As vantagens da ignorância

Por volta de 1997, Bernie Dodge me disse uma coisa que jamais esqueci: “odeio gente que sabe tudo, elas não aprendem nada”. O leitor já deve ter encontrado gente assim, principalmente em congressos. Depois de palestra de alguém muito criativo e que traz propostas originais, essa gente sabida costuma dizer: “o cara fala bem, mas no que disse não há qualquer novidade”.

Pessoas que vão para a sala de aula ou para o auditório convencidas de que nada a ser apresentado terá algum teor de coisa nova não aprendem. Pararam em algum lugar do caminho e acham que já chegaram ao final da viagem.

Essa segurança absoluta quanto ao saber tem dois desdobramentos sérios:

1. incapacidade para reconhecer idéias originais,

2. falta de senso de admiração por novos aspectos numa dada área de estudos.

O primeiro desdobramento resulta em equiparação de novas perpectivas a velhos conhecimentos, às vezes fossilizados. E isso é muito comum. É difícil abandonar velhas crenças. Daí a acomodação do novo em velhas caixas já etiquetadas. Ou, quando não conseguimos isso, simplesmente deixamos de integrar o novo à nossa estrutura de conhecimento. Temos grande capacidade de envelhecer ideias autenticamentge novas. Gardner observa que esse é um dos grandes desafios da educação. Provocar mudanças significativas é coisa rara. Em outras palavras: reconhecer algo autenticamente novo exige uma abertura que não é moeda corrente. Precisamos desenvolver tal capacidade. Caso contrário ficaremos com a acomodação, processo mais fácil, confortável e seguro.

O segundo desdobramento decorre do primeiro. A abertura para o novo exige um sentimento de busca de quem imagina que sempre há mais o que aprender. E mais que isso, imagina que o desconhecido é mais surpreendente, bonito e admirável que aquilo que já faz parte de nosso velho conhecimento.

As reflexões que faço aqui decorrem de descobertas recentes que fiz sobre movimentos importantes de educação que aconteceram no século XX. Eu achava que conhecia as experiências e autores que fizeram diferença de 1900 a nossos dias. Mas, como já revelei aqui, depois de listar para minhas alunas de pedagogia cerca de dez experiências relevantes de educação, fui conferir o acerto de minhas indicações. Sim, elas tinham algum acerto. Deixei de fora, porém, movimentos e autores que não podem ser esquecidos. E ontem, por acaso, acabei descobrindo mais um caso que merece destaque: o Black Mountain College.

Por causa de meu interesse pelas relações entre educação e trabalho, no sábado que passou, comecei a ler o capítulo Skilled de Thinking through Craft, um livro muito bonito sobre arte e educação. Logo após considerações sobre o aprender fazendo, o autor relata brevemente a história do Black Mountain College, um projeto de educação superior inspirado pelos princípios propostos por Dewey.

É possível que a história do Black Mountain College seja bem conhecida por alunos e professores da área de artes. Para mim é completa novidade. Confesso aqui minha ignorância no caso. E não considero minha ignorância um problema. Pelo contrário, ela é um ponto de partida para uma nova aprendizagem. Já comecei a levantar informações sobre o referido College. A história é muito bonita e ilumina entendimento sobre o processo de inovação em educação.

Para quem quiser começar a ver como era o Black Mountain College, vai aqui um belo vídeo sobre essa escola que infelizmente fechou suas portas em 1957.

Há um portal dessa experiência admirável de educação do século passado. Veja-a no link que segue:

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