Inteligência coletiva

Começo este post com um desafio. Convido o amável leitor a advinhar em que ano (valem aproximações de dez anos para cima ou para baixo) um importante empresário da área tecnológica disse o seguinte:

A Terra inteira vai se converter num cérebro gigantesco, capaz de oferecer respostas (inteligentes) em qualquer de suas partes.

Ja fez sua aposta? Se sim, provavelmente deve ter colocado alguma data em torno dos anos de 1980. Ficou longe do alvo. O correto é algo em torno de 1905.

Á esta altura você deve estar perguntando: alguém previu a Internet no começo do século XX? Quem é o profeta?

A frase sobre inteligência coletiva, merecedora de destaque neste meu texto foi dita por Nikola Tesla, empreendedor no campo da eletricidade comercial, em 1904. E ele estava falando de uma tecnologia que ganhava admiração de muita gente em todo o planeta. Nome da dita tecnologia: rádio.

Hoje quase não consideramos o rádio como um instrumento de múltiplas conexões com pessoas de muitos e diferentes lugares, conversando sobre assuntos de interesse comum, divulgando idéias, produzindo informação de qualidade, realizando intercâmbios informativos com grande liberdade. Mas, em seus primeiros anos o rádio era tudo isso. Havia inteira liberdade para se colocar uma estação no ar. Qualquer cidadão ou grupo social que tivesse algum interesse em divulgar informação podia criar sem muita dificuldade uma estação de rádio. A aventura não custava muita grana. As demandas técnicas para se colocar uma emissora no ar eram bastante simples. Controles governamentais inexistiam. O rádio era um espaço de liberdade. Liberdade de expressão, sem chateações de anúncios, sem monopólios de grandes redes. Por todas essas razões, a frase de Tesla retratava um sonho que muitos achavam que começava a se concretizar.

Antes de prosseguir, devo revelar onde encontrei todas essas informações. Elas estão num grande livro que estou lendo no momento: The Master Switch: The Rise and Fall of Information Empires, de Tim Wu. O autor examina as novas tecnologias da informação, começando pelo telégrafo e chegando até a Internet, com passagens pelo telefone, rádio, cinema, televisão. Voltarei ao livro mais vezes em posts futuros. Por ora fico com a citação que situa o rádio como instrumento de construção de uma inteligência coletiva.

Espero que a frase de Tesla tenha criado algum impacto. Achamos que a grande tecnologia da informação é a Internet. A história do rádio mostra que há muito exagero em nossa crença de que as novíssimas tecnologias criam impactos “nunca antes experimentados pela humanidade”. Engano nosso. Ou falta de uma perspetiva histórica que coloque as coisas no âmbito de visões de longo prazo. Para bem entender as novas tecnologias da informação e comunicaçõ é preciso, no mínimo, começar pelo telégrafo e ir devagar com andor.

Termino minhas considerações pelo primeiro motivo que me levou a escrever este post. Muita gente acha que a Internet está criando uma inteligência coletiva. Essa gente não vê inteligência coletiva como uma metáfora. Acredita mesmo que o planeta está se convertendo num grande cérebro graças à rede mundial de computadores. Se os fiéis de tal crença revelassem que a idéia é apenas uma metáfora, eu até aceitaria. O que não posso aceitar é a literalidade da expressão “inteligência coletiva”. E a idéia nem é original como muitos pensam, os entusiastas do rádio já tinham tal fé. Uma fé, hoje superada.

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3 Respostas to “Inteligência coletiva”

  1. NIVALDO OLIVEIRA JR Says:

    Olá Professor

    Muito bom o texto, quando li não pude deixar de escrever o comentário para sugerir, a quem interessar possa, a leitura do livro do Álvaro Vieira Pinto, O Conceito de Tecnologia, nele o autor apresenta dois conceitos bacanas: Maravilhar-se e Admirar-se. Tem algo bem próximo do seu questionamento final.

    Abraços
    Junior

    • jarbas Says:

      Grande Nivaldo. Bom ter você aqui no Boteco. Não li o livro do Álvaro Vieira Pinto. Vou atrás. Obrigado pela indicação. Numa literatura sobre tecnologia, história e cultura é preciso considerar obras de mais dois outros autores: Lewis Mumford e David Noble. Um dia posto algo sobre estes dois últimos. Abração.

  2. NOVAS TECNOLOGIAS: RESISTÊNCIA E SUBMISSÃO | Boteco Escola Says:

    […] The Master Switch […]

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