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Impacto tecnológico e mudança social

fevereiro 17, 2011

Preocupa-me o entusiasmo deslumbrado de alguns educadores por certas ferramentas digitais que podem ajudar docentes e alunos a produzirem pequenas peças de comunicação. Há exemplos a vontade. Um dos meus preferidos é o Pilot, um aplicativo (na verdade, uma metalinguagem) que, nos anos 80, facilitava a produção de conteúdos num ambiente gráfico que combinava texto, imagem e movimento. Há o Scractch que facilita a produção e publicação de histórias ilustradas e movimentadas. Há…, deixa pra lá, não vou pertubar o leitor com uma relação extensa de ferramentas digitais.

Do Pilot quase ninguém se lembra (conheço apenas uma pessoa que dele se recorda, o Eduardo Chaves). Gente que o utilizava chegou a pensar que o dito cujo iria provocar uma revolução na educação. Mas, o tal se foi, sem deixar grandes saudades, e figura hoje no grande arquivo de memórias de pequenas invenções inteiramente esquecidas e dispensáveis. O Scratch segue o mesmo roteiro. Duvido que alguém dele vá se lembrar daqui uns quinze anos; e olhem que estou sendo muito generoso neste meu cálculo.

Nada tenho  contra aplicativos (ou metalinguagens) como o Pilot ou o Scratch e até os acho interessantes. Minha preocupação nada tem a ver com uso. Tem a ver com interpretações de que essas ferramentas transitórias são tecnologias revolucionárias, capazes de mudar profundamente a educação. Minha preocupação tem a ver com a compreensão de quais são os impactos significativos das tecnologias na história humana, virtude que o Pilot, o Scratch e outros aplicativos não têm.

Acho que um modo de superar entusiasmos equivocados dos educadores frente a instrumentos “da hora” é o estudo da história da tecnologia. Tal estudo costuma mostrar que as tecnologias precisam ser vistas em cortes de longo prazo. Com isso, não se fica deslumbrado com detalhes. O que importam são os grandes cenários. Um exemplo: relógios mecânicos. Essas máquinas de registro do tempo surgiram no final da Idade Média e começos do Renascimento. Foram continuamente aperfeiçoadas. Mas, seus efeitos sobre a sociedade não dependeram de progressivos aperfeiçoamentos. Dependeram dos dos efeitos de controle social que a máquina do tempo trouxe para permitir coordenação de ações simultâneas de milhares de pessoas. O velho relógio mecânico permitiu, por exemplo, que todas as fábricas começassem turnos de trabalho com absoluta precisão; permitiu ainda que o controle de tempos e movimentos dos trabalhadores pudesse ser feito “cientificamente”. Não é por acaso que a figura dominante nos créditos iniciais de Tempos Modernos seja um imenso relógio. Se você ainda não reparou nisso, segue aqui o VT das cenas iniciais do filme do grande Charles Chaplin.

O autor pra se ler em estudos da história da tecnologia é Lewis Mumford. Em Technics and Civilization ele faz uma análise preciosa dos impactos do relógio na vida humana. Copio aqui um pequeno trecho para que o leitor possa saborear o tempero de Mumford:

O relógio, acima de tudo, é uma peça do poder da máquina cujos produtos são segundos e minutos; por sua natureza essencial ele dissocia o tempo dos eventos humanos e ajuda a criar a crença num mundo independente das sequências matematicamente mensuráveis, o mundo especial das ciências. (p.15)

Convém reparar que aperfeiçoamentos posteriores do relógio nada mudaram em termos essenciais. A natureza de um tempo abstrato, independente dos astros, das estações, dos ritmos biólogicos permaneceu inalterada com o advento de máquinas do tempo atômicas, digitais etc. Vistos em perspectiva de longo prazo, velhos relógios do século XIV ou modernos cronômetros de hoje são basicamente a mesma máquina.

Há muitas outras tecnologias que precisam ser vistas de modo parecido com a visão do relógio descortinada por Mumford. Convido o leitor a pensar sobre um meio de transporte que anda meio escanteado, o trem. E, como forma de introdução ao assunto, sugiro um momento musical: O Trezinho Caipira, de Villa Lobos.

Muita gente gravou essa peça do nosso grande músico com a seguinte letra:

Lá vai o trem com o menino
Lá vai a vida a rodar
Lá vai ciranda e destino
Cidade e noite a girar
Lá vai o trem sem destino
Pro dia novo encontrar
Correndo vai pela terra
Vai pela serra
Vai pelo mar
Cantando pela serra o luar
Correndo entre as estrelas a voar
No ar, no ar…

Os versos criados para o Trenzinho Caipira são românticos, ingênuos. Passam uma visão saudosista do trem. Mas, esse meio de transporte é uma das mais revolucionárias invenções da história recente. E mais, ele está voltando com enorme força. Não vou me estender em conversas sobre trens e modernidade, até porque o grande historiador Tony Judt fez isso num ensaio recente, publicado em janeiro deste ano pelo New York Review of Books. Achei que as observações de Judt tem muito a ver com visões de longo prazo dos fenômenos tecnológicos. Por isso, traduzi parte do seu ensaio e encaminhei o texto para publicação no blog de uma amigo meu, o Trens da Vida. Leitores interessados poderão ler o escrito de Judt com um clique aqui.

O apelo que faço a tecnófilos que se encantam com pequenas maravilhas da informática é o de que olhem para a megamáquina chamada computador e vejam-na em perspectiva de longo prazo. Isso servirá para que se coloquem coisas como o Pilot e o Scratch no devido lugar. Servirá também para que se pense mais nos impactos essenciais das tecnologias da comunicação na educação. Espero que os exemplos que dei, do relógio e do trem, em abordagens de gente grande como Mumford e Judt, passem uma idéia do que entendo por estudos sobre tecnologia que educadores devem empreender.