Censura “Pedagógica”

Recentemente sugestões contoversas sobre sobre uso de um texto de Monteiro Lobato nas escolas motivaram uma discussão a respeito da censura em obras literárias por motivos supostamente pedagógicos. Registrei o ocorrido num post aqui no Boteco Escola. E mais, apontei uma obra indispensável sobre o assunto: The Language Police, de Diane Ravitch. No mesmo post, remeti leitores interessados para uma resenha que escrevi sobre a obra de Ravitch, assim como para uma resenha do mesmo livro feita pela educadora portuguesa Helena Damião.

Guardei páginas de jornais e links da Web sobre o affaire Lobato, com o propósito de voltar ao assunto. Mas, o tempo passou e acabei não escrevendo novo post sobre a matéria.

Volto agora a situação que podemos chamar de censura pedagógica, uma “limpeza” de textos literários reconhecidamente valiosos para proteger nossos alunos. A prática joga a história na lata do lixo e abre janelas para uma censura cada vez mais extremada de escritores importantes para a tradição literária em todos os idiomas. A prática gera uma espécie de Santo Ofício laico, sempre disposto a “corrigir” o pensamento de grandes escritores. No limite, a censura pedagógica resultará em proibição total de muitas obras literárias nas escolas.

Não continuo a desenvolver o tema porque precisaria de mais tempo para redigir um texto mais analítico e de boa qualidade. O que escrevi até aqui tem por finalidade apenas introduzir notícia recente sobre censura a obras de Mark Twain, sempre com o argumento de que os alunos não devem ser expostos a escritos politicamente incorretos.

Copio, a seguir, notícia aparecida em Notícias UOL:

Editora causa polêmica nos EUA ao anunciar que cortará termos racistas em livros de Mark Twain

Do UOL Notícias
Em São Paulo

Uma editora dos Estados Unidos afirmou que pretende lançar uma nova versão de dois livros clássicos de Mark Twain (1835 – 1910) com texto diferente do texto original escrito pelo autor, desatando uma polêmica literária no país.

A proposta da NewSouth Books é eliminar todas as menções às palavras “nigger” e “injun”, dois termos vulgares que se referem a negros e índios, respectivamente, em uma nova edição conjunta de “As Aventuras de Huckleberry Finn” e “As Aventuras de Tom Sawyer”.

“Nigger” aparece mais de 200 vezes em todo o texto, segundo a “Publishers Weekly”, publicação especializada que trouxe a polêmica à tona, e por causa de seu teor racista seria substituída por “slave” – escravo – em todas as vezes. “Injun” será trocada por “índio”.

Por causa dos termos, o clássico esteve afastado dos currículos escolares nos EUA, e poderia ser reabilitado em sua versão politicamente correta. Para os críticos, a medida é uma censura à obra.

“Em uma radical diferenciação das edições padrão, os livros mais famosos de Twain são publicados aqui como a narrativa contínua que o autor planejava originalmente. Mais controversa será a decisão do editor, respeitado estudiosos de Mark Twain, Alan Gribben, de eliminar os termos raciais pejorativos que Twain utilizou em seu esforço de escrever de modo realista sobre a atitude social dos anos 1840”, anuncia a editora em seu site oficial. “Gribben aponta que dezenas de outras edições atualmente oferecem as inflamadas palavras, mas sua presença tem gradualmente diminuído a audiência potencial para duas das obras-primas de Twain”.

Para o estudioso, “as duas histórias podem ser apreciadas profundamente e autenticamente sem os contínuos encontros com as centenas de hoje indefensáveis gírias racistas”.

“Mark Twain House & Museum”, o principal museu dedicado ao autor nos EUA, já informou que defende a versão original do texto.

“Embora admiremos a pesquisa do dr. Alan Gribben e compartilhemos seu desejo de tornar o livro amplamente acessível em escolas, encorajamos os leitores a experimentar o texto original de Mark Twain sempre que possível”, afirmou o diretor do museu, Jeffrey Nichols.

“Nosso departamento de educação trabalha ativamente com escolas em todo o país para contextualizar as problemáticas relações raciais e uso da palavra com ‘n’ durante o período de vida de Twain. Convidamos os professores a entrarem em contato conosco se querem assistência em como integrar o texto em seus currículos de modo socialmente e historicamente responsável”, acrescentou.

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7 Respostas to “Censura “Pedagógica””

  1. Antonio Morales Says:

    Concordo integralmente com os críticos americanos. Não se deve mutilar uma obra literária segundo padrões do “politicamente correto”. Seja lá qual for a justificativa encobre o verdadeiro nome para tal procedimento: censura.

    • jarbas Says:

      Mudar palavras que refletem o falar de uma época é, entre outras coisas, ridículo. Quem pode garantir que a nova versão imposta pela censura pedagógica não será considerada inadequada amanhã? Que direito tem um especialista qualquer de “corrigir” um texto clássico?

      O que mais me amola em casos como o de Lobato e agora de Twain é a certeza dos “pesquisadores” que sabem o que deve ser dito para os alunos. Essa pedagogia literal (conduzir pela mão crianças nobres que precisam de proteção contra as maldades do mundo) é extremamente deseducativa.

      Há mais o que dizer sobre o assunto. Espero comentários.

  2. Tweets that mention Censura “Pedagógica” « Boteco Escola -- Topsy.com Says:

    […] This post was mentioned on Twitter by Jarbas Barato. Jarbas Barato said: Censura pedagógica de obras literárias volta à cena. Bola da vez: Mark Twain. http://bit.ly/eC0Ldg […]

  3. Brazil: Children’s Book Sparks Racism Debate · Global Voices Says:

    […] of Letters have protested [pt] the move. Jarbas, from the blog Boteco Escola (Pub School) [pt] described the case as “pedagogical […]

  4. Brazil: Children’s Book Sparks Racism Debate :: Elites TV Says:

    […] of Letters have protested [pt] the move. Jarbas, from the blog Boteco Escola (Pub School) [pt] described the case as “pedagogical […]

  5. Brasil: Livro Infantil Incita Debate sobre Racismo · Global Voices Says:

    […] da Academia Brasileira de Letras protestaram contra a medida. Jarbas, do blog Boteco Escola descreveu o caso como “censura […]

  6. Brazylia: Książka dla dzieci wywołała debatę na temat rasizmu · Global Voices Says:

    […] przeciwko temu posunięciu.  Jarbas, z blogu Boteco Escola (Szkoła Publiczna) [pt], zdefiniował tę sprawię,  jako „pedagogiczną […]

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