No frigir dos ovos

Acabo de receber, via e-mail, mensagem com um texto criativo, interessante e  engraçado. O autor elabora escrito cheio de metáforas que vêm da cozinha, da horta ou do armazém.

Bom texto para aulas de redação. Professores de português poderiam, a partir dele, propor desafios para escritos que explorassem metáforas em outros campos. Por falar em outros campos: que tal futebol?

Para quem tem formação acadêmica rigorosa, lê inglês, e quiser explorar metáforas mais a fundo, sugiro leitura de Metaphors We Live By, de Lakoff e Johnson.

Acho que o que mais interessa aqui é o texto que recebi. Assim, sem mais delongas, reproduzo-o a seguir.

Autor: Guaraci Neves

Pergunta:
Alguém sabe me explicar, num português claro e direto,
sem figuras de linguagem, o que quer dizer a expressão
“no frigir dos ovos”?

Resposta:
Quando comecei, pensava que escrever sobre comida
seria sopa no mel, mamão com açúcar. Só que depois de
um certo tempo dá crepe, você percebe que comeu gato
por lebre e acaba ficando com uma batata quente nas mãos.
Como rapadura é doce mas não é mole, nem sempre você tem idéias e pra descascar esse abacaxi só metendo a mão na massa.
E não adianta chorar as pitangas ou, simplesmente, mandar tudo às favas.
Já que é pelo estômago que se conquista o leitor, o negócio é ir comendo o mingau pelas beiradas, cozinhando em banho-maria, porque é de grão em grão que a galinha enche o papo.
Contudo é preciso tomar cuidado para não azedar, passar do ponto, encher linguiça demais. Além disso, deve-se ter consciência de que é necessário comer o pão que o diabo amassou para vender o seu peixe. Afinal não se faz uma boa omelete sem antes quebrar os ovos.

Há quem pense que escrever é como tirar doce da boca de criança e vai com muita sede ao pote.
Mas como o apressado come cru, essa gente acaba falando muita abobrinha, são escritores de meia tigela, trocam alhos por bugalhos e confundem Carolina de Sá Leitão com caçarolinha de assar leitão.
Há também aqueles que são arroz de festa, com a faca e o queijo nas mãos, eles se perdem em devaneios (piram na batatinha, viajam na maionese… etc.). Achando que beleza não põe mesa, pisam no tomate, enfiam o pé na jaca, e no fim quem paga o pato é o leitor que sai com cara de quem comeu e não gostou.
O importante é não cuspir no prato em que se come, pois quem lê não é tudo farinha do mesmo saco. Diversificar é a melhor receita para engrossar o caldo e oferecer um texto de se comer com os olhos, literalmente.
Por outro lado se você tiver os olhos maiores que a barriga o negócio desanda e vira um verdadeiro angu de caroço. Aí, não adianta chorar sobre o leite derramado porque ninguém vai colocar uma azeitona na sua empadinha, não. O pepino é só seu, e o máximo que você vai ganhar é uma banana, afinal pimenta nos olhos dos outros é refresco…
A carne é fraca, eu sei. Às vezes dá vontade de largar tudo e ir plantar batatas. Mas quem não arrisca não petisca, e depois quando se junta a fome com a vontade de comer as coisas mudam da água pro vinho.
Se embananar, de vez em quando, é normal, o importante é não desistir mesmo quando o caldo entornar. Puxe a brasa pra sua sardinha, que no frigir dos ovos a conversa chega na cozinha e fica de se comer rezando. Daí, com água na boca, é só saborear, porque o que não mata engorda..

Entendeu agora o que significa “no frigir dos ovos”?

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3 Respostas to “No frigir dos ovos”

  1. Doralice Araújo Says:

    Sempre uma ótima postagem contribuitiva, prezado Jarbas.

    Receba o meu abraço.

    • jarbas Says:

      Cara Doralice,

      Uma honra recebê-la uma vez mais neste estabelecimento.
      Quando escrevi o post pensei em você. O texto que estou divulgando é muito criativo. Não tem mérito literário. Tem até alguns defeitos de redação. Mas, é um exercício instigante. Acho que a idéia de brincar com metáforas, com o faz o autor, pode despertar interesse de escrevinhadores aprendizes. Abraço grande, Jarbas.

  2. Conceição Rosa Says:

    Estou copiando e repassando… Muito interessante e divertido!

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