Filosofia do corpo

Faz algum tempo que li The Meaning of the Body. de Mark Johnson. A obra é um livro de filosofia que procura caminho diferente do modo hegemônico de pensar, cartesiano, dualista. Uma filosofia do corpo, que sugere abandono de pares antitéticos como mente/corpo, corpo/alma, material/espiritual, teórico/prático, pode nos indicar mudanças substanciais em modos de ver a vida, a aprendizagem, o conhecimento, a educação.

Minha investigação de doutorado, cuja versão final resultou no livro Educação Profissional – Saberes do Ócio ou Saberes do Trabalho?, foi um estudo que buscava caminhos de superação do pensamento dicotômico no campo da formação profissional. Pena que na época daquele estudo o livro de Mark Jonhson ainda não fora publicado. Ele poderia iluminar muitas das minhas observações sobre modos de entender aprendizagens relacionadas com a técnica, com o trabalho.

Pretendo fazer uma resenha de The Meaning of the Body. Isso vai levar um tempo. Mas, enquanto a oportunidade não chega, vou aguçar curiosidade dos leitores com tradução das duas páginas iniciais do livro de Mark Johnson. Leiam o texto e comecem a pensar na necessiadade de abandonar pares antitéticos como mente/corpo ou teoria/prática.

Mark Johnson

A tese central deste livro é a de que a chamada “mente” e o chamado “corpo” não são duas coisas, mas apenas aspectos de um mesmo processo; assim, todos os nossos significados, pensamentos e linguagem emergem a partir das dimensões estéticas dessa atividade corporal. As dimensões estéticas mais importantes são qualidades, imagens, padrões e processos senso-motores, e emoções. Nas três últimas décadas, acadêmicos e pesquisadores em diversas disciplinas colecionaram uma pilha de argumentos e evidências sobre a corporeidade da mente e do significado. Entretanto, as implicações para tais pesquisas não chegaram à consciência pública. Por isso a recusa do dualismo mente/corpo ainda é uma afirmação  altamente provocativa que muitas pessoas acham improvável e até mesmo ameaçadora. Examinar nossa corporeidade é uma das mais profundas tarefas filosóficas que podemos confrontar. Reconhecer que cada aspecto do ser humano está assentado em formas específicas do nosso engajamento corporal com o meio ambiente requer um repensar exigente de quem e o que nós somos, de uma maneira que contraria muito várias tradições religiosas e filosóficas que herdamos da cultura ocidental.

Para ver o que essa reconceptualização significa, considere o que segue. As mais avançadas idéias em biologia, psicologia, neurociência cognitiva e fenomenologia nos dizem que formas humanas da experiência, consciência, pensamento e comunicação não existiriam sem nossos cérebros, as quais, por sua vez, estão ativamente engajados com os ambientes físicos, sociais e culturais nos quais os humanos vivem. Mudemos nossos cérebros ou nossos ambientes de maneira significativa, e mudaremos como experimentamos nossos mundos, como as coisas são, e mesmo o que nós somos.

A ilusão da mente sem corpo

Compare a tese da corporeidade com a visão de senso comum. Apesar de muitas pessoas não pensarem muito a respeito disso, elas vivem as suas vidas pressupondo e agindo de acordo com um conjunto de dicotomias que distinguem mente de corpo, razão de emoção, e pensamento de sentimento. O dualismo mente/corpo está tão profundamente enraizado nas nossas tradições filosóficas e religiosas, nos nossos sistemas conceituais compartilhados, e na nossa linguagem que ele parece ser fato inescapável da natureza humana. Uma manifestação hegemônica desse dualismo em muitas de nossas práticas éticas, políticas é religiosas é o pressuposto de que possuímos um livre arbítrio radical, independente de nossos corpos e capazes de controlá-los. Nós postulamos um eu “superior” (a parte racional) que deve exercer o controle do eu “inferior” (corpo, desejo, emoção). Nós pressupomos que cada um de nós tem um núcleo interior (o “verdadeiro eu”, a “alma”) que transcende nosso seu situado corporalmente. Nós acreditamos na idéia de que o pensamento é uma atividade conceptual pura que transcende o corpo, mesmo quando nós compreendemos que não há pensamento sem um cérebro.

Essa ilusão hegemônica de uma mente, pensamento e significado incorpóreos é explorada de forma muito bonita pelo poeta americano Billy Collins que desmascara nosso sonho de um pensamento puro, mostrando que podemos pensar e imaginar apenas por meio de nossos corpos.

PUREZA

Meu tempo favorito para escrever é o da tarde,

Em dias de semana, particularmente as quartas feiras

Eis aqui como atuo:

Pego uma xícara de chá e vou para o escritório, fecho a porta

Tiro então toda a minha roupa e coloco peça sobre peça

e tudo se passa como se eu tivesse derretido e minha herança fosse apenas

uma camisa branca, uma calça e uma xícara de chá

Depois removo minha carne e a penduro numa cadeira

Eu a removo de meus ossos como se ela fosse um tecido de lã

Faço isso para deixar puro tudo o que escrevo

Completamente limpo de tudo que é carnal

Sem qualquer contaminação vinda doe preocupações do corpo

Finalmente eu retiro meus órgãos

E os acomodo numa mesinha perto da janela

Eu não quero escutar seus antigos ritmos

Quando tento criar ritmos com meu próprio tamborilar

Sento então diante da mesa, pronto para começar

Estou completamente puro, nada mais que um esqueleto e um teclado

Devo observar que algumas vezes deixo o meu pênis

Acho difícil vencer a tentação

Sou então um esqueleto com um teclado e um pênis

Nessa condição escrevo poemas extraordinários de amor

Muitos deles explorando as conexões entre sexo e morte

Sou a própria concentração: existo num universo

Onde nada mais há que sexo, morte e teclado

Depois de expressar isso, removo também  meu pênis

Sou então um crânio e ossos digitando tarde afora

Apenas o absolutamente essencial, nada supérfluo

Agora só escrevo sobre morte, o mais clássico dos temas

Numa linguagem leve como o ar entre minhas costelas

Depois disso, permito me recompensar com uma volta de carro pelas redondezas

Recoloco meus órgãos e visto minha carne de novo

Assim como minha roupa. Tiro o carro da garagem

E dirijo através dos bosques por estradas do campo

Passando por muros de pedra, casas de fazenda, e lagoas geladas

Todos arrumados como palavras num soneto famoso

Ah! Como seria bom se a mente pudesse flutuar liberta de seu peso carnal, pensando pensamentos puros das coisas corretas, eternas e boas.

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Uma resposta to “Filosofia do corpo”

  1. Andre Morais Says:

    Estou lendo ele … se estiver fazendo algo nele ou já tiver feito gostaria de trocar informações …

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