Lição de história na biografia de Bonhoeffer

“I’m writing on the spur of the moment”, como diria meu amigo Brock Allen. Nada a ver com blogs. Nada a ver com tecnologia educacional. Tudo a ver com vida. Tudo a ver com história. Assim, se você aparece por aqui apenas para ler matérias sobre blogs ou tecnologia educacional, pare agora. Se estiver curioso, siga em frente.

Não consigo parar a leitura de uma robusta (609 páginas) biografia do teológo alemão Dietrich Bonhoeffer: Bonhoeffer: Pastor, Martyr, Prophet, Spy, texto de Eric Metaxas.

Nos anos sessenta, soube da vida de Bonhoeffer, pastor e teólogo luterano que participou de um complô para eliminar Adolf Hitler. Ele foi preso pelos nazistas e executado três meses antes do término da II Guerra Mundial. Comprei naquela época o livro Resistência e Submissão, uma coletânea de textos – cartas, poemas, ensaios – que ele escreveu durante os anos em que esteve encarcerado. Mas, confesso que não li a obra integralmente.

Bonhoeffer viveu num tempo difícil, os anos posteriores à I Guerra Mundial e de ascenção do nazismo na Alemanha. Lutou desde o começo contra o nazismo, reconhecendo as sementes do mal bem antes que a maioria das pessoas dentro e fora da Alemanha. Articulou atos de resistência e de protesto contra o endeusamento de um ditador e de uma ideologia racista. O livro de Metaxas conta essa história de uma maneira amorosa, envolvente, instigante.

Escrevo esta nota por um motivo. Confesso que até a leitura da biografia de Bonhoeffer quase nada sabia sobre as origens e desenvolvimento do nazismo na Alemanha. Acho que tal ignorância é comum. Grande parte das pessoas tem, quando muito, idéias vagas do que foi o nazismo.

Recentemente recebi de uma professora universitária piada infeliz que narrava incêndio num prédio de vários andares. No sinistro, segundo o criador da pseudo-piada, morreram muitos moradores. As mortes aconteceram em famílias que representavam grupos sociais que, segundo o infeliz piadista, vivem às custas de trabalhadores dedicados e honestos como nós. Não vou revelar o conteúdo da tal piada. Vou apenas ressaltar que um dos grupos representava os retirantes nordestinos – assistidos pelo bolsa família. A trama da história de mal gosto, travestida de piada, destilava preconceitos. Sugeria no caso dos retirantes que estes nada mais são que vagabundos preguiçosos. Tudo isso me fez lembrar as muitas histórias que foram inventadas sobre judeus na Alemanha nazista. Tudo isso me fez pensar que muitas pessoas nada aprenderam com a História.

A vida de Bonhoeffer mostra um cidadão que não aceita preconceitos. Mostra um cidadão que corre riscos para defender os perseguidos. Mostra um lutador que não se omite. A beleza  e verdade do livro de Metaxas estão me comovendo. Mais que isso, estão desafiando minha omissão diante de gente que destila preconceitos como os presentes na piada infeliz de que falei acima.

O que estou aprendendo a partir da leitura de Bonhoeffer me remete a uma observação de Gardner em seu precisoso livrinho sobre educação, The Disciplined Mind. Em tal obra, o autor repara que a educação escolar deve buscar apenas três coisas, a verdade, a beleza e a bondade. O princípio da verdade justifica todo nosso empenho em termos de aprendizagem das ciências. O princípio da beleza justifica a necessidade de um ensino de qualidade das artes. O princípio da bondade exige estudo aprofundado da História, de Ciências Sociais e da Ética. Segundo Gardner, tudo qo que podemos querer da educação é a formação de pessoas coprometidas com a verdade, capazes de apreciar e produzir beleza, capazes tratar seus semelhantes com compreensão, compaixão e bondade.

Ao exemplificar como educar para a bondade, Gardner cita explicitamente estudos da história do holocausto, acreditando que compreensão do que aconteceu na Alemanha de Hitler é um caminho que pode nos ajudar a cultivar a bondade. Acho que conhecer a vida de Bonhoeffer é também um caminho que pode ajudar as pessoas a se comprometerem com a idéia de bondade nos termos propostos por Gardner.

Quem chegou até aqui deve ter percebido que este meu texto não está bem estruturado. Na verdade não consegui expressar as profundas emoções que estou sentido ao ler a biografia de Bonhoeffer. Mas, eu não poderia deixar de compartilhar meus sentimentos com frequentadores deste Boteco. Sugiro àqueles que puderem: leiam a biografia de Dietricho Bonhoeffer.

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2 Respostas to “Lição de história na biografia de Bonhoeffer”

  1. Benigno Says:

    É com o exemplo da dedicação de Bonhoeffer que a Igreja Luterana (e por consequencia os protestantes) não podém ser responsabilizados pela ascenção e manutenção do nazismo.
    Parabéns pelo artigo.

  2. Uziel F. Farias. Says:

    Li seu comentário e me deliciei de sua profunda admiração pela solidariedade e Ética dando uma resposta com profundo equilio`a aqules que estão desprovidos do amor aos seus semelhantes.

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