Timidez é problema?

Anos atrás, uma orientadora pedagógica me chamou para uma conversa sobre uma de minhas filhas. Para minha surpresa, a educadora se disse muito preocupada com a timidez de minha herdeira. Escutei as observações sem nada dizer, mas sai da escola com a impressão de que a orientadora avançou diversos sinais em sua fala. Nunca achei que timidez fosse per se um problema. Se uma criança não se sente à vontade para ser “participativa” não penso que a mesma deva ser pressionada a falar. Muita gente gosta mais de escutar e ficar na dela. Forçar a barra, no caso, é invasão de privacidade. Não me parece que educadores tenham direito de invadir a vida alheia em nome de duvidosos princípios de aprendizagem.

Confesso que fui tímido quase toda a minha vida escolar. Pelo que me recordo, fui falante e particiaptivo apenas no primeiro ano de grupo. Nos anos seguintes me recolhi. Nada perguntava aos professores e não falava a não ser que interrogado. Isso me prejudicou? Talvez sim. Na vida profissional quase sempre tive dificuldade para atuar participativamente de acordo com os modelos sugeridos pelos gurus de administração. Quase sempre preferi ficar na minha.

Sempre que falo em timidez e modelos de participação muito prestigiados no âmbito escolar, lembro-me de um episódio da vida de Charles Horman, jornalista americano assassinado pela ditadura de Pinochet no Chile. A mãe de Charles foi chamada à escola infantil onde estudava o filho, uma instituição de prestígio da comunidade judaica de Nova Iorque. A orientadora entrou com um papo semelhante ao que tive de escutar sobre o comportamento não participativo de minha filha. Ao voltar para casa, com os devidos cuidados, a mãe do futuro jornalista sugeriu que o mesmo participasse mais das atividades escolares. Sugeriu que ele fizesse perguntas (um dos problemas apresentados pela orientadora era o de que Charles nunca fazia perguntas). A resposta do menino foi primorosa: “nada pergunto porque já sei o que a professora vai responder”.

Entro aqui com toda essa conversa sobre timidez e participação porque acabo de aprender uma coisa que, no fundo, já sabia: certa timidez de alunos nas escolas é um comportamento resultante de origem de classe. Os pobres costumam ser tímidos nas escolas porque o tipo de participação que se requer é um treinamento de mando próprio da burguesia. Filhos de papai entram no jogo com facilidade. Filhos de camponenses e operários permanecem calados, pois sabem que sua participação não é esperada. É claro que a timidez de minha filha, assim como a de Charles Horman, não era a mesma que a dos filhos dos trabalhadores. Herdeiros de intelectuais de classe média, minha filha e Charles achavam que a participação esperada era um jogo de cartas marcadas. Preferiam o silêncio, em vez de atuarem num teatrinho cujo script era determinado por educadoras obcecadas com a idéia de que os alunos deviam ser “ativos”.

Fiz até aqui uma longa introdução para falar de uma aprendizagem recente. E me perdi um pouco no falatório. Minha intenção, desde o início foi a de falar sobre timidez a partir de um trecho de Carta a uma Professora, livro escrito por alunos da Escola de Barbiana. No citado trecho, os alunos de Don Lorenzo Milani comentam a questão da timidez na escola a partir da experiência de um deles. Tal trecho iluminou meu entendimento. Aprendi que os pobres se calam na escola quando os professores jogam o jogo da participação. Os alunos das classes trabalhadoras sabem que a participação proposta não é para eles. Aliás, eles não aprendem a ser tímidos quando o jogo participativo ocorre na escola. Eles já chegam ás intituições de ensino convencidos de que não devem “aparecer”.

Foto de abertura: Don Milani conversa com alunos de Barbiana; provavelmente foto dos arquivos da Fundação Barbiana, reproduzida por 1er Circolo Diddatico Statale di Luca. A foto que acompanha o parágrafo introdutório à minha fala sobre Barbiana tem a mesma fonte e mostra o conjunto dos edifícios onde Don Milani desenvolveu sua admirável obra educacional.

Anúncios

4 Respostas to “Timidez é problema?”

  1. Fernanda Elisa Says:

    Olá, professor!

    Interessei-me pelo post. Nunca fui muito tímida. Mas já escolhi sê-la em algumas ocasiões. Não por orgulho (pois dizem alguns psicólocos que por trás da timidez existe um certo medo de se expor), e sim por uma intuição que me dizia quando eu devia ou não fazer parte do jogo social.

    Tive alguns alunos tímidos bem interessantes. Um inclusive era ótimo na elaboração de narrativas. Lembro-me de que uma vez lhe disse: “Matheus, se seu silêncio é transformado em tão belas palavras na escritas, nunca mais nem responda “presente” quando eu fizer a chamada!”.

    Bom, mas acho que vim aqui também para lhe dizer que pulei fora da Educação. Pedi demissão e acho que não sou educadora, professora, docentes…rsrs…mais!

  2. jarbas Says:

    Oi Fernanda,

    Perde a educação. E talvez você ganhe. De qualquer forma é uma pena. Cada vez mais, a educação é um reino de medíocres.

    Não vou fazer nenhum apelo. Mas se você voltar, ameaças de completa mediocrização no mundo escolar ficarão menos preocupantes.

    Muita sorte pra você nos novos ofícios. Abração,

    Jarbas

  3. Karol Coelho Says:

    Não sei. A timidez não é um problema. Há pessoas tímidas que sabem se comunicar bem quando necessário. Uma pessoa tímida, acredito que, em algum momento se encontra e consegue evoluir sem fazer as perguntas, mas sempre achando respostas.
    Eu sou tímida em alguns momentos, depende muito do lugar – como muita gente. Na escola era mais descontraída quando mais crescida, porém, tenho amigos muito tímidos que me ensinaram muitas coisas, e que sabem o que querem e porque são do jeito que são.
    Talvez, não seja o tímido a perder nessa história toda, mas sim a sociedade em si. “Tem muita gente que fala demais sem ter nada a dizer,” enquanto há outros que não falam nada tendo muito o que falar e com sentido.
    Na escola, que seria um lugar de educação, não há educadores de verdade que saibam lidar com a timidez de alunos, sem achar que ele tenha problemas. Eu, por muitas vezes me calei por estar cheia do modelo de educação. A escola valoriza os que aparentemente sabem o que são e que dane-se o restante. Sem contar que os tímidos, muitas vezes, são os mais “zoados” pelos colegas de turma.
    Pois, o problema não estão nos tímidos.

  4. Mariane Says:

    Olá, entrei no blog meio que por acaso. Quero dizer, na verdade estou pesquisando justamente a temática que foi abordada por você.

    Ainda estou estruturando algumas ideias para fazer a pesquisa da minha monografia, sou estudante de Pedagogia e minha inclinação para essa temática foi justamente o fato de em toda minha vida escolar a timidez não permitir que eu aproveitasse grandes oportunidades de crescimento pessoal, de interação social, por medo de me expor. Entendo seu ponto de vista, concordo também que cada um deva falar de forma espontânea e não forçada. Mas penso em tantos momentos em que a timidez não me permitiu expor minha opinião em meio a tanta falácia e balburdia promovida por pessoas eloquentes mas sem contéudo nos debates na faculdade. Saia sempre frustrada.

    Acredito muito na autonomia que se deva apresentar ao aluno, mas acredito que incentivar aquele levantar do dedinho cheio de dúvidas no meio da aula é de suma importância para não se perpetuar o modelo de educação conteudista, de tão somente depositar informação.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: