Profissão: Professor. Uma homenagem a todos nós.

Profissão e professor tem a mesma raiz. Uma e outra palavra vem de uma longa tradição de nomear situações de trabalho de acordo com valores. Quem exerce uma profissão professa. Professa o que? Princípios que garantem confiança de quem se beneficia do resultado de seu trabalho.Desenvolvo aqui uma interpretação otimista (e coerente do ponto de vista histórico) da etimologia da palavra professor. E como está na moda falar em resgate, sugiro que resgatemos o sentido original do nome de nossa profissão.

Não vou continuar com esse papo etimológico. A função principal deste post é a de homenagear nosso dia. Para tanto, não encontrei nada melhor que a mensagem de meu amigo Mike Rose aos jovens professores. Mike, em sua fala, resgata a dignidade de nosso ofício. Já publiquei neste Boteco minha tradução do belíssimo texto do professor da UCLA. Mas, acho que é hora de repetir a dose. Nós, professores, merecemos.

Aos jovens professores

Mike Rose

Quero começar celebrando a vocação de vocês para se integrarem a uma das mais importantes profissões de nossa sociedade. O que é mais importante que exercer um papel central no desenvolvimento das vidas de crianças e jovens? Tratem essa vocação com carinho porque ela vai enfrentar testes difíceis.

Vocês estão entrando na profissão num tempo perturbador. Apesar de todos os discursos políticos a respeito da importância da educação, muitas cidades e estados estão procurando equilibrar seus orçamentos por meio de cortes nos investimentos para a educação. Os professores são universalmente elogiados como solução para os problemas educacionais e, simultaneamente, condenados como causa fundamental de tudo de ruim que acontece nas escolas.

O que está por trás dessa loucura bipolar é uma batalha ideológica para definir o ofício de ensinar. Há um entendimento de que palpites de não economistas são irrelevantes no mundo econômico. Por outro lado, há um entendimento de que qualquer um pode dizer com propriedade o que é ensinar.

Assim como acontece em muitas esferas da vida moderna, há uma forte tendência para definir o ensino em termos técnicos e gerenciais. A política educacional vem cada vez mais sendo ditada por economistas que têm pouco conhecimento da vida em sala de aula.  Os currículos vêm sendo “roteirizados”, impondo aos professores o que e quando ensinar. A aprendizagem dos alunos está reduzida a uns poucos desempenhos em testes padronizados.  O professor se torna um mecanismo de entrega de conhecimento cuja efetividade será determinada fundamentalmente pelas notas obtidas nos citados testes.

Tanto o ministério quanto a secretaria municipal de educação nada dizem sobre como engajar as mentes das crianças e adolescentes ou sobre o ensino como uma jornada intelectual. Vocês nada escutam sobre os valores que os atraíam para a carreira docente. Vamos, pois, falar agora sobre essas coisas, pois elas são o coração e a mente do trabalho que vocês irão fazer.

Ensinar é uma tarefa profundamente intelectual, e isso se aplica a pré-escola tanto quanto a cursos de pós-doutorado em física. Muitas pessoas tem admiração pelo trabalho cerebral exigido por estudos no campo da física, mas se esquecem do empenho intelectual necessário para ensinar qualquer assunto para qualquer faixa etária. A boa professora primária sabe muito sobre desenvolvimento infantil e como engajar as crianças em aventuras de saber em qualquer disciplina. Numa classe cheia de crianças ela sabe quem precisa de ajuda, como responder a uma pergunta mal feita, e escolhe bons exemplos ou comparações para guiar os alunos na direção de um pensamento mais claro.

Vocês talvez não se vejam como intelectuais. Jovens professoras algumas vezes dizem que escolheram o ensino porque “gostam de crianças”. Mas, lembrem-se, esse é um tipo especial de cuidado, uma relação focada no desenvolvimento cognitivo, emocional e social. Assim, mais que dar afeto, vocês vão usar suas mentes a serviço dos outros.

Ensinar é, portanto, um tipo especial de relacionamento. Vocês deverão aprender a respeito das crianças em frente de vocês, de onde elas vieram, o que importa para elas. Isso vai exigir um esforço especial se vocês – como muitos professores – não pertencerem à comunidade na qual ensinam. Ouçam seus alunos. Tentem entender como eles vêem o mundo. Vocês ficarão, simultaneamente, perturbados e inspirados pelo que ouvirão. Com isso, vocês ficarão mais sábios.

Não esperem reciprocidade. As crianças nem sempre reagirão do modo esperado. Irão até ignorá-los. Mostrem a elas que vocês são sérios e que estarão disponíveis mesmo quando elas não estiverem. Isso ficará registrado. As crianças são muito atentas para a infidelidade e para a consistência. Um professor veterano que conheço costuma dizer aos novatos: “Não pensem que uma criança, incapaz de ler, não consegue ler vocês”.

Estejam prontos para fracassar. Uma aula que vocês preparam com carinho irá por água abaixo, ou um entendimento de certo problema de uma criança não se sustentará. Isso vai acontecer com vocês nos dois primeiros anos de docência e, acreditem, aconteceu com todos nós. A educação, escreveu W.E.B. DuBois, é “ objeto de infinitos experimentos e freqüentes enganos”.

Para muitos de vocês, essa será a primeira vez que falham em sala de aula. Será penoso e desorientador. Por isso é essencial que vocês saibam como lidar com o fracasso, pois em tais momentos vocês ficarão vulneráveis diante de suas próprias inseguranças e diante daqueles que são cínicos quanto às crianças, alguns deles frequentadores da sala dos professores.

É imperativo, portanto, que no minuto em que atravessarem a porta da escola vocês comecem a perceber quem são os bons professores. Convidem-nos para um café. Procurem conhecê-los, pois quando fracassarem vocês precisarão de ajuda para entender as coisas, para transformar as falhas em conhecimento em vez de amargura. Aprender a ensinar é uma longa jornada, cheia de decisões e de auto-avaliação. Vocês não vão querer fazer essa jornada sozinhos.

Vocês certamente devem ter notado que eu não lhes dei nenhum conselho sobre o que fazer na segunda feira de manhã. Isso nos remete de novo ao significado do que é ensinar. Conhecer todos os truques de como manejar uma sala de aula é tremendamente importante e vocês, caso sua formação tenha sido boa, deverão ter certos planos na cabeça. Além disso, vocês logo serão assaltados por propagandas de produtos que prometem fazer suas classes funcionarem maravilhosamente.

Estou mais interessado nas suas maneiras de pensar sobre o que fazer na segunda de manhã. Todos os  bons professores que conheço, não importando nível de ensino, disciplina, ou estilo, tem o equivalente ao que os músicos chamam de “orelha grande”; eles são curiosos, abertos, sempre buscando qualquer coisa que possam usar a serviço de seus objetivos mais abrangentes. Eles tem grande conhecimento sobre materiais e técnicas, e estão com os dedos sobre o pulso de seus alunos, imaginando se e como alguma coisa vai funcionar em suas aulas.  É isso que significa pensar como professor, e esse pensar define o trabalho que vocês estão a ponto de começar .

9 Respostas to “Profissão: Professor. Uma homenagem a todos nós.”

  1. Tweets that mention Profissão: Professor. Uma homenagem a todos nós. « Boteco Escola -- Topsy.com Says:

    […] This post was mentioned on Twitter by Michel Goulart, Jarbas Barato. Jarbas Barato said: Minha homenagem a nós, professores: um texto de Mike Rose: http://bit.ly/cGgjm1 […]

  2. cristina maria salvador Says:

    Querido Jarbas

    agradeço pela lembrança e homenagem sobre o professor. Seu texto levou-me a refletir sobre uma frase lida no livro “O antigo místério feminino da sexualidade sagrada ” de Simon Buxton (p. 96), quando o autor coloca que, ” os olhos só enxergam o que a mente está preparada para compreender”. Penso ser esta a função do professor de – criar , preparar situações que possibilitem ao outro enxergar mais longe, ir além do visível, do paupável. Mas para que tal ocorra é ele, professor, enquanto ser humano aprendente, cuja mente em constante ebulição, tenha uma atitude de abertura frente o enxergar-se, ouvir-se para ouvir e enxergar o outro. Não é fácil, não é tarefa fácil. Tenho refletido o quanto temos pecado na ação do ouvir, da escuta sensível do perceber-se para poder perceber o outro. O texto de Mike Rose traz muito para o repensar nesta profissão escolhida por nós.
    Grande abraço e obrigada, você é um grande mestre. Parabéns pelo seu dia e escolha do texto para nos homenagear.

  3. Sérgio Lima Says:

    Olá Prof. Jarbas

    Primeiro de tudo, parabéns pelo nosso dia.

    Que presente este texto. É sempre bom beber de fontes tão inspiradas como este texte e o seu blogue.

    abração

  4. Lívia Seber – Arte-educadora » Blog Archive » Dia dos Professores - Arte, educação e o desafio de ser arte-educadora Says:

    […] comemoração ao nosso dia, deixo para vocês um texto do blog Boteco Escola, escrito pelo professor Mike Rose, da […]

  5. dineia hypolitto Says:

    Caro Jarbas , como sempre nos brindando com textos de muita qualidade ! esse é um presente especial para que os professores possam refletir sobre a profissão professor !Parabéns pelo nosso dia ! Abraços Prof. Dinéia

  6. jarbas Says:

    Ao Michel e à Lívia, agradeço repique de meu post. Ao Sérgio, Cristina e Dinéia, agradeço os comentários carinhosos. Grande abraço a todos. Feliz dia dos professores. Jarbas.

  7. Francisco Ap. cordão Says:

    Caríssimo Professor Jarbas, professor que professa com muita proficiência e competência a sua profissão. O texto de Mike Rose é realmente magnífico e, concordo contigo, não poderia haver texto melhor para homenagiar a todos nós, professores, neste dia formalmente consagrado à nossa homenagem. Parabéns pela escolha do texto, o qual encaminharei a todos os Conselheiros da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação, para que o repassem aos seus jovens alunos e candidatos ao magistério, uma vez que a maioria professa a profissão de ensinar professores a professar a sua profissão.

    • jarbas Says:

      Caro Professor Cordão,

      Grande privilégio deste Boteco ter como visitante o Presidente da Câmara de Ensino Básico do Conselho Nacional de Educação.

      Ótima sua iniciativa de divulgar ideias de Mike Rose. Ele é um educador que precisa ser mais conhecido no Brasil. Se você ainda não enviou mais informações sobre o Mike para os conselheiros da Câmara de Educação Básica do CNE, sugiro a seguinte referência:

      http://www.senac.br/BTS/353/resenha.pdf

      Trata-se de resenha que fiz do livro mais recente do Mike. As ideias que ele propõe na obra sobre educação pública são muito interessantes para conversas sobre o assunto no Brasil. Abraço grande, Jarbas.

  8. Irecê Says:

    Jarbas vc é um mestre! aquele do Guimarães Rosa…
    Obrigada não só por esse texto, que é lindo, mas por todo conhecimento, reflexão, pensamento compartilhados!
    Parabéns!
    Irecê

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