Memória e Espaço

Preposições podem revelar algumas das particularidades do nosso pensamento. Digo isso sem qualquer conhecimento científico; sem saber se há estudos a respeito da matéria em linguística ou neurologia. A idéia me veio a partir de uma “descoberta” que fiz.

Num momento de devaneio, comecei a me propor exercícios para o uso de SOBRE e SOB. Uma e outra são preposições que indicam relações entre objetos, situações, eventos.

Depois de pensar sobre muitas possibilidades de uso das duas expressões, resolvi explorar o sentido delas em relações espaciais. No final de minhas especulações, cheguei aos seguintes exemplos:

  • SOB a ponte está o rio.
  • SOBRE o rio está a ponte.

As duas declarações referem-se a uma única relação (tem o mesmo sentido). Mas, ao mudar de uma para outra, senti alguma dificuldade sinalizada por aparente demora em meu discurso interno, por dúvida se a palavra seguinte deveria ser rio ou ponte. Depois de dizer-me “SOBRE o rio está a ponte”, senti que a passagem para “SOB a ponte está o rio” era marcada por um ligeiro lapso de tempo (parcelas de segundo) aparentemente maior que o usual.

Não sei o que rola no caso. De qualquer forma, convido o amável leitor a fazer a experiência: tente passar rapidamente do pensamento “Sob a ponte está o rio” para Sobre o rio está a ponte”. Faça isso mentalmente, sem olhar para o texto. E veja se haverá alguma dificuldade para encontrar a palavra que vem logo após SOB ou SOBRE. Faça isso várias vezes. Acho que você sentirá uma dúvida sutil: o que vem a seguir, rio ou ponte?

Faz muitos anos (1983) que li uma pesquisa da professora Abrahansom, da Universidade da Califórnia em San Diego (UCSD), a respeito das características espaciais da memória humana. A pesquisadora, se bem me lembro, mostrava que nossa memória funciona num espaço tridimensional onde situamos os conceitos. Assim, relações interconceituais são determinadas por distâncias espaciais [entre os conceitos].

Relações entre conceitos muito distantes em nosso espaço de memória acabam sendo mais exigentes no pensar que relações entre conceitos mais próximos. Se não me engano, a pesquisa de Abrahansom tinha como alvo o estudo de analogias e metáforas (essas minhas lembranças decorrem de um “special study” sobre analogias e metáforas, orientado pelo Brock Allen, que fiz durante meu mestrado).

Penso que a concepção espacial de memória é  um ponto de partida para explicar minha “descoberta” a respeito de SOB e SOBRE em sentenças que descrevem relações espaciais. No exempo que criei, propondo alternância entre as duas declarações, parece que nos é exigido um deslocamento de ponto de vista, uma mudança espacial [não continuamos no mesmo lugar…]. Ou seja, parece que nos é exigido que vejamos a ponte a partir do rio (SOBRE o rio está a ponte) e a seguir que vejamos o rio a partir da ponte (SOB a ponte está o rio). Não se trata pois de simples reiteração de uma mesma relação. O pensar, no caso, exige deslocamento no espaço de memória. E essa mudança acaba provocando certa demora.

Termino minhas considerações deixando claro que este post revela apenas um sentimento pessoal. Ele nada tem a ver com descobertas científicas comprovadas. Registra apenas uma curiosidade. Ao mesmo tempo, ele propõe uma indagação que poderia ser um bom ponto de partida para pesquisa. Encantamento com uma pergunta é essencial em pesquisa. E confesso que minha “descoberta” me encantou. Sem encantamento, pesquisas acabam sendo um procedimento burocrático, às vezes correto, nunca atraente.

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2 Respostas to “Memória e Espaço”

  1. Angela Vicente Says:

    Prof ° Jarbas,

    Fiz a experiência e realmente existe uma dificuldade em encontrar a palavra seguinte.

  2. Conceição Rosa Says:

    Oi professor
    Penso por imagens e costumo andar a pé, de ônibus ou de carro. Raramente uso barcas… Pensar que sob a ponte está o mar é mais fácil. Mas, SOBRE a ponte eu me vi, antes de repensar as palavras…
    Quando procuramos imagens de pontes na internet , raramente as veremos do ponto de vista daquele que está no rio.
    Nada de científico nestas afirmações, apenas observações.

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