Huxley X Orwell

Em RT, @rbanffy divulgou imagens interessantes sobre mensagens de Huxley e Orwell, autores, respectivamente, de Admirável Mundo Novo e 1984. Os dois romances, escritos em meados do do século XX, procuravam pintar os resultados de uma sociedade avançada do ponto de vista tecnológico. O tempo passou. As coisas mudaram. As novas tecnologias já imprimiram sua cara no mundo em que vivemos. Fica a pergunta: quem fez as previsões mais acertadas, Huxley ou Orwell?

As ilustrações divulgadas pelo Ricardo Banffy indicam que o maior acertador foi Huxley, embora, de vez em quando, pareça que Orwell tinha lá alguma razão.

Publico as ditas ilustrações antecipando introdução a trabalho que anualmente passo para meus alunos de filosofia no primeiro ano de comunicações. Eles devem ler um ou outro romance e mostrar como a obra dialoga com nossa sociedade da informação. As imagens serão ponto de partida para estudo de meus alunos. Espero, porém, que elas também sejam motivo de reflexão e conversa para frequentadores deste Boteco.

As imagens ora divulgadas apareceram originariamente no blog Accelerating Future e o autor utiliza como título o nome de um livro de Neill Postman: Amusing Ourselves to Death, mais uma referência importante para estudantes de comunicações.

Aproveito a oportunidade para reproduzir texto que escrevi em 1998, introduzindo comunicação num congresso de informática e educação. Título da comunicação: Mais Tecnologia, Menos Aprendizagem: Admirável Mundo Novo e Celebração da Ignorância.

Antes de mais nada, é preciso dizer algo sobre o título desta comunicação. Há duas referências de ficção para o tema que escolhi. Uma é explícita: trata-se do romance “Admirável Mundo Novo”, de Huxley. Outra não é tão óbvia, mas quase sempre está associada à primeira: trata-se do romance “1984”, de Orwell. As duas obras situam visões críticas quanto ao futuro uso das mais recentes descobertas tecnológicas. Elas, porém, marcam posições bastante diferentes. Em “Admirável Mundo Novo”, Huxley pinta um mundo organizado, limpo e divertido, onde seres humanos, geneticamente programados e cercados por maravilhas da tecnologia, vivem uma vida sem sobressaltos, paixão ou medo. Recursos sanitários e cosméticos garantem uma juventude permanente. Em “1984”, Orwell pinta um mundo cinzento, com uma organização política universal que impõe, por meio da violência, um modo único de ver a vida.

Importa aqui destacar algumas características de ambas as obras. No romance de Huxley, a tecnologia é usada para garantir estabilidade, diversão e prazer. No romance de Orwell, a tecnologia é usada para o controle, a imposição (às vezes violenta) de valores. Em “Admirável Mundo Novo”, as conquistas científico-tecnológicas são utilizadas para garantir uma vida despreocupada. Todos os seres humanos, geneticamente programados, ocupam sem conflitos seu lugar na sociedade. Alguma mudança só poderia ocorrer se houvesse um acidente genético durante o desenvolvimento dos embriões humanos nos laboratórios. Em “1984”, as conquistas científico-tecnológicas são utilizadas para vigiar os cidadãos, impor novos modos de pensar e castigar gente que sai da linha. Ao contrário do mundo pintado por Huxley, o mundo de Orwell é triste e pesado. Em “1984”, a tecnologia é um meio severo de controle. O prazer, praticamente, inexiste no universo criado por Orwell.

Em “Admirável Mundo Novo”, o cidadão bem resolvido (corretamente programado durante sua gestação em laboratório) não faz indagações, não tem dúvidas, busca prazer contínuo. Vive uma  vida aparentemente feliz. Nada quer saber para além daquilo que deve saber. Em “1984”, o cidadão bem resolvido é aquele que se conforma e pensa de acordo com a verdade oficial. Pode ter dúvidas ou fazer indagações. Mas a falta de conformidade é tratada como crime. Predomina um clima de terror; não há, portanto, lugar para qualquer tipo de felicidade. O máximo de prazer no mundo orwelliano é fumar um cigarro intragável ou beber um gim raro e fedorento.

Se a vida, como se diz comumente, imita a arte, nosso tempo está muito mais para “Admirável Mundo Novo” que para “1984”. As novas tecnologias, sobretudo as de comunicações, vêm sendo empregadas para divertir. Os usos predominantes de computadores e televisão são os de entretenimento. E assim como no universo ficcional de Huxley, a diversão é um fim em si mesma. O que importa é estar num contínuo estado de prazer, sem sobressaltos, paixão ou dúvida.

Não vou aqui explorar as decorrências sociais de uma ou outra obra. Vou apenas destacar uma das características marcantes do universo ficcional criado por Huxley. O cidadão de “Admirável Mundo Novo” tem, praticamente, uma única meta: uma vida prazerosa. O prazer, no caso, é aquele que o velho Aristóteles chamaria de prazer sensível. Neste universo, por exemplo, não há lugar para emoções como amor ou compaixão. Não há lugar também para a indagação, a curiosidade, a pergunta, a dúvida. Tudo está programado. Pouca coisa deve ser aprendida. Os recursos tecnológicos resolvem “a priori” todas as dúvidas e garantem doses diárias de prazer.

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Uma resposta to “Huxley X Orwell”

  1. Thiago Says:

    Interessante.Também acho que o universo fictício de Huxley está mais próximo da realidade hodierna.Sei lá,”1984″ mostra um futuro totalmente ditatorial,digo,acredito que Orwell escreveu a ficção,tendo em mente um futuro dominado por alguns “Chavez” e “Ahmadinejads” da vida.Já Huxley teve muito mais visão quando escreveu “Admirável Mundo Novo”,ele considerou muitas coisas.Se Huxley pecou em seu livro,foi por não considerar a energia nuclear,na época já havia informações suficientes para isso.

    Os 2 autores foram geniais,mas Huxley está um passo a frente.

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