Ditadura da tela e TIC’s

Estou lendo School, obra de Catherine Burke e Ian Grosvenor, e viajando muito nas relações que a leitura vai me sugerindo. Retomo assim reflexões que havia iniciado ano passado após leitura de resenha feita por Alison Lurie no New York Review of Books.(cf. Prédios e equipamentos escolares ensinam). Hoje de manhã, ainda na cama, comecei a pensar sobre estudos de arquitetura e educação e as ideias predominantes a respeito de tecnologia educacional. E caiu uma ficha: descobri que o povo da tecnologia ignora solemente corpo e espaço.

Discussões, proposições e projetos de TIC tem como foco exclusivo a informação que aparecerá na tela. Eventualmente as preocupações incluem interações do ator humano com o programa. Mas, quase sempre, essa preocupação tem como objeto a qualidade da informação que aparece na tela. A dimensão biológica de um bicho que vive em certo espaço passa batida. Decartes continua soberano: o corpo é apenas uma máquina que obedece ditames da mente. O biológico, o físico e o social são ignorados. Importam intelecto e afeto enquanto fontes de reação diante das mensagens mostradas na telinha do celular ou na tela do computador.

As discussões estão voltadas para a informação, não para os agentes de conhecimento tridimensionais e feitos de carne e osso. Aliás, gente como Kurzweil lamenta que os cérebros dos atores humanos sejam compostos por material muito frágil e perecível, advogando sua substituição por circuitots eletrônicos feitos de boa sílica (cf. Kurzweil). Uma das consequências desse modo de pensar é a de que o espaço pouco importa em educação, desde que o aprendiz possa acessar informação em qualquer lugar que esteja. Para que haja uma revolução na educação, pensam muitos, basta ter redes confiáveis e conteúdos bem apresentados por meio de recursos eletrônicos. É isso, por exemplo, que sugere um video de marketing de uma universidade privada americana. Apesar do apelo propagandístico, o citado vídeo mereceu admiração de muitos educadores que acham que mudar é preciso, sobretudo se a mudança significar mergulho no mundo digital. Se você não se lembra de tal peça de propaganda ou ainda não a viu, reproduzo-a (uma vez mais) para a devida análise.

Cabe reparar que a “solução” nitidamente sugere uma relação individualista com a fonte de informação. Nada muda neste sentido. No começo temos um auditório onde atua a fonte de informação chamada professor. A seguir, o auditório físico é suprimido, mas a educação continua a ser um ato de escutar. O usuário dos aparelhinhos anula tempo e lugar onde se encontra. Os entornos são apenas cenários que podem ser substituídos sem qualquer perda para a aprendizagem. Pequeno detalhe: o aprendiz não conversa com ninguém, ou talvez o faça com alguém que aparece na tela. No mundo real, outras pessoas são apenas figurantes. Educar, nestes termos, como já disse, é educar a “mente”.

Um dos reflexos da desimportância do entorno aparece nas plantas dos laboratórios escolares de informática. Há duas plantas-padrão: uma repete a disposição das salas de aulas convencionais, outra coloca as mesas de computadores encostadas nas paredes. Veja exemplo disso na figura que segue.

Nas plantas, a disposição dos computadores não favorece a conversas comunais, nem trabalho em grupo. Para os arquitetos e educadores a organização do espaço privilegia relações aluno/tela, não aluno/aluno, aluno/professor, gente/gente enfim. As conversações próprias de primatas(sim, somos um bicho dessa família!) que gostam de ver seus interlocutores, tocá-los, senti-los não entram nas considerações dos planejadores (educadores e arquitetos).

Recorro a mais um exemplo para enfatizar minha crítica ao “telismo” em educação. A mídia costuma refletir as ideias hegemônicas sobre educação. Por isso, acho que uma propaganda que frenquentou a televisão alguns anos atrás é emblemática. Já escrevi sobre ela em outra ocasião (Cf. Tecnologia é Imaginação: Considerações sobre o uso de ferramentas em educação, Quaderns Digitals, 2008, nº 51). Na época não havia percebido ainda a completa eliminação de espaço e tempo que a mídia propunha. Hoje, o que escrevi deve ser visto como algo que vai além do ferramentismo que denunciei no artigo para a Quaderns. Vejam trecho que escrevi no referido texto:

Em 11 de dezembro de 2002, a Folha de São Paulo [o mais importante periódico da cidade de São Paulo] publicou anúncio de uma produtora de hardware que enfatizava as virtudes educacionais do computador. Na peça publicitária, uma professora sorridente apontava para um mapa de nosso planeta na tela de um computador. Essa peça de propaganda me chamou a atenção por dois motivos: o mapa era apenas cópia de material já disponível em papel; a professora estava dentro da tela. A mensagem clara era a de que melhoria da educação exige uso do computador; nada mais. Basta transferir para os meios digitais conteúdos e personagens da educação que conhecemos. O uso do computador fará o milagre, tão esperado, de aprendizagens mais fáceis, efetivas e divertidas.

Ressalto a circunstância da migração da professora e dos recursos para o interior da tela do computador. Nesse movimento, a mensagem muito clara é a de que importam apenas duas coisas: o aprendiz e a mídia digital que ele “precisa” usar.Mas no fundo nada mudou, todas as informações e recursos (incluída a professora) foram engolidos pela senhora digital. Vale agora apenas o que sair do fértil útero dessa senhora.

O dualismo mente/corpo acaba ganhando modos sutis de expressão com o uso de recursos digitais de comunicação. Recorro a filósofo Mark Johnson (The Meaning of the Body: Aesthetics of Human Understanding) para situar minhas preocupações. Logo no começo de seu magnífico livro, Johson observa:

Uma manifestação muito difundida deste dualismo [mente/corpo] em quase todas nossas práticas religiosas, éticas e políticas [acrescento: educacionais] é o pressuposto de que possuimos uma vontade radicalmente livre, que é vista como independente de nosso corpo e capaz de controlá-lo. Nós acreditamos em um eu “superior” (a parte racional) que deve controlar o eu “inferior” (corpo, desejo, emoção). Pressupomos que cada um de nós tem um núcleo interno (o “verdadeiro eu” ou “alma”) que transcende nosso eu situado corporalmente. Nós adotamos a noção do pensar como atividade pura, conceitual, incorpórea, mesmo quando sabemos que nenhum pensamento ocorre sem um cérebro. (p. 2)

Johson propõe que o saber se constrói esteticamente como uma forma integral de relação com o mundo. Nada, por mais abstrato que seja, dispensa nossa corporeidade. Assim, uma educação que enfatiza apenas capacidades mentais e informações tratadas digitalemente é um tremendo equívoco. Ás vezes penso que a ditadura da tela é uma bruta sacanagem do mercado que quer nos vender sempre a mais recente bugiganga que está saindo das linhas de montagem e, para isso, nos faz esquecer que o mundo digital é apenas um armazem elegante para guardar e fazer circular informações empacotadas por especialistas. Para que isso aconteça, é preciso anular nosso interesse pelas dimensões animais (biológicas) da vida.

Gente pode aprender em qualquer lugar. Mas há lugares mais agradáveis que podem garantir aprendizagens que não separam corpo e mente. Mais que isso, lugares que nos ofereçam prazer de viver e aprender vivencialmente. Acho que esse modo de pensar contraria gente que anda pensando que é preciso acabar com a escola. O que precisamos é de uma escola que não ignore nosso corpo, nossa animalidade, nossa sociabilidade, nossa historicidade. Isso tudo precisa estar presente em conversas sobre arquitetura e educacação. Esse é um desafio para profissionais que se acham especializados em tecnologia educacional.

Hoje de manhã pipocaram mais ideias que as que consegui resgistrar aqui. Delas me esqueci ou elas foram para o porão do Id esperando tempos melhores para brotarem de novo. Retomo o assunto assim que outras considerações emergirem em minhas meditações matinais.

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7 Respostas to “Ditadura da tela e TIC’s”

  1. Miriam Salles Says:

    Oi Jarbas!
    Não sei se mudou, mas até pouco tempo, o layout que o proinfo indicava para os laboratórios era exatamente esse da foto!
    A Escola do Futuro as USP tinha umas propostas bacanas de layout que favoreciam o trabalho em grupo, mas elas não estão mais disponíveis no site! vou procurar nos meus arquivos antigos e se encontrar envio pra vc!
    abço

  2. jarbas Says:

    Boa noite, Miriam,

    Não sabia que o Proinfo sugere layouts de bancadas contra paredes. Isso, confirma as suspeitas que levanto no post. Possivelmente tal tipo de layout busca facilitar vigilância do professor. Possivelmente os planejadores não se preocuparam com arranjos que pudessem favorecer modos mais humanos de trabalhar com computadores.

    Não me lembro de layouts propostos pela Escola do Futuro. Quando dei um curso lá, o lab que utilizei tinha uma bancada em formato de L. Ajudava na integração da turma. Não era muito legal para trabalho em pequenos grupos. Facilitava a circulação do professor. Vi em São Bernardo alguns arranjos melhorzinhos, mas o tamanho das salas acabava gerando amontoados de computadores com pouco espaço para circulação. O Dante tem um desenho que favorece integração da turma toda. Não conheço, porém, nehum desenho completamente inovador. Aguardo remessa de material da EF/USP.

    Abraço grande,

    Jarbas

  3. Tweets that mention Ditadura da tela e TIC’s « Boteco Escola -- Topsy.com Says:

    […] This post was mentioned on Twitter by Jarbas Barato, ementa. ementa said: Meditações do jarbas quanto a estruturas escolares http://bit.ly/9ZoE7r […]

  4. Conceição Rosa Says:

    Realmente o Proinfo indica esta arrumação. Mas não sei até que ponto se aquele que “arquitetou” este arranjo o fez em função de outras necessidades que não fossem às de adaptação da rede elétrica e lógica às salas de aulas existentes.
    De qualquer forma, parece refletir a pressa em colocar máquinas nas escolas, e não arquitetar espaços de aprendizem que também fizessem uso de computadores.
    Mas, como o professor já vem “sugerindo” em alguns textos, a escola – especialmente a pública, parece que tem se estruturado (nos edifícios, nos arranjos espaciais e administrativos) para a reprodução…

  5. jarbas Says:

    Bom tê-la aqui de novo, Conceição Rosa.

    Sua explicação faz sentido. E se os critérios para colocar bancadas de computadores coladas em paredes forem apenas os de conveniências de engenharia, é uma pena. Uma orientação básica para o design de interiores das escolas é a de imaginar como as pessoas irão utilizar móveis e equipamentos. Economizar em fiação e arranjar os computadores juntinho das paredes é um modo de ignorar solemente as pessoas.

    No post escrevo que a ditadura da tela ignora nossa biologia. Se o design fosse entregue a nossos primos cimpanzés, aposto que eles fariam arranjos muito mais interessantes, pois privilegiam relações vitais , não pequenas economias.

    Abraço grande,

    Jarbas

  6. Computadores e arquitetura escolar « Boteco Escola Says:

    […] post passado – Ditadura da tela e TIC’s – observei que as plantas dos laboratórios nas escolas, quase sempre, ou repetem a […]

  7. Robson Garcia Freire Says:

    Olá Miriam, Conceição e Jarbas

    O projeto dos laboratórios PROINFO, aquele layout foi desenvolvido em 1995, portanto 15 anos atras. Ele precisa ser mesmo atualizado. Mesmo hoje há muita controvérsia em relação ao modelo adequado que valorize o o espaço e que contemple o uso da mobilidade.

    Abraços

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