TIC e vida privada

Um velho amigo, sempre envolvido com aventuras românticas, costumava dar para nossa mesa de whisky no final do dia alguns conselhos valiosos. Aqui estão dois exemplos:

  1. Não beije a patroa no elevador. O porteiro verá a cena e espalhará para todos os empregados de edifícios da região seus arroubos de carinho. Pior: se ele achar que o espetáculo é quente pode colocá-lo na Internet.
  2. Não pague contas de motel com cartão de crédito. Sua mulher, ao conferir na Internet o movimento bancário da família, vai descobrir a despesa.

Os conselhos brincalhões do meu saudoso companheiro no pós-expediente, em volta de uma garrafa de scotch, têm base sólida. No primeiro caso, câmaras de vigilância, espalhadas por toda parte, podem inibir cenas de carinho. Ou, se delas nos esquecermos, nossa atuação pode virar sucesso no Youtube.

No segundo caso, os implacáveis registros de seu cartão de crédito vão anular aquele álibi de uma reunião chata na firma, encerrada muito depois da meia noite.

Tecnologias de informação e comunicação invadem cada vez mais nossa vida pessoal. Com isso, a Amazon Books, dados seus pedidos, volta e meia aparece no email para anunciar obras que são a sua cara. Chatos de todos os tipos enchem seu correio eletrônico de propagandas disfarçadas de mensagens. Outros chatos invadem seu blog e mascateam produtos, cursos, imóveis, serviços da Internet e assim por diante.

Nos anos 80, malas diretas eram um bom negócio. Para enviar correspondências para uma clientela selecionada, bastava comprar uma lista de etiquetas com nomes e endereços da freguesia desejada. Não sei de onde as empresas de mala direta selecionavam as vítimas. Provavelmente compravam informações de fontes diversas, incluídas aí até informações supostamente sigilosas. De qualquer forma, tenho certeza que as malas diretas eram produtos elaborados a partir de invasão de dados da vida privada dos cidadãos. Faz tempo que não ouço falar de malas diretas. Será que foram substituídas por outros recursos invasores, as listas de call centers, por exemplo? De qualquer forma tenho uma certeza, as atuais malas diretas ou suas substitutas são geradas por mecanismos digitais que invadem a vida privada de todos nós.

Infelizmente estamos anestesiados para os efeitos invasivos dos meios digitais. Preenchemos formulários, usamos as chamadas mídias sociais, expomos fotos nossas e de filhos em arquivos fotográficos que todos podem ver etc. Não falo aqui de gente que invade nossos computadores. Falo de informações que voluntariamente colocamos na Web ou de traços de nossas andanças pelo mundo digital, registrados e armazenados por poderosos instrumentos analíticos como o Google.

Intimidade e vida privada estão ameaçadas, embora continuemos com a ilusão de que é possível ter espaço e tempo só  para nós. Essa ilusão corresponde a uma necessidade muito humana. De vez em quando queremos viver momentos muito nossos. E tudo que consideramos íntimo é só nosso, não deve ser objeto de curiosidade alheia.

Necessidade de vida privada é consequência da consciência pessoal conquistada pelos humanos e provavelmente por nossos primos chimpazés. Achamos que temos uma individualidade, um eu. Temos autoconsciência. Por isso, vez ou outra queremos distância da multidão. Queremos curtir sentimentos que não gostaríamos de ver expostos para estranhos ou até mesmo conhecidos que não são gente de nosso círculo mais íntimo.

O desejo de intimidade deve ser bastante antigo. Jean Auel, no primeiro volume da saga Earth’s Children,  descreve divisões com pedras para separar, dentro da caverna, áreas ocupadas por famílias de uma tribo de neanderthais. Uma separação que não garantia intimidade física. Mas, a autora nota que o arranjo de pedras era um sinal para que ninguém de  fora registrasse o que se comunicava dentro da área demarcada pela família. É claro que o espaço de intimidade neanderthal criado por Auel é uma especulação. Mas, faz sentido. Nossos primos mais próximos, os neandertais, certamente tinham consciências individuais. Por isso, é bastante provável que apreciassem certa privacidade, certos momentos de intimidade.

Entendemos que o direito à vida privada é sagrado. Mas,  tal direito depende muito do ambiente em que vivemos. Por isso, um dos horrores que sentimos ao ver moradias de favelas é a extrema promiscuidade em que vivem as pessoas que se vêem obrigadas a morar em barracos. Em casa e mesmo na vizinhança é impossível qualquer momento de real intimidade. Tudo está à vista.

Sentimentos de admiração pelas maravilhas eletrônicas e adesão à comunicação digital, por necessidade e conforto, fazem com que nos esqueçamos de como as novas tecnologias são invasivas. Eventualmente discutimos medidas paliativas para evitar invasões muito evidentes de nossos cantinhos no ciberespaço. Mas isso é muito pouco. Deveríamos conversar mais sobre o assunto. Cabe reparar que dificuldades para manter vida privada e intimidade numa esfera de comunicação dominada por meios digitais é um tema fundamental em educação. Fica a pergunta: as novas gerações terão possibilidade de vida privada autêntica?

Post recente do blog Internetactu relata três comunicações sobre a questão, introduzindo o tema da seguinte forma:

É coisa bem conhecida: o digital muda a vida privada.   No Lift (Lift é um conjunto de  eventos promovido para discutir consequências das novas tecnologias da informação e comunicação) foi isso que três convidados tentaram nos explicar, com discursos diferentes dos gritos de alarme habituias.

Depois de tal introdução, o post em questão apresenta as idéias centrais dos três expositores e reproduz os roteiros que utilizaram. O texto é em francês, mas os roteiros aparecem em inglês (o que pode facilitar entendimento para a maioria de nós que não é francófona). Vale a pena ler as opiniões dos palestrantes e ver os seus roteiros de apresentação.

Na verdade, os roteiros de apresentação são dois. A representante do Google no evento preferiu projetar o vídeo da empresa sobre a questão da privacidade. Peça muito bem feita. Explicações claras. Mas, a gente fica com um pé atrás. Será que o Google respeita mesmo nossa privacidade? Há quem pense que não.

Se você ainda não viu a peça do Google, aqui está ela:


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3 Respostas to “TIC e vida privada”

  1. Doralice Araújo Says:

    Adoro textos reflexivos, contribuitivos e que não deixem de lado o bom-humor; abraço afetuoso, amigo Jarbas.

  2. Tweets that mention TIC e vida privada « Boteco Escola -- Topsy.com Says:

    […] This post was mentioned on Twitter by Jarbas Barato, Doralice Araújo. Doralice Araújo said: @Novelino : texto agradavelmente digerido; adorei>http://bit.ly/djWSc4 […]

  3. Angela Says:

    Jarbas,

    Acredito que no meio digital é difícil ter privacidade. Um exemplo é o hacker francês que invadiu a conta do presidente Barack Obama. Ele diz que procurou todas as informações que precisava na internet e depois tentou várias combinações de senha. Pelo jeito é muito fácil, hoje, saber da vida das pessoas, fato é que ele invadiu contas de pessoas não famosas deste mesmo modo.

    Abraços.

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