Filosofia do Vinho

Acabo de ler The Philosophy of Wine, de Cain Todd. Quando encomendei a obra, achei que o termo filosofia no caso era utilizado de maneira genérica. Esperava um livro no qual o autor desenvolveria temas de enologia com certa dose de sofisticação intelectual. Estava enganado. A obra é filósofica naquele sentido de ciência rigorosa da definição de Edmund Husserl. Ao mesmo tempo, o autor viaja com gosto e competência pelos campos da enologia. Delícia de livro.

Para justificar apreciações e julgamentos de vinhos, Todd sugere abordagens bastante originais no campo da Filosofia. Comenta que as práticas de produção, degustação e avaliação da charmosa bebida sinalizam necessidades de um exame mais detido de duas áreas do filosofar: Epistemologia e Estética. No campo epistemológico, as práticas que envolvem o vinho mostram um conhecimento que as abordagens tradicionais não consideram. O exame do objeto vinho acontece com base em informações olfativas e degustativas. Isso propõe uma pergunta: olfato e gosto podem ser bases para a verdade? Estamos acostumados a priveligiar vista e ouvido como fontes de saber verdadeiro e objetivo. Considerar gosto e olfato em reflexões epistemológicas é uma novidade (essa novidade pode ter desdobramentos em muitas áreas, educação é uma delas). É, ao mesmo tempo, sugestão que aponta para visões (olha aí o predomínio da visão em nossa linguagem sobre o saber!) mais completas de mundo. Em síntese: o vinho sugere pistas muito interessantes do ponto de vista epistemológico.

No campo estético o desafio também é bonito (desculpem este toque de redundância). Talvez mais que no campo da Epistemologia, a Estética é uma reflexão filosófica que privilegia visão e ouvido. Quando falamos em arte, geralmente falamos em pinturas, esculturas e músicas. Olho e ouvido. Pensar em perfume, vinhos e comida com objetos estéticos é um desafio e tanto. Rompe com nosso senso comum. Assim como no campo epistemológico, a discussão sobre um objeto distinto que independa do sujeito é algo bastante desafiador na área da Estética. Cabem perguntas sobre possibilidade de arte na produção e degustação de vinho.

Todd faz uma reflexão filosófica rigorosa, mas sempre ao alcance dos não-filosófos. Articula viagens epistemológicas e estéticas com casos famosos de apreciação e julgamento de vinhos. A obra toda, com já disse, é uma delícia. Merece degustação.

Eu não precisaria justificar este post aqui no Boteco Escola, mas vou fazê-lo. Talibans da tecnologia educacional podem me acusar de desvio intolerável. Onde já se viu falar de vinhos num blog que se dedica a educação, a informática e educação, e, mais particularmente, a blogs e educação. Meus argumentos de defesa:

  1. O livro de Todd é uma obra filosófica séria. Sugere reflexões instigantes no campo da Epistemologia e da Estética. É um texto que gente de tecnologia educacional deve ler para não se prender a tecnalidades bobas e entender melhor o que é ser humano.
  2. Iso aqui é um boteco. E quer ser um boteco fino. Por isso, certo saber enológico não pode ficar ausente deste blog. De vez em quando, fregueses aqui da casa precisam degustar um vinho de boa safra, capaz de preencher necessidades de prazer que só uma obra de arte pode garantir. Para isso, como diz Cain Todd em seu livro, é preciso conhecimento.
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3 Respostas to “Filosofia do Vinho”

  1. Eduardo Chaves Says:

    Fantástico, Jarbas. Admiro você cada vez mais, desde que o reencontrei aqui no Facebook. Extrafeicebuquemente nos encontramos poucas vezes — a primeira delas em Bauru, sob o patrocínio de nosso querido Tonhão, creio que em 2003, ou um pouco antes. Como já estamos ambos (na verdade, os três) com idade um pouco avançada, quem sabe poderíamos aproveitar algum do tempo que nos resta em algum boteco de verdade bebendo um pouco de vinho?

    • jarbas Says:

      Caro Eduardo, vamos combinar essa degustação. Conheço um boteco perfeito para tanto, o Cosi, casa que faz uma comida italiana impecável. Seria legal se a gente púdesse contar tb com o Tonhão no evento. Entrarei em contato pra gente resolver detalhes.

      Outra coisa: ter sua admiração é grande privilégio.

      Outra coisa ainda: já sugeri tradução de The Philosophy of Wine para o português. A editora gostou da idéia, mas não tocou projeto pra frente. Quem sabe você pode ajudar na empreitada. Sugeri, inclusive que o prefácio fosse escrito por um filósofo que aprecia vinhos, nosso amigo comum Aquiles von Zuben.

      Abraço.

  2. Epistemologia, metodologia científica e percepção « Boteco Escola Says:

    […] De imediato, escrevi no Face a seguinte resposta para minha amiga: Ivete Palange, levanta aqui uma questão interessante em metodologia da pesquisa. Em termos mais gerais, a questão que ela levanta tem a ver com entendimentos espistemológicos em suas relações com a percepção. Equiparamos “conhecer” a “ver”. Quando enfatizamos abordagens empíricas, a necessidade de “medidas”, quase sempre, ficam reduzidas a espectos que passam pelo tato. Olfato e gosto ficam de fora. Escrevi um pouco sobre isso numa resenha que fiz sobre o livro The Philosophy of Wine. […]

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