Arquitetura Escolar, fala Fernandez Alba

Hoje, ao rever meus guardados, acabei encontrando um velho número de Cuadernos de Pedagogia ( o de nº 86, fevereiro de 1982). “Tema del Mes: El Espacio Escolar”. Não sei se li as matérias na ocasião em que recebi a revista. Vejo agora que os artigos sobre espaço escolar, publicados na importante revista espanhola de educação, abordam algumas das questões que levantei neste blog nos dois últimos anos.

Pretendo voltar ao referido número da Cuadernos de Pedagogia outras vezes. Neste post vou apenas reproduzir uma das declarações do arquiteto Antonio Fernandez Alba em entrevista concedida a Juan Manuel de la Torre. Selecionei um trecho da entrevista. Alba fala mais de suas impressões sobre a escola nas sociedades industriais avançadas. Busca mostrar que as expectativas sociais acabam conformando o espaço escolar. Observa que poucas vezes se lêem as pedras, mas esta é uma necessidade fundamental. Propõe, nas entrelinhas, que o espaço escolar deva mudar para que princípios mais humanitários de educação possam ser vivenciados pelos alunos. Minha tradução é ligeira e desconfio que a fala do entrevistado não foi editada. Predomina um tom coloquial de conversa no dexto de la Torre. Mas, acho que a proposta do entrevistado pode ser bem entendida.

Segue aqui trecho da entrevista concedida pelo arquiteto Fernandez Alba:

A arquitetura que hoje cosntruímos reflete com toda precisão o amor que se tem pela criança e pela escola, a dimensão que esta escola se quer dar e, ao mesmo tempo, a finalidade que esta escola deve cumprir na sociedade atual. E esta é uma leitura a partir de seus aspectos mais anti-estéticos que revelam, no fundo, esse mal gosto, essa falta de dedicação [o entrevistado se refere a comentário prévio que fez sobre certos espaços da vida adulta]. Por exemplo, a escolha do lugar é o tema mais importante. As escolas se situam em espaços totalmente segregados e a partir daí já nasce toda uma cadeia de decisões.  […]

As escolas atuais estão organizadas para ensinar uma espécie de prontuário ou de vademécum […]. Esse processo de degradação se vê desde o ensino primário até a universitário. Se manifesta na falta de certos conteúdos nas escolas; tais conteúdos não interessam à sociedade porque podem formar cidadãos que irão contestar o que está aí. Esses conteúdos de formação são substituídos pela demagogia e pela titulação. Penso que o processo de marginalização, inclusive de exclusão, que os professor sofreu na sociedade industrial avançada, é parte de uma estratégia dos valores que esta sociedade estabelece de como deve ser a educação. Sem dúvida, um processo educativo de um povo é a arma revolucionária mais eloquente. Nesse sentido, o estado protetor e paternalista contemporâneo estabelece suas pautas. A instrução vale até certo ponto: até que repercuta como força de trabalho alienada no processo social em que se desenolve. Não há uma visão global nem no ensino primário, nem no secundário e, como se sabe, há  uma atomização de conceitos e de conhecimentos no ensino superior. No fundo, não há um cidadão formado e capacitado para dar respota nem ao mundo no qual vive, nem á situação social na qual se encontra.

Em todo este contexto, a arquitetura é um modelo dependente, ou seja, se estes são os conteúdos, a imagem que a arquitetura pode refletir é a destes conteúdos. Muitas vezes não se sabe ler através das pedras, mas é preciso ver a miséria em que se encontram os prédios escolares uns cinco anos depois de construídos, quando deveriam ser feitos com a rentabilidade de um tempo de uso importante, com uma rentabilidade ambiental, com um uso agradável.. É preciso ver como a criança hoje, exceto uns poucos casos, vai para a escola com certa hostilidade [contra a escola]. Isso por que no fundo o ambiente não é acolhedor, é um local de formalidades, um lugar de exclusão […] Não há uma situação de fruição pedagógica, nem sequer uma situação lúdica; na escola não se joga, suporta-se a agressão do funcionário que está passando, de uma maneira alienada, um conteúdo social para o qual não está preparado, e que nem lhe interessa. Há uma agressão que o meio reflete de modo eloquente. A leitura dos edifícios escolares é uma radiografia perfeita do amor que esta sociedade dedica ao jovem e da falta de sinceridade com relação a princípios.

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