Impacto tecnológico e mudança social

Preocupa-me o entusiasmo deslumbrado de alguns educadores por certas ferramentas digitais que podem ajudar docentes e alunos a produzirem pequenas peças de comunicação. Há exemplos a vontade. Um dos meus preferidos é o Pilot, um aplicativo (na verdade, uma metalinguagem) que, nos anos 80, facilitava a produção de conteúdos num ambiente gráfico que combinava texto, imagem e movimento. Há o Scractch que facilita a produção e publicação de histórias ilustradas e movimentadas. Há…, deixa pra lá, não vou pertubar o leitor com uma relação extensa de ferramentas digitais.

Do Pilot quase ninguém se lembra (conheço apenas uma pessoa que dele se recorda, o Eduardo Chaves). Gente que o utilizava chegou a pensar que o dito cujo iria provocar uma revolução na educação. Mas, o tal se foi, sem deixar grandes saudades, e figura hoje no grande arquivo de memórias de pequenas invenções inteiramente esquecidas e dispensáveis. O Scratch segue o mesmo roteiro. Duvido que alguém dele vá se lembrar daqui uns quinze anos; e olhem que estou sendo muito generoso neste meu cálculo.

Nada tenho  contra aplicativos (ou metalinguagens) como o Pilot ou o Scratch e até os acho interessantes. Minha preocupação nada tem a ver com uso. Tem a ver com interpretações de que essas ferramentas transitórias são tecnologias revolucionárias, capazes de mudar profundamente a educação. Minha preocupação tem a ver com a compreensão de quais são os impactos significativos das tecnologias na história humana, virtude que o Pilot, o Scratch e outros aplicativos não têm.

Acho que um modo de superar entusiasmos equivocados dos educadores frente a instrumentos “da hora” é o estudo da história da tecnologia. Tal estudo costuma mostrar que as tecnologias precisam ser vistas em cortes de longo prazo. Com isso, não se fica deslumbrado com detalhes. O que importam são os grandes cenários. Um exemplo: relógios mecânicos. Essas máquinas de registro do tempo surgiram no final da Idade Média e começos do Renascimento. Foram continuamente aperfeiçoadas. Mas, seus efeitos sobre a sociedade não dependeram de progressivos aperfeiçoamentos. Dependeram dos dos efeitos de controle social que a máquina do tempo trouxe para permitir coordenação de ações simultâneas de milhares de pessoas. O velho relógio mecânico permitiu, por exemplo, que todas as fábricas começassem turnos de trabalho com absoluta precisão; permitiu ainda que o controle de tempos e movimentos dos trabalhadores pudesse ser feito “cientificamente”. Não é por acaso que a figura dominante nos créditos iniciais de Tempos Modernos seja um imenso relógio. Se você ainda não reparou nisso, segue aqui o VT das cenas iniciais do filme do grande Charles Chaplin.

O autor pra se ler em estudos da história da tecnologia é Lewis Mumford. Em Technics and Civilization ele faz uma análise preciosa dos impactos do relógio na vida humana. Copio aqui um pequeno trecho para que o leitor possa saborear o tempero de Mumford:

O relógio, acima de tudo, é uma peça do poder da máquina cujos produtos são segundos e minutos; por sua natureza essencial ele dissocia o tempo dos eventos humanos e ajuda a criar a crença num mundo independente das sequências matematicamente mensuráveis, o mundo especial das ciências. (p.15)

Convém reparar que aperfeiçoamentos posteriores do relógio nada mudaram em termos essenciais. A natureza de um tempo abstrato, independente dos astros, das estações, dos ritmos biólogicos permaneceu inalterada com o advento de máquinas do tempo atômicas, digitais etc. Vistos em perspectiva de longo prazo, velhos relógios do século XIV ou modernos cronômetros de hoje são basicamente a mesma máquina.

Há muitas outras tecnologias que precisam ser vistas de modo parecido com a visão do relógio descortinada por Mumford. Convido o leitor a pensar sobre um meio de transporte que anda meio escanteado, o trem. E, como forma de introdução ao assunto, sugiro um momento musical: O Trezinho Caipira, de Villa Lobos.

Muita gente gravou essa peça do nosso grande músico com a seguinte letra:

Lá vai o trem com o menino
Lá vai a vida a rodar
Lá vai ciranda e destino
Cidade e noite a girar
Lá vai o trem sem destino
Pro dia novo encontrar
Correndo vai pela terra
Vai pela serra
Vai pelo mar
Cantando pela serra o luar
Correndo entre as estrelas a voar
No ar, no ar…

Os versos criados para o Trenzinho Caipira são românticos, ingênuos. Passam uma visão saudosista do trem. Mas, esse meio de transporte é uma das mais revolucionárias invenções da história recente. E mais, ele está voltando com enorme força. Não vou me estender em conversas sobre trens e modernidade, até porque o grande historiador Tony Judt fez isso num ensaio recente, publicado em janeiro deste ano pelo New York Review of Books. Achei que as observações de Judt tem muito a ver com visões de longo prazo dos fenômenos tecnológicos. Por isso, traduzi parte do seu ensaio e encaminhei o texto para publicação no blog de uma amigo meu, o Trens da Vida. Leitores interessados poderão ler o escrito de Judt com um clique aqui.

O apelo que faço a tecnófilos que se encantam com pequenas maravilhas da informática é o de que olhem para a megamáquina chamada computador e vejam-na em perspectiva de longo prazo. Isso servirá para que se coloquem coisas como o Pilot e o Scratch no devido lugar. Servirá também para que se pense mais nos impactos essenciais das tecnologias da comunicação na educação. Espero que os exemplos que dei, do relógio e do trem, em abordagens de gente grande como Mumford e Judt, passem uma idéia do que entendo por estudos sobre tecnologia que educadores devem empreender.

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2 Respostas to “Impacto tecnológico e mudança social”

  1. Karol Coelho Says:

    Professor,

    concordo que as pessoas se empolgam muito desnecessariamente com as tecnologias.
    A educação depende muito mais das pessoas do que de tecnologias.
    Os meios tecnológicos de comunicação mudam e têm impacto social/educacional os que desenvolvem diálogos/debates e reflexões não superficiais à longo prazo.

    Muito bom!

  2. Conceição Rosa Says:

    Olá professor

    Acho que independente dos deslumbramentos quanto às ferramentas momentâneas ou dos “modismos tecnológicos”, é preciso observar o contexto em que se pretende utilizá-las. Percebo que os computadores estão transformando a escola de fora para dentro, principalmente para organização e controle, mas a principal transformação que precisaria ser estabelecida para assimilar seu impacto essencial na educação passa pelo crivo da relação que os grupos sociais estabelecem quanto ao conhecimento. Vejo, dentro do contexto sócioeducativo do qual participo, a “megamáquina” sendo utilizada principalmente nos processos comunicativos e de lazer, mas ainda não concebida – e estabelecida – como um “meio” para se estabelecer o aprendizado.
    Segundo Pierre Lévy * : nenhuma aquisição de sentido “encontra-se previamente garantida, nenhum avanço técnico é determinado a priori, antes de ter sido submetido à prova do coletivo heterogêneo, da rede complexa onde ela deverá circular e que ela conseguirá, eventualmente, reorganizar.”
    Estamos, no Brasil do século XXI, com todas as diferenças com as quais convivemos, absorvendo e descartando ferramentas tecnológicas diversas. Mas principalmente, estabelecendo relações cruciais com o conhecimento e a aprendizagem.
    O que volta a discussões levantadas anteriormente aqui neste Boteco…

    *In As Tecnologias da Inteligência, Editora 34, 1993.

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