Escola Nova e educação hoje

Impressiona-me o fato de que o discurso pedagógico de hoje seja um eco do distante movimento conhecido como Escola Nova. As linhas gerais desse movimento foram definidas na última década do século XIX. As idéias escolanovista começaram a ganhar concretude no Brasil por volta de 1920. Um dos educadores que elaborou as idéias escolanovistas para o ambiente tupiniqum foi Lourenço Filho.

Fiz pequena introdução sobre a Escola Nova para situar o conteúdo deste post. Durante alguns meses participei do projeto UNIVESP, trabalhando com a equipe encarregada de produzir vídeo e tv para Universidade Virtual do Estado de São Paulo. Uma das minhas responsabilidades era a de palpitar sobre conteúdos, sugerindo temas ou avaliando propostas feitas por outros educadores. Entre as coisas que fiz naquele ofício, há um texto de proposta de produção de vídeo sobre a Escola Nova. O material acabou não sendo aproveitado, mas acho que o mesmo ainda tem certa atualidade e passa algumas das idéias que tenho de como introduzir uma conversa sobre Escola Nova nos dias de hoje.

Para quem interessar possa, reproduzo meu citado escrito aqui.

Escola Nova

comentários e sugestão para produção de vídeo

 

Projeto Univesp

Jarbas N Barato

23/03/2008

O Movimento da Escola Nova nasce no final do século XIX . Ele está ligado a necessidades de expansão do ensino fundamental e ao desenvolvimento de uma nova ciência, a psicologia. Um caminho para apresentar tal movimento poderia ser um pequeno resumo histórico acompanhado por destaques sobre principais princípios do escolanovismo. Tal resumo poderia enfatizar alguns aspectos que continuam a ser muito importantes no discurso pedagógico dos nossos dias. Proponho, porém, algo ligeiramente diferente. Proponho que a apresentação da Escola Nova se faça a partir de uma obra clássica da literatura pedagógica brasileira: Introdução ao Estudo da Escola Nova, de Lourenço Filho. Mais particularmente, proponho que a apresentação da Escola Nova se faça de acordo com o capítulo final do livro de Lourenço Filho: Questões Gerais de Aplicação.

Antes de propor as linhas gerais para um roteiro, faço aqui alguns esclarecimentos. O livro Introdução ao Estudo da Escola Nova foi publicado pela primeira vez em 1930. Ele reflete, portanto, uma das linhas originais de pensamento sobre o que era o movimento escolanovista. [Tenho a primeira edição da obra, escrita naquela deliciosa ortografia dos anos trinta. Se o roteirista quiser utilizá-la, posso fornecer uma cópia do último capítulo]. É interessante notar que muitas das coisas escritas por Lourenço Filho na distante década de 1930 continuam muito atuais.

Segue um resumo das indicações de Lourenço Filho no capítulo final de seu livro:

Princípios:

 

  • Caráter socializador da Escola Nova. Aprende-se em sociedade. E a escola deve ser um ambiente social que favorece aprendizagens. “O homem não se  apresenta como homem, para depois viver em comunidade; sem esta comunidade, o ser humano não é, de modo algum, um homem” (p.188). A escola tem assim um destacado papel de formação para a vida em sociedade.
  • Caráter de respeito à individualidade da criança. Não se opõe à socialização. A socialização que se quer é a de uma formação para a democracia onde se espera que as pessoas possam se expressar livremente.
  • Caráter funcional da educação. Entendimento de que a educação precisa atender a necessidades de cada um.
  • Caráter vitalista da educação renovada. Entendimento de que a educação deve estar voltada para as dimensões afetivas da vida, acompanhado por uma crítica ao intelectualismo da educação acadêmica (tradicional)

Questões críticas:

 

  • A questão dos programas. Na educação tradicional há programas de estudo bastante rígidos. A Escola Nova propõe que o centro de estudos seja o interesse dos alunos. Volta-se contra o programa rígido, o ensino acadêmico, centrado em matérias.
  • Uma dificuldade no ensino graduado. Uma conveniência administrativa, não uma determinação em termos de aprendizagem.
  • A solução:o programa  mínimo. Lourenço Filho defende certo padrão nacional (posição contrária ao radicalismo de nenhum programa defendida por alguuns escolanovistas). Aceita um programa mínimo, mas com bastante liberdade para que as coisas se organizem de acordo com necessidades e interesses das crianças.
  • A questão do horário. A rigidez do horário escolar contraria a naturalidade das crianças. A passagem de uma para outra disciplina, em intervalos rigidamente controlados, e sem qualquer ligação estrutural entre elas, é artificial, desinteressante. É preciso repensar a questão do tempo na escola…
  • Horário de rotação semanal. Uma possível solução, com mais tempo para cada assunto, sem interrupções e esfacelamento disciplinar.
  • A questão da disciplina. Algo inexistente na Escola Nova… Nada de controle.
  • Então, as crianças fazem o que querem? Não, os que as conduz é o interesse, a educação autêntica.
  • O brinquedo na educação.  “O jogo é atividade de coordenação profunda, forma de auto-educação por excelência.” (p. 206).
  • Jogo, interesse, esforço.
  • Autonomia dos escolares
  • Liberdade das crianças

 

Indicação para realização de vídeo

 

Pode-se pensar uma forma de apresentar a Escola Nova, com base no escrito de Lourenço Filho, da seguinte maneira:

Apresenta-se um discurso sobre educação, com críticas à escola tradicional e com propostas inovadoras. Quem faz o discurso e o ambiente onde a fala ocorre não são revelados.

 

O discurso enfatiza:

 

  • Educação como uma atividade socializadora. Aprende-se com os outros. Conviver com outros é condição definidora de humanidade. A escola não prepara para a vida. Ela é vida. É convivência. É local onde uns aprendem com outros em trocas sociais.
  • Respeito à individualidade. O indivíduo só ganha sentido vivendo em sociedade.
  • Princípio de liberdade. Mas sem converter o aprendiz num ser isolado
  • A educação não é assimilação de um repertório de conteúdos. É elaboração de saberes baseados nos interesses dos aprendizes.
  • Educação não é preparo intelectual. É preparação de gente que sente, se emociona, vive, participa.
  • Horários rígidos, programas pré-definidos, controle (disciplina), sisudez, falta de liberdade e outras características da velha escola precisam desaparecer, dando lugar à liberdade, flexibilidade, autonomia, interesse etc.
  • Outros princípios podem ser apresentados, sempre com base no escrito de Lourenço Filho.

 

O discurso pode ser apresentado como uma série de slides, com textos e imagens, comentados com uma voz ao fundo, mas sem identificar o dono da voz. Tal apresentação pode ser feita de outro modo, desde que o expositor não seja revelado. O que se quer no caso é mostrar uma coleção de idéias que fazem parte do ideário pedagógico contemporâneo. Ideário, aliás, que repete praticamente tudo que se pregava nos meios da Escola Nova no início do século passado.

 

Quando a exposição do ideário chegar ao fim, algum recurso de movimentação de câmara ou de corte deverá mostrar uma surpresa. Aparecerá o expositor, figura que será imediatamente identificada como alguém dos anos trinta. Seguir-se-á um comentário para dizer que apesar da surpresa, a situação é historicamente correta. O personagem está apenas repetindo idéias que podem ser encontradas num livro de 1930: Introdução ao Estudo da Escola Nova. [trechos da obra com a ortografia de 1930 podem ser mostrados como fundo ou como sucessão de páginas, ou qualquer outro recurso dinâmico que estabeleça um contraste entre a velha ortografia e a atualidade das idéias do livro]O final poderá ser uma indicação sobre Lourenço Filho e leitura de seu livro para aqueles que quiserem saber mais sobre o movimento escolanovista.

 

O que estou propondo é um vídeo que mostre que muitas idéias da Escola Nova estão aí, desafiando a educação, definindo papéis dos educadores. Acho que isso pode ser apresentado com algum apelo dramático. Por isso estou sugerindo uma exposição de idéias com certo ar de mistério. Nem ambiente nem personagem deverão ser revelados na primeira parte. Com isso, espera-se que o expectador chegue a pensar que se trata de alguma exposição muito recente (coisa de algum congresso de educação deste ou do ano passado). Á certa altura o mistério é revelado, se possível sem palavras, mas imageticamente (pode-se então ver um personagem em vestido como um cavalheiro de 1930). A partir daí faz-se a ponte entre Escola Nova e pensamento pedagógico contemporâneo. Depois disso, recomenda-se a leitura da obra de Lourenço Filho. Sei que estou me repetindo. Mas é isso aí…

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8 Respostas to “Escola Nova e educação hoje”

  1. Augusto Says:

    Jarbas,
    Achei fantástico – não conhecia e já estou procurando para ler.
    O que aconteceu com esse grupo, com essas idéias? Conta mais um pouco?
    Abraço!

  2. jarbas Says:

    Augusto, obrigado pelo comentário. Se você se refere ao grupo da Univesp, o trabalho continua, com uma produção bastante expressiva. Você pode encontrar muitos dos vt’s lá produzidos no youtube/tv univesp.

    O texto que elaborei, como disse, não foi aproveitado. A Univesp optou por outras alternativas para discutir a Escola Nova. Mas, continuo com minha crença de que é necessário começar conversas sobre o escolanovismo a partir de crenças que ainda circulam muito fortemente nos meios educacionais. A partir disso, é preciso mostrar que o ideário escolanovista já é centenário. Abraço.

  3. lidice reis Says:

    oLÁ, jARBAS

    MUITO INTERESSANTE ESTE LIVRO E SUA IDÉIA DE VÍDEO!

    SOU ESTUDANTE DE PEDAGOGIA E SE POSSÍVEL GOSTARIA QUE ME ENVIASSE UMA CÓPIA DO ÚLTIMO CAPÍTULO DA EDIÇÃO DE 1930 PARA COLOCÁ-LO EM UM TRABALHO. pODERIA ENVIÁ-LO PARA O MEU E-MAIL?

    OBRIGADA!

    • jarbas Says:

      Cara Lídice,

      Infelizmente não tenho versão digital do último capítulo do livro pra lhe enviar. Se você quiser, posso lhe mandar xerox do mesmo. Para tanto preciso de um endereço postal para o qual enviar o texto. Se interessar, mande-me reposta para o email jarbas.barato@gmail.com.
      Tempos atrás, alguém fez para mim cópia digital do capítulo III do livro citado. Eu pretendia utilizar o material em minhas aulas. Mas, acabei não fazendo isso. De qualquer forma, interessados podem acessar o material aqui no Boteco em página cujo lik segue: https://jarbas.wordpress.com/033-pedagogia-de-projetos/.
      Abraço, Jarbas

  4. natana fidalgo de jesus Says:

    Adorei o seu artigo,muito legal fez com que as minhas ideias clareassem.

  5. maria Gorete dos Santos Says:

    Fiquei fascinada pelo seu artigo. Obrigada por me proporcionar tanta curiosidade de ler este livro e assim, ampliar meus horizontes.

  6. Maristela Da Rosa Says:

    Oi Jarbas! Procura pela primeira edição do livro Introdução ao estudo da Escola Nova de Lourenço Filho, publicada em 1930. Li acima que você tem essa edição. Poderias compartilhar comigo?
    Maristela

    • jarbas Says:

      Oi, Maristela,

      Meu livro está bastante baleado. Não tenho, no momento, condições de providenciar cópia. Houve um tempo em que eu quis cópia-lo em pdf. Na época, copiei apenas o capítulo sobre pedagogia de projetos (publicado no Boteco Escola). Continue em contato, pois vou ver se alguma amiga que recupera obras antigas pode cuidar do meu livro e providenciar cópia. Abraço.

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