Tudo passa, cada vez mais depressa

Uma das marcas de nosso tempo é a rapidez com a qual elementos da cultura material derretem, desaparecem, envelhecem, morrem, são esquecidos. Às vezes o que se vai é um rótulo, substituído por um outro nome, um outro apelo, uma viragem da moda. Por isso, o passado fica cada vez mais recente e, contraditoriamente, cada vez mais distante. Aquele sabonete famoso sumiu faz dez anos, mas parece que faz séculos. Usar chapéu parece costume do século XVIII, embora ainda fosse comum nos anos de 1950. Os computadores Apple IIe eram revolucionários em 1980. Hoje são peças de museu e parecem ter mais de cem anos.

As considerações que faço aqui situam um sentimento que é muito comum entre pessoas que lidam com tecnologias de informação e comunicação. Computadores e ferramentas digitais tornam-se obsoletas poucos meses depois de lançados no mercado. Há uma cultura de susbstituição constante de equipamentos, com muito mais urgência do que os apelos por compra do carro do ano. Os tempos de troca de velhos modelos já não são anuais, são mensais. O presente é um tempo cada vez mais curto.Tudo vira passado sem tempo para que experimentemos novos produtos em ritmo da vida determinado por processos biológicos. O presente passa a ser determinado pela velocidade de processos físicos efêmeros.

A redução do presente e a construção de um passado cada vez mais próximo tem elementos de tragédia. Não se vive. Corre-se para acompanhar uma mudança cada vez mais acelerada. Mas, há também elementos cômicos nessa história. Calça rancheira, camisa de tergal, O Direito da Nascer, Toddy, Grapete, etc., etc. são detalhes da biografia de boa parte da população. Mas, se alguém não nos lembrar, a memória destes e de outros detalhes desaparece no porão das coisas velhas.

Chega de conversa sobre hora da saudade. Fregueses do Boteco devem estar se perguntando por que todo este papo sobre coisas já desaparecidas. Esclareço. Acabei de receber do meu amigo Antônio Morales indicação de um belíssimo vídeo em que Jessier Quirino diz seu poema Vou-me embora pro passado. É hilário. Terno. Projeta sonhos de um mundo melhor. Mostra como abandonamos sem remorso belezas que talvez merecessem estar muito vivas neste tempo de violência, pressa, falta de gosto para usufruir coisas boas em ritmo vital. Vejam o vídeo. Pensem . E se lhes apetecer, comentem.

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4 Respostas to “Tudo passa, cada vez mais depressa”

  1. jennyhorta Says:

    Cada u de nós tem a sua saudade…bala Juquinha comprada na quitanda, almoço de domingo, depois da missa correndo buscar frango fresco no abatedouro da esquina pra fazer ao molho pardo…
    É muito bom lembrar o passado, não pelo passado em si, mas pra resgatar alguns valores de outras épocas que precisam continuar vivos.

  2. Conceição Rosa Says:

    “Lembranças quantas lembranças
    dos tempos que se lá vão
    vai para o céu a fumaça
    fica na terra o carvão…”

    Na lista das coisas do passado, acabei lembrando dos versinhos da última página da cartilha em que aprendi a ler. Aquela do vovô que viu o ovo, lembrada na frase de Jessier Quirino…

  3. Rodrigo Barato Says:

    Por coincidência eu pensei em mandar esse poema do Jessier Quirino para um amigo esses dias atrás.Ele recitou isso no programa Senhor Brasil do Rolando Boldrin ha algum tempo.
    Bom , com certeza entre minhas lembranças preferidas estão o doce de leite ou arroz doce da vó Ione no domingo…(inigualável)
    Agora , bom seria mesmo ,dar uma volta com ela pela pracinha da Igreja da cidade de Capetinga.Com certeza muitas histórias ecantadoras surgiriam com algo de mágico no ar.
    Abração.

  4. Andrea Says:

    Quantas lembranças foram despertadas ao ouvir esse poema e a maravilhosa interpretação de Jessier Quirino. Uma delícia ouví-lo.

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