Não há livros online

Primeiro piso da livraria Más Puro Verso, Montevideo, Uruguay. Pequeno paraíso para amantes de livros.

Computadores são grandes imitadores. Podem simular nichos ecológicos, sistemas planetários etc. Além disso, são capazes de guardar qualquer coisa que possa ser digitalizada. Entre tais coisas estão os livros. Livros digitalizados são apenas cópias da coisa em si. São simulacros. Os livros continuam a ser objetos físicos, constituídos por páginas sequenciais limitadas por capa e contracapa.

Não me estendo no assunto. Estou apenas fazendo registro de conversa que tive hoje sobre livros com meu amigo Antônio Roberto Bertelli e o editor José Carlos Venâncio. Da conversa, ficou claro para mim que fotografia de livro (livro escaneado) não é livro, é fotografia. Os computadores podem fotografar e arquivar livros. Tudo bem. Mas, não chamemos tais cópias de livros.

Na conversa com dois grandes profissionais da área editorial, citei Donald Norman. Este, num comentário sobre computadores, observa que ainda não conseguimos produzir obras originais na utilização do novo meio. Vivemos ainda a síndrome da carruagem, um fenômeno que dominou a imaginação dos primeiros construtores de carros. Eles não conseguiam mudar o modelo que tinham de veículos “modernos”. Continuavam a pensar em carruagens puxadas por cavalos. Por isso, os primeiros carros eram apenas carruagens sem tração animal. Demorou bastante para que os designers de automóveis percebessem que estavam lidando com um tipo de veículo completamente diferente de tudo que existira até então.

É vã a pretensão de produzir livros para computadores. O que precisa ainda ser inventado é um objeto de comunicação, com alguma raiz em livros, que inaugure uma nova espécie. Isso exige muita imaginação. Exige arte, como nota Norman. Exige invenção. E, é claro, depende muito pouco de “engenheiros”. Depende de autores capazes de produzir um tipo de obra completamente original.

Esquematizei linhas gerais de uma discussão que ainda precisa ser feita. Daqui algum tempo pretendo voltar ao assunto com mais vagar.

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5 Respostas to “Não há livros online”

  1. Carlos Seabra Says:

    Jarbas, interessantíssimo tema, de reflexão e debate imperiosos, quando a cada ebook que acessamos o principal sentimento é de uma mera transposição da velha (e adequada) carroça de tração animal para uma carroça feita de bits.

    Um desafio para autores e editores, pensar em apropriação mais completa da tecnologia, com criatividade e não mera transposição…

    Os caminhos e as possibilidades são inúmeras, desde usar-se links nos nomes dos personagens e lugares, que abririam janelas para outras ocorrências no texto, ilustrações contextuais e até mesmo efeitos sonoros e musicais.

    Boa parte desses recursos, no entanto, creio que afetariam o modo como nosso cérebro constrói as imagens, podendo levar a uma facilitação empobrecedora. Isso exige uma parcimônia e uma adequação do uso desses recursos multimídia que sejam estruturais na criação literária e não meros enfeites a posteriori, introduzidos na editoração.

    Este teu post me lembrou do “O jogoo da amarelinha” do Cortázar, que ainda sem acesso às novas tecnologias propõe lúdicos caminhos de leitura e releitura…

  2. jarbas Says:

    Belo comentário. O engraçado é que, até minha conversa com o Bertelli e o Zé Carlos eu não tinha pensado na impossibilidade de livros digitais. Considerava cópias com a própria coisa copiada. Acabei fazendo uma ‘descoberta’ na tentativa de vencer a desconfiança do Bertelli com relação aos computadores.
    Acho que o caminho atual ou o de pura cópia ou de adaptação de livros ao novo ambiente é um equivoco. O desafio é outro. Há um novo objeto de comunicação, inspirado pelo velho livro, que precisa ser inventado. Como observei no post, isso tem a ver com autoria, com criação artística. Como tal objeto ainda não foi inventado não tenho condições de descrevê-lo,
    Acho que grandes escritores podem ser desafiados a criar o objeto que não sei como nomear. Insisto aqui na questão da autoria. Precisamos de gente que saiba ‘escrever’ na tela, compreendendo bem seus recursos e as possibilidades que oferece em termos de criação de obras originais, capazes de emocionar, de envolver ‘leitores’, de contar histórias etc. Infelizmente continuo a utilizar palavras que tem a ver com livros. Mas, assim, que algumas das obras com as quais sonho forem ‘escritas’, teremos palavras que expressarão o novos conceitos de uma nova arte.

  3. Carlos Seabra Says:

    Enquanto narrativa é preciso saber-se e inventar-se essa nova arte, tal como o cinema em relação ao teatro (no início “carroça” do mesmo, acabando por se descobrir enquanto sétima arte).

    Mas você fala também em “objeto” (difícil de nomear ou descrever). Uma coisa deve ser levada em conta: objetos possuem jeitos de serem pegados, usados. Essa usabilidade, essa “pegada” nova, será baseada na interação do digital com o analógico, da narrativa com o lúdico, da fruição do leitor-usuário de modo sedutoramente cúmplice com os autores.

    E a autoria, na maioria dos casos, tenderá a ser mais coletiva do que individual, do mesmo modo que da literatura para o teatro e deste para o cinema há várias camadas que se agregam em para gerar essas obras coletivas.

    O essencial, como em todas as interações humanas, da arte ao comércio, do sexo à ciência, é isso que você bem resumiu: a capacidade de emocionar, de envolver as pessoas, permitindo que elas mergulhem na aparente inesgotabilidade que é o que dá dimensão à arte.

    A interação do livro-tradicional (papel ou digital) com novos-objetos (apps de celular, tablet ou na web, enquanto não inventam a holografia interativa) permitirá interessantes possibilidades.

  4. Adriana Says:

    Mesmo convivendo com tanta tecnologia ao meu redor, cofesso que ainda nao consegui me acostumar com a idéia de trocar o livro por um ebook. Nada contra, mas para mim, o prazer de ler está exatamente em folhear pagina por página e usar e abusar da imaginaçao.
    Com certeza, para mim, ainda falta “algo a mais” para me convencer que andar com um Ipad é muito mais gostoso do que ir a uma livraria ou biblioteca e pegar um bom livro para ler.

  5. Tiago Says:

    Olá pessoal convido vocês a acessarem o blog-arte http://www.continentalcultural.blogspot.com
    que desenvolvo com meus alunos da escola publica estadual na periferia da cidade de Guarulhos há 3 anos. Se puderem se cadastrem em nosso ateliê virtual e comentem nossas matérias. Toda equipe ficará bastante lisonjeada com suas criticas, sugestões, etc.
    Tiago Ortaet
    Arte/Educador
    http://www.continentalcultural.blogspot.com

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