Educação e diversão

Abro este post com um vídeo do Cirque du Soleil. Espetáculo de primeira qualidade. Diversão sofisticada. Vale a pena ver, emocionar-se, admirar.

Pergunta: o que aprendemos com um espetáculo assim? Ou para voltar na história: o que aprendiam os romanos em seus circos?

Falo em espetáculo e mostro imagens de um belo circo por um motivo: a mania de dizer que a educação precisa ser divertida. Para quem assim pensa, acho fundamental um estágio no Cirque du Soleil. Se a educação deve ser divertida,  é preciso que os espetáculos que ela promove sejam de qualidade no mínimo equivalente à oferecida pelo circo canadense.

Estas observações foram motivadas por um manchete que vi hoje na Web:

Chegada de computadores promete aulas divertidas e melhor aprendizado

A chamada aparece num site do Ministério da Educação. Parece, portanto, que o órgão máximo da coordenação de educação no país julga que a entrada dos computadores na escola tem como uma das finalidades principais levar o espetáculo para as salas de aula. E ninguém  reclama. Parece que a crença de que a escola precisa virar circo é hegemônica. Aqui do meu canto, acho que isso é um tremendo de um equívoco. É certo que as novas mídias são utilizadas sobretudo para a diversão. Isso atrai freguesia. Exige pouco esforço. Chama atenção. Faz o cidadão esquecer-se por uns instantes da vidinha limitada do dia-a-dia. Emociona. Concretiza sonhos. Distrai.

As razões que elenquei atrás e muitas outras levam o capital a investir muito em TV, Internet e outra mídias eletrônicas para promover diversão. E tais mídias são ótimas para tanto. E o sucesso das novas formas de diversão contaminaram modos de ver a educação. Formulo isso de modo bem rude: hoje, ao que tudo indica, vive-se o sonho de que a principal finalidade da escola é a de oferecer espetáculos divertidos para a sua freguesia (clientala, no sentido original que o termo tinha no velho Império Romano).  Assim, a pergunta clássica “para que educação?” tem hoje um resposta clara e definitiva: para divertir o povo.

Há muito o que dizer sobre o tema. Mas paro por aqui.

Além de recorrer ao circo como referência para a educação, a notícia veiculada pelo MEC revela um outro equívoco: o de ignorar a maior virtude do computador. Essa máquina, como observou tempos atrás Alan Kay, é um piano. Somos capazes de imaginar sonoridades fantásticas. E o piano é um meio que nos permite expressar tais sonoridades. Quanto mais conhecemos o instrumento, mais podemos criar uma música que sem ele não poderia ganhar concretude. Mas, a música não está no piano. A música está em seres humanos capazes de criar, admirar, imaginar, ver o mundo de muitas maneiras surpreendentes. Tudo isso não está no piano (computador). Tudo isso está em gente que pode expressar saberes de modo sempre admirável.

Usar o computador como um grande piano é desafio formidável. Exige construção de modelos de ciência, de arte, de formas de expressão. Exige imaginação capaz de projetar desafios que podem ser concretizados por modos de expressão que se tornaram possíveis com a invenção dos computadores. E isso não é espetáculo. É desafio de criação para professores, para alunos. Infelizmente a hegemonia da metáfora do espetáculo está impedindo que os educadores vejam a maior vitude dos computadores.

Queria escrever mais sobre o tema. Mas, meu tempo anda curto. Volto ao assunto assim que tiver uma folga maior.

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3 Respostas to “Educação e diversão”

  1. Karol Coelho Says:

    Fale mais sobre o assunto, professor!

  2. Thbeth Says:

    Caro Professor!

    O cirque du soleil, como empresa canadiana, revigora e trasforma antigas artes dinâmicas, onde o corpo se revela com a sua maestria, inteligência, sincronia, ritmo, entre outros aspectos.

    Deve lá ter seus problemas, sim!.
    Mas tenta deixar como metáfora a criatividade humana, sem explorar os animais.
    Afinal somos da espécie, e contemplados somos pelo ato de falar, pensar e escrever.

    Quisera eu, que as aulas ensinassem um pouco desta aventura cultural, que são as apresentações do grupo citado.

    Criativas, com um dinamismo ímpar, onde o homem é levado a criar formas de expressão diferenciadas.
    Não necessitava tanta perfeição, mas que ao ouvir um piano, ou na utilização da máquina, a sensibilidade entre outras coisas, provocasse mudanças efetivas.

  3. Computadores para uma escola divertida? – Roda de Conversa Says:

    […] cheios de brinquedos incríveis, aos musicais, ou a um circo como o Jarbas compara no post “Educação e diversão“, em que comenta a notícia, publicada no site do MEC, “Computadores prometem aulas […]

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