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Educação com conteúdo

abril 28, 2010

Estou lendo “YOU WON’T REMEMBER ME”: The Schoolboys of Barbiana Speak to Today, de Marvin Hoffman, The Teachers College Press, 2007. A obra analisa o projeto educacional de Dom Milani, um dos marcos da pedagogia libertária dos anos sessenta.

Em Barbiana, lugarejo perdido da Toscana, Dom Milani converteu alunos que fracassaram nos sistema de ensino convencional em jovens senhores de si e do saber a que tinham direito. A história é muito bonita e não deveria ser esquecida. O pároco de Barbiana mostrou que todos podem aprender muito se tiverem tempo, oportunidade e cuidado.

Não vou comentar os muitos méritos da escola de Barbiana. Convido os leitores a se informarem sobre o projeto de Dom Milani. A obra desse educador italiano merece pesquisa, merece divulgação, merece ser luz para nossos sonhos em educação.

Escrevo este post por um motivo mais específico. Hoffman, ao comentar o currículo de Barbiana,  lembra trecho de uma dos textos dos jovens da escola da Toscana, publicado no livro Carta a Uma Professora. Vamos ao trecho que interessa.

“Nós estamos em busca de uma meta. Ela deve ser algo honesto. Algo grande. Ela deve exigir de um jovem que seja nada menos que um ser humano. Ela deve criar estudantes que sejam capazes de entender os outros e se fazerem entendidos “(Carta, 1970, p. 88). Esse é um empreendimento bem diferente daquele que tem por objetivo produzir contadores ou pós-graduados competentes. E certamente é muito diferente dos padrões míopes utilizados hoje em dia para medir o sucesso dos educadores.

No trecho, Hoffman faz uma crítica aberta contra o a idéia de que a educação deva ser planejada a partir de competências. Em Barbiana e em muitos outros projetos educacionais expressivos o alvo não era o mercado e uma vida cidadã do bom consumidor. Aspirava-se muito mais. Aspirava-se formar gente que chegasse à plenitude de sua humanidade. Tais aspirações nada tem a ver com idéias de uma educação voltada para a eficiência, mesmo quando tal proposta se esconde (muito mal) atrás de um biombo chamado competência.

O competentismo usa um discurso que não se compromete com conteúdo, que não toma partido, que não discute contradições, que ignora as dimensões sociais da aprendizagem, que não enxerga fins da educação. Quando leio documentos sobre competências, percebo um vazio. O que importa no caso são apenas aspectos formalísticos. Aspectos estéticos, axiológicos e éticos são ignorados. Sobra uma descrição de um conhecer reduzido às suas formas.

O trecho da Carta, citado por Hoffman, sugere outro roteiro. Sugere uma educação em que os desejos de plenitude humana definem o que precisa ser aprendido.