Palavras tem história

Cá estou na bonita e confortável sala de espera do Aeroporto de Carrasco, Uruguai. Na mão, o delicioso El Secreto del Gazpacho, romance de Gervasio Posadas, publicitário e escritor uruguaio.

Palavras tem história. Mas, no geral, a gente ou não sabe ou não toma consciência da história das palavras que utilizamos. Algumas vezes a origem de certas palavras está na cara. A gente, porém, não consegue ver. De repente, por causa de algum acidente feliz ou de comentário de alguém, cai a ficha. Descobrimos algo que deveríamos saber desde sempre. Foi o que aconteceu comigo com relação à palavra fidalgo.

Em minha última visita ao Uruguai adquiri alguns romances de autores contemporâneos daquele país. Um desses romances é Clara , la Loca, de Mercedes Vigil. Numa passagem do romance, a autora cita fala do Governador de Buenos Aires em 1726. Reproduzo aqui o texto de tal fala conforme o original:

Por honrar las personas, hijos e descendientes legítimos de los que se obligaren a hacer población, y la hubieren acabado e cumplido su asiento, los haremos hijosdalgo de solar conocido, para que en aquella población y otras cualesquiera partes de las Indias sean hijosdalgo y personas nobles de linaje y solar conocido, y por tales sean habidos y tenidos, y les concedemos las honras y preeminencias que deben haber y gozar los hijosdalgo y caballeros de estos Reinos de Castilla, según fueros, leyes y costumbres de España.

A declaração do governador de Buenos Aires cairia como luva para o Brasil Colônia. Por aqui, assim como na região do Cone Sul, a colonização foi feita sobretudo por aventureiros, bandidos, gente sem eira nem beira. A região não tinha as riquezas do Peru e México, colônias que mereceram interesse maior de nobres, soldados profissionais e comerciantes de sucesso. Para o Sul da América do Sul vinha uma escória da qual Portugal e Espanha queriam se livrar. Por isso, o trecho aqui reproduzido tem muito de ironia. O Governador se propunha a nobilitar os aventureiros que se dispusessem a povoar terras inóspitas do Continente. Essa pequena observação de cunho histórico serve para contextualizar a palavra hijosdalgo.

Ao ler Mercedes Vigil tomei consciência pela primeira vez do significado original de fidalgo (filhodalgo). Nos velhos tempos, e talvez ainda hoje, filho de alguém respeitável (nobre com solar conhecido) era fidalgo. A grande maioria não era fidalga, ou seja não tinha origem que pudesse ser levada em conta. No fundo, os outros eram filhos-de-ninguém.

Caiu, com disse, a ficha. Fidalgo é palavra que nasceu numa sociedade altamente discriminatória. Por isso, alguns fidalgos que por aqui foram obrigados a viver abominavam aventureiros que obtinham sucesso e dinheiro nas Américas. Esse é o caso, por exemplo de Gregório de Matos, grande poeta que viveu na Bahia. Gregório tem versos cruéis contra senhores de engenho que não eram “fidalgos”. Em resumo: li e utilizei uma vida inteira a palavra fidalgo sem qualquer consciência de sua história.

Aproveito a oportunidade para falar de duas outras palavras: judiar e safado. A primeira, é um verbo criado a partir da palavra judeu. Ela surgiu nos meios cristãos convencidos de que os judeus eram responsáveis pelos sofrimentos infligidos a Jesus Cristo. Vejam a carga de antissemitismo que tal palavra carrega. Safado é um adjetivo derivado de Safo, grande poetisa grega. Ela era gay. Escreveu lindos versos para amantes suas. Por issso, não convém utilizar a expressão “cabra safado”. Ela retrata milhares de anos de preconceito contra uma mulher admirável.

Não continuo com minhas considerações. Registro apenas que a história das palavras pode ser um item interessante de educação. É bom saber o peso histórico de expressões que utilizamos. E, algumas vezes, convém abandonar o uso de certas palavras para não perpetuar preconceitos ou injustiças.

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Uma resposta to “Palavras tem história”

  1. JUVENAL Says:

    JARBAS – Você está um verdadeiro fidaldo na sala de espera do aeroporto Carrasco de Montevideo. Só faltou a bengala. E eu que ainda não sei o que é “website”. Por isso omiti o dado. Será que devo perguntar ao Tonhão que me trouxe até aqui? Talvez eu tenha um e nem saiba. Como o Ataulfo Alves que era feliz e não sabia. Mas quem sabe? È certo: ou as palavras vem de uma história ou são onomatopaicas. De onde viriam, então? Alma vem de sopro. Sopro vem de “pneu”. E “pneu” vem daquele biquinho que a gente faz quando assopra – pfuuuu – que coisa mais prosaica. Esperamos você em Avaré. Não esqueça a bengala. Abraços.

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