Bons professores

A situação é muito parecida em toda parte. O ofício de ensinar está em crise. Para algumas áreas de saber faltam mestres. Os salários são baixos. A profissão é desvalorizada. E, pior: tem muita gente dizendo que os primeiros culpados pelos males da educação são os professores.

Aparecem idéias preocupantes: exames anuais de competência para os mestres, demisão sumária de professores que não conseguem bons índices de aprovação para seus alunos, melhorias salariais apenas para professores que atenderem a certas condições estabelecidas pelas burocracias mandantes. Isso acontece aqui. Isso acontece nos Estados Unidos.

No país do Tio Sam, há no momento um um arrastão dos gurus da eficiência contra a escola pública. No movimento de impugnação da escola pública e da onda de privatização da gestão escolar, os réus mais visíveis são os professores, sua formação e seus sindicatos. Gente que só esteve em salas de aula como estudantes começam a definir o que deve ser feito pelos mestres. Alunos brilhantes das universidades de ponta, oriundos de curso que nada tem a ver com educação, passam dois anos se dedicando ao ensino (para depois voltarem aos caminhos que os levarão a carreiras de sucesso) e são mostrados como exemplos para professores experientes. Um quadro triste e preocupante.

Diante da crise docente, alguns educadores de renome estão  lutando contra a maré privatista e, ao mesmo tempo, buscando caminhos para que o ofício docente seja visto como algo valioso. Neste esforço, muitas vezes dizem coisa singelas, mas muito importantes para que os jovens escolham a profissão de professor. Mike Rose, autor de O Saber no Trabalho, livro que tive o privilégio de apresentar na edição brasileira, colocou em seu blog uma mensagem que traduzi e vou reproduzir aqui. Mike escreveu essa mensagem no formato de um discurso de formatura, dizendo aos formandos o que mais importa no ofício de ensinar.

Aos jovens professores

Mike Rose

Quero começar celebrando a vocação de vocês para se integrarem a uma das mais importantes profissões de nossa sociedade. O que é mais importante que exercer um papel central no desenvolvimento das vidas de crianças e jovens? Tratem essa vocação com carinho porque ela vai enfrentar testes difíceis.

Vocês estão entrando na profissão num tempo perturbador. Apesar de todos os discursos políticos a respeito da importância da educação, muitas cidades e estados estão procurando equilibrar seus orçamentos por meio de cortes nos investimentos para a educação. Os professores são universalmente elogiados como solução para os problemas educacionais e, simultaneamente, condenados como causa fundamental de tudo de ruim que acontece nas escolas.

O que está por trás dessa loucura bipolar é uma batalha ideológica para definir o ofício de ensinar. Há um entendimento de que palpites de não economistas são irrelevantes no mundo econômico. Por outro lado, há um entendimento de que qualquer um pode dizer com propriedade o que é ensinar.

Assim como acontece em muitas esferas da vida moderna, há uma forte tendência para definir o ensino em termos técnicos e gerenciais. A política educacional vem cada vez mais sendo ditada por economistas que têm pouco conhecimento da vida em sala de aula.  Os currículos vêm sendo “roteirizados”, impondo aos professores o que e quando ensinar. A aprendizagem dos alunos está reduzida a uns poucos desempenhos em testes padronizados.  O professor se torna um mecanismo de entrega de conhecimento cuja efetividade será determinada fundamentalmente pelas notas obtidas nos citados testes.

Tanto o ministério quanto a secretaria municipal de educação nada dizem sobre como engajar as mentes das crianças e adolescentes ou sobre o ensino como uma jornada intelectual. Vocês nada escutam sobre os valores que os atraíam para a carreira docente. Vamos, pois, falar agora sobre essas coisas, pois elas são o coração e a mente do trabalho que vocês irão fazer.

Ensinar é uma tarefa profundamente intelectual, e isso se aplica a pré-escola tanto quanto a cursos de pós-doutorado em física. Muitas pessoas tem admiração pelo trabalho cerebral exigido por estudos no campo da física, mas se esquecem do empenho intelectual necessário para ensinar qualquer assunto para qualquer faixa etária. A boa professora primária sabe muito sobre desenvolvimento infantil e como engajar as crianças em aventuras de saber em qualquer disciplina. Numa classe cheia de crianças ela sabe quem precisa de ajuda, como responder a uma pergunta mal feita, e escolhe bons exemplos ou comparações para guiar os alunos na direção de um pensamento mais claro.

Vocês talvez não se vejam como intelectuais. Jovens professoras algumas vezes dizem que escolheram o ensino porque “gostam de crianças”. Mas, lembrem-se, esse é um tipo especial de cuidado, uma relação focada no desenvolvimento cognitivo, emocional e social. Assim, mais que dar afeto, vocês vão usar suas mentes a serviço dos outros.

Ensinar é, portanto, um tipo especial de relacionamento. Vocês deverão aprender a respeito das crianças em frente de vocês, de onde elas vieram, o que importa para elas. Isso vai exigir um esforço especial se vocês – como muitos professores – não pertencerem à comunidade na qual ensinam. Ouçam seus alunos. Tentem entender como eles vêem o mundo. Vocês ficarão, simultaneamente, perturbados e inspirados pelo que ouvirão. Com isso, vocês ficarão mais sábios.

Não esperem reciprocidade. As crianças nem sempre reagirão do modo esperado. Irão até ignorá-los. Mostrem a elas que vocês são sérios e que estarão disponíveis mesmo quando elas não estiverem. Isso ficará registrado. As crianças são muito atentas para a infidelidade e para a consistência. Um professor veterano que conheço costuma dizer aos novatos: “Não pensem que uma criança, incapaz de ler, não consegue ler vocês”.

Estejam prontos para fracassar. Uma aula que vocês preparam com carinho irá por água abaixo, ou um entendimento de certo problema de uma criança não se sustentará. Isso vai acontecer com vocês nos dois primeiros anos de docência e, acreditem, aconteceu com todos nós. A educação, escreveu W.E.B. DuBois, é “ objeto de infinitos experimentos e freqüentes enganos”.

Para muitos de vocês, essa será a primeira vez que falham em sala de aula. Será penoso e desorientador. Por isso é essencial que vocês saibam como lidar com o fracasso, pois em tais momentos vocês ficarão vulneráveis diante de suas próprias inseguranças e diante daqueles que são cínicos quanto às crianças, alguns deles frequentadores da sala dos professores.

É imperativo, portanto, que no minuto em que atravessarem a porta da escola vocês comecem a perceber quem são os bons professores. Convidem-nos para um café. Procurem conhecê-los, pois quando fracassarem vocês precisarão de ajuda para entender as coisas, para transformar as falhas em conhecimento em vez de amargura. Aprender a ensinar é uma longa jornada, cheia de decisões e de auto-avaliação. Vocês não vão querer fazer essa jornada sozinhos.

Vocês certamente devem ter notado que eu não lhes dei nenhum conselho sobre o que fazer na segunda feira de manhã. Isso nos remete de novo ao significado do que é ensinar. Conhecer todos os truques de como manejar uma sala de aula é tremendamente importante e vocês, caso sua formação tenha sido boa, deverão ter certos planos na cabeça. Além disso, vocês logo serão assaltados por propagandas de produtos que prometem fazer suas classes funcionarem maravilhosamente.

Estou mais interessado nas suas maneiras de pensar sobre o que fazer na segunda de manhã. Todos os  bons professores que conheço, não importando nível de ensino, disciplina, ou estilo, tem o equivalente ao que os músicos chamam de “orelha grande”; eles são curiosos, abertos, sempre buscando qualquer coisa que possam usar a serviço de seus objetivos mais abrangentes. Eles tem grande conhecimento sobre materiais e técnicas, e estão com os dedos sobre o pulso de seus alunos, imaginando se e como alguma coisa vai funcionar em suas aulas.  É isso que significa pensar como professor, e esse pensar define o trabalho que vocês estão a ponto de começar .

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Uma resposta to “Bons professores”

  1. Conceição Rosa Says:

    Olá professor

    Os resultados da minha escola no IDEB foram fixados no quadro da sala dos professores. Não atingimos a meta prevista.
    Os alunos da EJA estão sumindo mais do que o costume. Além da tragédia do Bumba, que deixou alguns tantos desabrigados e muitos assustados com qualquer sinal de chuva no final de tarde, há equipamentos que deveriam controlar os cartões de transporte eletrônico e que não funcionam a contento, deixando alunos em situação constrangedora ou sem poderem voltar para casa ao final da noite.
    Eu não sei como os gestores da educação lerão os resultados da conjugação de metas, transporte escolar e sistemas de controle de funcionamento precário, mas com certeza precisarão rever seus planos iniciais frente aos resultados (educacionais) alcançados…
    Talvez as respostas que tenhamos, aqueles que tecemos os saberes nas práticas – e também nas relações que estabelecmos – sejam bem diferentes daquelas que chegarão os gestores (alguns chamam de tecnocratas) da educação.Mas, como comentado aqui no início deste texto, provavelmente também seremos “os culpados”.
    Afinal, “a educação é objeto de infinitos experimentos e frequentes enganos” também daqueles que não são professores.

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