Urgente, sua gata pariu!

É a primeira aula sobre de equações de segundo grau. O professor, muito up to date, utiliza uma tela com touch screen e um software interessante. Explica conceitos e manipula icógnitas arrastando-as de um para o outro lado do sinal de igualdade. Conversa com a classe. Quer perguntas. Tenta resolver as dúvidas que vão aparecendo. Pede opiniões, às vezes nominalmente, de como proceder para resolver os problemas que apresenta com apoio do software. Planeja passar uma série de exercícios, acessíveis on line, para serem resolvidos por duplas.

Chico sente a vibração de seu celular. Atende a chamada discretamente. É Chris, sua namorada, que anuncia emocionada:

_ Estou no veterinário. Sua gata acaba de ter sete gatinhos. Lindos. Saudáveis. Ela passa bem.

Chico se emociona. É o primeiro parto da Pauline. Aproveita para dar algumas instruçõoes para a Chris.

_ Avisa a Andrea e a Talita. Elas querem um gatinho. Põe no Twitter. Vamos ver se mais gente quer um filho da Pauline. Pergunta para a veterinária se minha gata precisa de alimentação especial, vitaminas, essas coisas. Te encontro assim que acabar as aulas.

A conversa continua por mais alguns minutos. Chico se desliga completamente do papo sobre equações de segundo grau. Uma chateação. Está preocupado com sua gata e com os sete gatinhos. Pensa no pai que não gosta de bicho em casa. Liga para a mãe. Quer que ela facilite as coisas com o velho. Ele tem que liberar grana para compra de umas coisinhas para os felinos.

Alê acaba de puxar uma cadeira pra perto e já tem na tela do laptop os exercicíos que deverão fazer em dupla. Chico não poderá colaborar. Provavelmente vai contar para o Alê que a Pauline deu cria. Equações de segundo grau? Sei lá, a gente vê depois.

Esta historinha é inventada. Mas, poderia ter acontecido em muitas escolas. Ela enfatiza a ânsia pela informação imediata, uma das marcas de nosso tempo. E fica a pergunta: é importante saber de imediato que sua gata pariu? Intervalo de quatro horas entre parto e anúncio da novidade faz diferença?

Vivemos num tempo que valoriza o imediato. E isso não é de agora. Faz cinquenta ou mais anos que testes de inteligência cobram rapidez. Nas aplicações, tempo é fator importante. Fica uma mensagem: rapidez de resposta é um dos sinais de inteligência. Há gente que até resolveria bem as questões se tivesse mais tempo. Mas, demora para resolver problemas é tida como sinal de burrice.

Tempos da vida podem ser demorados. E talvez não valha a pena acelerá-los. A cultura do fast food não faz bem à saúde. Boa alimentação precisa respeitar a biologia. Caso contrário, obesidade e gastrite aumentarão muito gastos com médicos. Mas, parece que não paramos para pensar nisso. Não temos tempo. Essa ignorância dos ritmos naturais explica comportamentos retratados na historinha que conto aqui.

Há muito mais o que dizer sobre o parto da gata, equações de segundo grau, celular nas escolas, imediatismo, secundarização dos encontros cara a cara etc. Por isso, voltarei a considerar muitas coisas sobre as quais a gente pode conversar a partir momentoso parto da Pauline.

Tomei a liberdade de reproduzir foto feita por um amigo. Este é o bichano do Carlos Seabra. Chama-se Ernesto. Talvez seja o pai dos filhos da Pauline. Chico quer um teste de DNA.

4 Respostas to “Urgente, sua gata pariu!”

  1. Ivo Martins Cambuí Says:

    Mestre Jarbas… pertinente suas inquietações
    Plenamente de acordo… educação sempre será a grande prioridade, seja a que velocidade for e em quais recursos tecnológicos se lançar mãos.
    Que o “Ernesto” assuma a responsabilidade!!!

    • jarbas Says:

      Caro Ivo,

      Bom receber comentário seu. Não sei se o Seabra permitirá teste de DNA com o Ernesto. Vai dizer que o bichano mia fino, é castrado.

  2. Egui Says:

    Ao ler seu texto, lembrei de uma história contada pelo professor Carlos Vianna (UFPR) que diz assim:
    Eis uma anedota pedagógica: durante a aula, um professor de matemática está elaborando problemas com a turma, preocupado em contextualizá-los para que tenham significado junto aos alunos. Ele escolhe uma aluna e menciona um mercado do bairro, elaborando o seguinte enunciado:
    Mariazinha foi ao mercado para comprar uma dúzia de ovos. Na volta, encontrou-se com uma amiga com a qual ficou brincando. Durante a brincadeira, quebraram-se quatro ovos. Com quantos ovos inteiros a Mariazinha chegou em casa?”.
    A turma permanece em completo silêncio… Até que timidamente uma garotinha do fundo da sala pergunta: “Professora, a Mariazinha
    apanhou quando chegou em casa?
    Era isso que quis dizer ao postar no twitter que os problemas dos professores nem sempre são os problemas dos alunos. Como o senhor bem mencionou, “problemas diferentes, tempos diferentes”.

    Super beijoca!!!

    VIANNA, C. R. Resolução de Problemas. In: Futuro Congressos e Eventos.
    (Org.). Temas em Educação I – Livro das Jornadas 2002. Curitiba: Futuro
    Congressos e Eventos, 2002

  3. Lucília Machado Says:

    Amigo Jarbas,

    O problema é que Chico não foi habituado a lançar mão do que estuda para resolver seus problemas imediatos. Ele poderia ter sua atenção atraída para as equações de segundo grau se soubesse que elas o ajudariam a simular quanto de grana seria necessário para manter os bichanos e sua mãe Pauline considerando-se a variação do número deles e de meses. Chico poderia também se interessar pelo uso das equações para simular a população de gatinhos que viria a constituir a descendência de Pauline ao longo de X, Y e Z anos.
    Sem saber para que servem as equações de segundo grau Chico encontrou um bom motivo para canalizar sua atenção, esta tão disputada hoje em dia por tantos outros eventos.
    Gostei do texto, engraçado e provocativo.
    Abraços,
    Lucília Machado

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