Espetáculo e barbárie

Em post sobre o Super Bowl, no blog do New York Review of Books, Garry Wills faz algumas considerações sobre espetáculo e violência. O autor mostra que o espetáculo conhecido como futebol americano tem lances de violência nos quais  “corpos jovens soberbos são quebrados, e têm seus cérebros iremediavelmente prejudicados”.  No caso, o alvo da crítica não deve ser o esporte viril, mas a violência que torna o espetáculo mais atraente. No estádio e na TV, a turba se delicia com a violência, pede mais, quer “ver sangue”. Isso é uma regresso à barbárie, perigo que sempre nos ronda.

Wills exemplifica as tentações da barbárie a partir de um caso contado por Agostinho de Hipona em  Confissões. Agostinho narra que seu amigo Alípio era fissurado por lutas de gladiadores. Reconhece fraqueza e deixa de ver tais espetáculos. Mas, um dia, volta a uma arena. Fica de olhos fechados. O barulho da multidão assinala que há muita ação em curso. Alípio não se contém. Abre os olhos. Num instante está a gritar, pedindo mais violência, pedindo sangue. Reproduzo aqui o trecho completo de Confissões que narra o episódio, conservando a tradução para o inglês utilizada por Garry Wills.

The minute he saw blood, he was sipping animality, and turned no more away. With eyes glued to the spectacle, he absentmindedly gulped down frenzies. He took a complicit joy in the fighting, and was drunk with delight at the cruelty. No longer the person he was when he entered, he was now entered into the crowd, at one with those who forced him there. More—he stared, he shouted, he burned, he took away the madness he had found there and followed it back again, not only with those who had first drawn him, but dragging them and others on his own.

Cabe notar que em muitos espetáculos a violência não é física; é psicológica e moral. Nos meios de comunicação isso acontece com frequência. Há shows que utitilizam humilhação como principal componente nas tramas apresentadas.  Há um ótimo filme que retrata isso no cenário da recessão de 1929: They Shoot Horses, Don’t They? A película conta a história de um concurso de dança que oferecia prêmio para o casal que dançasse por mais tempo. O desespero da pobreza, da fome e do desemprego levava muitos casais a entrarem no concurso cruel. O fundo do espetáculo era a redução de pessoas a fantoches que faziam de tudo para ganhar. Em nosso tempo, tramas parecidas acontecem naquilo que se convencionou chamar de reality shows, onde pessoas são desumanizadas para divertir espectadores. Exemplo: BBB.

Infelizmennte, a volta à barbárie que acontece em muitos espetáculos da mídia não é percebida com clareza, nem criticada.

Tem gente que não compreende posts como este aqui no Boteco. Perguntam: o que isso tem a ver com educação, com tecnologia educacional, com comunicação? Minha resposta é breve: tem tudo a ver. Nossos meios de comunicação, cada vez mais, privilegiam o  espetáculo. E a comunicação “espetacular” é, cada vez mais, uma exigência em educação. Não podemos ignorar voltas à barbárie em nome do espetáculo. Se não ver o fenômeno, a educação pode embarcar em mecanismos que prejudicam civilização e favorecem barbárie.

Reproduzo aqui foto que ilustra o post de Garry Wills. Ela mostra cena de jogada na qual um atleta ficou seriamente contundido.

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Uma resposta to “Espetáculo e barbárie”

  1. Conceição Rosa Says:

    Ás vezes não conseguimos ver nitidamente a barbárie exposta no espetáculo, mas aturdidos, sentimos certo incômodo que pode nos levar a rejeitá-lo. Entre os filmes que tratam do tema barbárie e dezumanização, gostaria de lembrar “O Ovo da Serpente”, que, pela questão da manipulação, sempre me vem a lembrança em determinados momentos midiáticos…

    http://melhoresfilmes.com.br/filmes/o-ovo-da-serpente

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