada se constrói. Bj e parabéns por mais esta aula, mestre.

  3. Antonio Morales Says:

    Infelizmente, o que é predominante, hoje, é a tal “pedagogia da eficiência” e o mau uso das novas tecnologias em educação. E a causa disso continua no lugar de sempre: a formação dos professores, que abrange, é claro, as condições de trabalho desses profissionais na escola pública e não só.

    O lúcido comentário do Jarbas aponta para a complexidade necessária da questão e é um alerta para todos os tipos de educadores demasiadamente entusiasmados com a tecnologia e suas máquinas maravilhosas!

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