Educação com conteúdo

Estou lendo “YOU WON’T REMEMBER ME”: The Schoolboys of Barbiana Speak to Today, de Marvin Hoffman, The Teachers College Press, 2007. A obra analisa o projeto educacional de Dom Milani, um dos marcos da pedagogia libertária dos anos sessenta.

Em Barbiana, lugarejo perdido da Toscana, Dom Milani converteu alunos que fracassaram nos sistema de ensino convencional em jovens senhores de si e do saber a que tinham direito. A história é muito bonita e não deveria ser esquecida. O pároco de Barbiana mostrou que todos podem aprender muito se tiverem tempo, oportunidade e cuidado.

Não vou comentar os muitos méritos da escola de Barbiana. Convido os leitores a se informarem sobre o projeto de Dom Milani. A obra desse educador italiano merece pesquisa, merece divulgação, merece ser luz para nossos sonhos em educação.

Escrevo este post por um motivo mais específico. Hoffman, ao comentar o currículo de Barbiana,  lembra trecho de uma dos textos dos jovens da escola da Toscana, publicado no livro Carta a Uma Professora. Vamos ao trecho que interessa.

“Nós estamos em busca de uma meta. Ela deve ser algo honesto. Algo grande. Ela deve exigir de um jovem que seja nada menos que um ser humano. Ela deve criar estudantes que sejam capazes de entender os outros e se fazerem entendidos “(Carta, 1970, p. 88). Esse é um empreendimento bem diferente daquele que tem por objetivo produzir contadores ou pós-graduados competentes. E certamente é muito diferente dos padrões míopes utilizados hoje em dia para medir o sucesso dos educadores.

No trecho, Hoffman faz uma crítica aberta contra o a idéia de que a educação deva ser planejada a partir de competências. Em Barbiana e em muitos outros projetos educacionais expressivos o alvo não era o mercado e uma vida cidadã do bom consumidor. Aspirava-se muito mais. Aspirava-se formar gente que chegasse à plenitude de sua humanidade. Tais aspirações nada tem a ver com idéias de uma educação voltada para a eficiência, mesmo quando tal proposta se esconde (muito mal) atrás de um biombo chamado competência.

O competentismo usa um discurso que não se compromete com conteúdo, que não toma partido, que não discute contradições, que ignora as dimensões sociais da aprendizagem, que não enxerga fins da educação. Quando leio documentos sobre competências, percebo um vazio. O que importa no caso são apenas aspectos formalísticos. Aspectos estéticos, axiológicos e éticos são ignorados. Sobra uma descrição de um conhecer reduzido às suas formas.

O trecho da Carta, citado por Hoffman, sugere outro roteiro. Sugere uma educação em que os desejos de plenitude humana definem o que precisa ser aprendido.

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5 Respostas to “Educação com conteúdo”

  1. Doralice Araújo Says:

    Prezado colega: as visitas regulares ao seu Boteco Escola são altamente prazerosas. Excelente conteúdo, estímulo à manutenção dos ideais educacionais e advertências oportunas formam um trio de apoio aos frequentadores. Vou ampliar as informações sobre Dom Milani e a escola de Barbiana.

    Abraço.

    • Conceição Rosa Says:

      Olá Doralice

      Eu estava pensando o mesmo sobre minhas visitas a este Boteco; são altamente prazerosas, e nunca se extinguem por aqui… Também já anotei a referência de Dom Milani para buscar mais informações.
      Mas o que mais me encanta neste espaço, sempre, é a humanidade que percebo nas palavras de seu dono.

  2. www.unicead.com.br Says:

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    • jarbas Says:

      Protesto. Odeio gente que invade blogs com propósitos comerciais. Pior ainda quando entram num espaço seu para promover produtos de segunda categoria.

      Odeio essa onda de psicopedagogia, uma monstruosidade inventada por gente que não conseguiu fazer um bom curso de psicologia e invadiu a educação com banalidades pseudo-científicas. Me poupem, por favor,

      Jarbas

  3. Chafic Says:

    As pessoas criticam tudo aquilo que desconhecem ou que não precisam. Depois acabam fazendo a mesma coisa ou se utilizando dela.

    A ignorância e a estupidez na forma como se criticam as coisas é invariavelmente proporcional à superficialidade de argumentações.

    Na antiguidade disseram a mesma coisa da Medicina. No século passado quiseram crucificar Freud por causa da Psicanálise. Pseudos cientistas, gente sem qualquer expressão ou renome no meio acadêmico criticam aquilo que gostariam ter inventado ou pelo menos manter o domínio, se não de patente pelo pelo menos de conhecimento.

    Sr. Jarbas, blog é um instrumento PÚBLICO, sendo assim não cabe o termo invasão. Se não quer ter ou ler algo postado, crie um diário que só você acesse. Temos auxiliado milhares de educadores com nossos serviços a cuidar de crianças, adolescentes e adultos com problemas de comportamento, sociais ou escolares.

    Quando o senhor ou alguém de sua estima e consideração usufruir dos serviços de um psicopedagogo, então reconhecerá a diferença entre as várias técnicas profissionais. Se já as conhece, então apresente na academia ou no âmbito do Congresso Nacional e Justiça Federal seus argumentos validados contra a existência e eficácia da psicopedagogia e acabe com o que te incomoda.

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