Tecnologias digitais e inteligência

Há um temor de que usos intensivos das novas tecnologias causem danos á inteligência dos usuários. Manifestações desse temor aparecem em comentários a prejuízos que estão acontecendo por causa da brevidade do Twitter, dos erros de sintaxe que aparecem em mensagens publicadas nos diversos ambientes de mídias sociais, nas práticas de buscas da Internet que dispensam leituras aprofundadas etc.

Um artigo que aborda a questão é Is Google Making Us Stupid?, de Nicholas Carr. No texto o autor mostra que está ocorrendo uma profunda mudança em hábitos de leitura. Ele sugere que tal mudança, caracterizada por incapacidade de mergulhar em textos e pela constante alteração de foco deve-se ao uso da Web. O artigo de Carr merece atenção. Ao lê-lo descobrimos que todos nós flanamos pela Internet sem nos concentrarmos em nada. É mais apropriado dizer que vemos as informações na Internet, em vez de lê-las.

Mais recentemente, outro analista dos meios de comunicação, Clay Shirky,  fez observações interessantes sobre o que anda ocorrendo. Veja o que ele escreveu em Does Internet Make You Smarter?.

Numa outra oportunidade comentarei com mais vagar os artigos de Carr e Shirky. No momento, estou interessado em divulgar opinião de Steven Pinker sobre o assunto.

Steven Pinker é autor de um livro de leitura obrigatória, The Language Instict. Li a obra há bastante tempo e fiquei impressionado com o estilo limpo e claro de Pinker colocando em pratos limpos um saber instigante, linguística. Li outros livros do autor, mas, nenhum deles chega perto da força do Instinto da Linguagem (ah! há tradução da obra para o português).

Fiquei sabendo de meu amigo Bernie Dodge, no Twitter, que Steven Pinker escreveu um pequeno artigo sobre a questão das novas mídias e inteligências. Li a matéria e, num impulso, resolvi traduzí-la. A tradução não está um primor, mas acho que dá conta do recado. Publico-a aqui para os interessados. Comentários sobre o tema e a tradução serão muito bem-vindos.

Mind Over Mass Media

By STEVEN PINKER

Novas formas de mídia sempre causaram pânico moral: a imprensa, as revistas populares e a televisão foram todas elas denunciadas como ameaças ao poder cerebral e à integridade moral de seus consumidores.

A mesma coisa acontece com as tecnologias eletrônicas. Muita gente diz que o Powerpoint, está reduzindo o discurso a frases curtas precedidas de bolinhas ( is reducing discourse to bullet points.); que  os motores de busca rebaixam nossa inteligência, encorajando-nos a ficar na superfície do conhecimento em vez de mergulhar nas profundidades do mesmo; que   o Twitter está encolhendo nosso tempo de atenção ( is shrinking our attention spans).

Mas tais pânicos muitas vezes não se justificam se levarmos em conta constatações de realidade. Quando as histórias em quadrinho foram acusadas de converter os jovens em delinqüentes nos anos de 1950, as estatísticas do crime estavam registrando queda significativa; denúncias do mesmo tipo contra vídeo games nos anos de 1990 aconteciam numa época de grande declínio no número de crimes nos EUA. As décadas da televisão, dos rádios portáteis e dos vídeos de rock foram também décadas nas quais os níveis de QI subiram continuamente.

Para uma verificação da realidade nos dias de hoje, tomemos o caso da ciência, atividade que requer um trabalho cerebral que pode ser medido claramente por benchmarks da descoberta. No nosso tempo, os cientistas nunca estão longe de seus emails, raramente utilizam papéis e, para suas exposições, não podem ficar sem Powerpoint. Se os meios eletrônicos fossem prejudiciais para a inteligência, a qualidade da ciência estaria afundando. Mas, pelo contrário, as descobertas estão se multiplicando como drosófilas e o progresso é vertiginoso. Outras atividades na vida da mente, como filosofia, história e crítica cultural, estão florescendo da mesma maneira, como qualquer um que tenha dedicado uma manhã em consultas á página Arts & Letters Daily pode constatar.

Críticos das novas mídias às vezes usam a ciência para reforçar seus argumentos, citando pesquisas que mostram “como a experiência pode mudar o cérebro”. Mas, os neurocientistas  levantam as sobrancelhas quando diante de tais conversas. Sim, cada vez que aprendemos um fato ou uma habilidade nossas estruturas cerebrais mudam; as coisas não se passam como se as informações fossem armazenadas no pâncreas. Mas a existência da neuroplasticidade não significa que o cérebro é uma massa de argila cuja forma é moldada pela experiência.

A experiência não modifica as capacidades básicas de processamento de informação do cérebro. Os programas de leitura dinâmica tempos atrás declaravam que faziam justamente isso, mas o julgamento de tal reivindicação foi bem expresso por Woody Allen depois que ele leu “Guerra e Paz” dinâmicamente e afirmou que a única coisa que ficara no final era: “É um romance sobre a Rússia”.  Multitarefas genuínas também foram marcadas como um mito, desfeito não apenas por estudos de laboratório mas também pela visão familiar de uma van esportiva ondulando entre a faixas da estrada enquanto o motorista bate papo no seu celular [NT: provavelmente o autor se refere a alguma cena bem conhecida nos EUA].

Além de tudo, como mostraram os psicólogos Christopher Chabris and Daniel Simons em seu novo livro “The Invisible Gorilla: And Other Ways Our Intuitions Deceive Us,” os efeitos da experiência são altamente específicos para a própria experiência. Se você treinar pessoas para fazer alguma coisa ( reconhecer formas, resolver quebra-cabeças de matemática, encontrar palavras ocultas) , elas se tornam muito boas na habilidade treinada, mas o resto continua inalterado. A música não nos torna melhores matemáticos, conjugar em latim não melhora nossas capacidades de lidar com a lógica, treinamento em jogos cerebrais não nos torna mais espertos. [NT: se bem me lembro, na mesma linha e muitos anos atrás, Millor Fernandes declarou: “jogar xadrez desenvolve muito nossa capacidade… de jogar  xadrez”; essa tirada de nosso grande humorista buscava mostrar o equívoco de gente que costuma dizer que o jogo de xadrez desenvolve a inteligência geral]. Pessoas realizadas do ponto de vista intelectual não moldam seus cérebros com ginástica mental, elas mergulham em seus campos de saber. Romancistas lêem muitos romances, cientistas lêem muita ciência.

Os efeitos do consumo das mídias eletrônicas possivelmente são muito mais limitados do que certo pânico sugere. Críticos da mídia escrevem como se o cérebro assumisse as qualidades do que quer que seja que ele consome, sugerindo algo equivalente ao dito “você é o que você come”. Da mesma forma que povos primitivos imaginavam que comer animais ferozes iria torná-los ferozes, eles (os críticos) presumem que ver filmes violentos faz com que o cidadão fique violento, ou que a leitura de telas de Powerpoint faz com que os pensamentos  do leitor se convertam em relação de frases curtas precedidas por bolinhas.

Sim, a constante chegada de pacotes de informações pode ser algo distrativo e viciante. Mas distrações não são um fenômeno novo, especialmente em pessoas com desordens de atenção. A solução não é lamentar a existência da tecnologia mas desenvolver estratégias de auto-controle, assim como fazemos diante de qualquer tentação na vida. Desabilite email e Twitter enquanto você trabalha. Ponha seu Blackberry de lado durante o jantar, peça a sua mulher para chamá-lo para dormir num determinado horário.

E para encorajar profundidade, não se prenda ao Powerpoint ou ao Google. Hábitos de profunda reflexão não surgem naturalmente, pois exigem pesquisa bem estruturada e pensamento rigoroso. Tais hábitos devem ser adquiridos em instituições especiais, as universidades; e mantidos em constante atualização, um processo composto por análise, crítica e debate. Eles não são garantidos por meio de providência que coloque uma pesada enciclopédia na sua lapela, nem desaparecem por causa de eficiente acesso a informações na Internet.

A nova mídia “pegou” por uma razão. O conhecimento vem crescendo exponencialmente; o poder do cérebro humano e as horas em que permanecemos acordados, não. Felizmente, a Internet e as tecnologias da informação estão nos ajudando a gerenciar , buscar e recuperar nossa produção coletiva em diferentes níveis, do Twitter aos e-books e enciclopédias online. Longe de nos tornar estúpidos, essas tecnologias são as únicas coisas que irão nos manter inteligentes.

Steven Pinker, professor de psicologia em Harvard, é autor de “The Stuff of Thought.”

Assim que acabei de postar esta matéria, li no Twitter do Bernie que Nicholas Carr escreveu há pouco uma resposta ao artigo do Pinker. Acabo de ver tal artigo, mas não o li como ele merece (afinal de contas são duas e meia da matina e preciso ir para o berço). Deixo aqui para os interessados o link para o  artigo-resposta de Carr:


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2 Respostas to “Tecnologias digitais e inteligência”

  1. Tweets that mention Tecnologias digitais e inteligância « Boteco Escola -- Topsy.com Says:

    […] This post was mentioned on Twitter by Jarbas Barato, Carme Barba. Carme Barba said: RT @Novelino: "Tecnologias da informação e inteligência". Veja texto de Steven Pinker no Boteco Escola: http://alturl.com/myc4 […]

  2. A Internet é uma Meretriz? « Boteco Escola Says:

    […] Tecnologias digitais e inteligência […]

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