Verdade, internet e jornalismo

Há algumas horas, postei aqui considerações sobre vídeo que mostra professor arrebentando um laptop. No VT, o mestre, dramaticamente, congela um laptop com nitrogênio líquido e, posteriormente, joga a maquininha no chão. No final do vídeo, o professor anuncia que laptops não são permitidos em suas aulas.

Ao divulgar o vídeo tive o cuidado de anunciar que o mesmo é uma encenação. Quem colocou o material no Youtube observou em letras maiúsculas: THIS WAS STAGED! Ignoro como a obra foi utilizada na escola em que foi produzida. Não sei se, de fato, o professor que aparece na gravação é inimigo declarado de computadores portáteis em sala de aula (para mais informações sobre a história, clique aqui). A coisa toda me pareceu uma provocação para discutir a questão conflituosa entre aulas magistrais e liberdade para utilizar computadores ligados á rede durante exposições dos professores.

Não pretendia voltar ao assunto. Mas, algum tempo depois que postei a mensagem Professor arrebenta laptop, li o seguinte pio no Twitter:

Fui à fonte indicada, uma matéria que saiu na globo.com . Em resumo, a notícia anuncia que laptops estão sendo banidos de algumas universidades americanas, pelo menos nos momentos em que o professor atua como expositor. A matéria é finalizada com um comentário e indicação do vídeo que divulguei neste Boteco. Mas, o redator da notícia afirma que o VT é registro de ação de um professor “meio enfurecido”. Aparentemente, o jornalista não reparou na observação THIS WAS STAGED e vendeu o episódio como fato acontecido. Aparentemente também, quem divulgou a matéria no Twitter não reparou no lapso do jornalista.

Outra observação. O pio do Twitter começa com um juízo de valor: Volta ao passado. Adianta que decisões para restringir uso de laptops na sala de aula é sinal de atraso. Ou seja, não abre qualquer possibilidade de discutir encontros humanos nos quais os participantes fiquem algum tempo “desconectados”. Uma forte convicção do “se está disponível, a tecnologia deve sempre ser usada” parece guiar o citado juízo de valor.

Diante do pio do Twitter e da matéria da globo.com, resolvi ir atrás de mais informação. No caminho encontrei outro video com o mesmo roteiro que o aqui citado. As diferenças são apenas ambientais e idiomáticas. O episódio acontece numa sala do tipo auditório de uma universidade mais antiga. E as falas se passam em francês (provavelmente a história está ambientada no Canadá – ou será na França?).  Para apreciação do leitor, trago para cá o esmagamento de laptop em sua versão gaulesa.

Se visse este último vídeo, o autor da matéria da globo.com teria provavelmente tecido comentários mais ácidos sobre professores que se recusam a utilizar tecnologia em seu ofício. E mais, teria um prato cheio para mostrar atraso de professores que não permitem uso de laptops e celulares em suas aulas. Mas antes que leitores tecnófilos façam o mesmo, devo complementar a informação. O vídeo que acabamos de ver é uma versão editada de um original que mostro a seguir:

Resumo da história: o elemento que pertuba a aula do professor é um avaliador, não um aluno; o computador destruido pelo mestre era sucata; os alunos aplaudem a ação do professor; tudo foi combinado entre professor e avaliador; a encenação foi um “primeiro de abril”.

Volto ao primeiro vídeo em francês. Ele foi editado para funcionar como registro de ação de um professor anti-tecnologia. O avaliador que interrompe a aula e critica o mestre passa a ser mostraodo como aluno. As  cenas finais, como aplauso dos alunos e revelação de que se trata de uma brincadeira de primeiro de abril, são retiradas. Fica a pergunta: a quem interessa divulgar essa versão inautêntica do vídeo?

Há duas observações incidentais que quero fazer sobre os vídeos em pauta. A primeira delas refere-se a uma intenção de mostrar os professores dos dois episódios como obscurantistas. Como luddistas . É claro que estes últimos, derrotados pelo capitalismo industrial nascente,  são apresentados na história como gente obscurantista, inimiga do progresso. Na verdade, os luddistas eram trabalhadores que lutaram  desesperadamente por condições mais humanas de trabalho. Essa perspectiva é apresentada, por exemplo, em Resisting Virtual the Life: The Culture and Politics of Information. Mas, quem conta a história são os vencedores, não os vencidos. Esta minha sugestão de examinar as intenções dos luddistas, tem como alvo proposta de repensar quais são os motivos mais profundos de resistência dos professores a certos usos das novas tecnologias de informação e comunicação. Não acho que os professores, neste novo embate sobre papel das tecnologias, devam ser vistos como inimigos do progresso. Boa parte dos professores tem a percepção correta de que valorização incondicional dos instrumentos tecnológicos é linha de pensamento comprometida com valores que, no mínimo, pecisam ser discutidos. Para quem quiser aprofundar mais o assunto, sugiro leitura de Designing Information Technology in the Postmodern Age.

A segunda observação refere-se ao enredo do vídeo gaulês não editado. Ela apresenta um avaliador que chama a atenção de um professor na frente dos alunos deste último. Isso leva os estudantes a se aliarem ao mestre. E olha que este último fez algo que o pensamento hegemônico não perdoa (destruir um símbolo da conexão permanente). Ao ver o vídeo, lembrei-me imediatamente de um desenho de pesquisa que tinha a mesma estrutura. Um supervisor, em voz alta, chama  atenção de um aplicador de testes na sala A. Na sala B, o mesmo supervisor conversa amigavelmente com o aplicador. Numa sala C, o supervisor apenas entra no recinto sem conversar com o aplicador. Depois do teste, os organizadores passam um instrumento de avaliação. Advinhem que aplicador foi melhor avaliado? Aquele perseguido pela “autoridade”.  Resumo aqui a descrição de um experimento clássico descrito pelo também clássico Foundations of Behavioral Research, de Fred N. Kerlinger,obra que era uma das leituras obrigatórias em Advanced Educational Research nos meus tempos de mestrado (idos de 1983). Desconfio que os roteiristas do último vídeo conheciam a obra de Kerlinger.

Toda essa conversa sobre os vídeos que mostram professores esmagando laptops sugere uma discussão equilibrada sobre uso de computadores portáteis, celulares e outros instrumentos digitais em salas de aula e demais ambientes de convivência humana. Acho que as situações comentadas mostram que a tecnofilia ortodoxa não parece ser um bom caminho. Mostra mais. Mostra que certos tecnófilos chegam a falsificar informações para promover seu ponto de vista. Mostra também, que certos tecnófilos ingênuos não conseguem enxergar falsificações elementares. Este, por exemplo, é o caso do primeiro vídeo. Há um número razoável de pistas de produção que mostram que tudo foi previamente planejado.

Há outro ponto a considerar: a questão da verdade em materiais publicados na internet. Professores menos avisados sugerem aos alunos “pesquisas” na internet. E tais sugestões não são acompanhadas de qualquer providência em termos de verificação. Ou seja, nada é oferecido aos alunos em termos de métodos capazes de testar verdade nas informações encontradas. Isso tem muito a ver com discussões sobre notícias que aparecem em blogues e no Twitter, as ferramentas mais comuns do jornalismo do ciberespaço. Bom tema para considerações de meus alunos de Comunicação Social. Acho que vou convidá-los para uma visita a este post…

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7 Respostas to “Verdade, internet e jornalismo”

  1. algarabías » Clases magistrales contra aprendizaje Says:

    […] a todos sus alumnos que no se puede usar el ordenador durante la clase. Idependientemente de que el vídeo sea una ficción, sirve como excusa para pensar el impacto de la tecnología en la […]

  2. Peligro: estudiante con el ordenador en la clase « djimenezelrn10 Says:

    […] de que el vídeo sea una ficción, sirve como excusa para pensar el impacto de la tecnología en la enseñanza. Después de ver esto […]

  3. Instituto Claro Says:

    Olá, Novelino.
    O post é bem fundamentado e nota-se que a investigação é fruto do seu espírito crítico que sempre soma muito à educação.
    No universo virtual, essa característica passa a ser ainda mais importante, pois é necessário saber diferenciar o falso do verdadeiro.
    Mas fazemos duas observações.
    Primeiro, o “volta ao passado”, que o senhor classifica como um juízo de valor, de fato é, mas diz respeito ao fato de haver “proibição” por parte de universidades.
    Essa proibição, independentemente do vídeo, existe. E certamente existe outro caminho para se resolver a questão entre professores e alunos que não seja esse, tão distante do diálogo.
    Depois, o vídeo que integra reportagem deveria, sim, ter sido identificado pelo repórter que escreveu a matéria do Globo Online, tuitada pelo Instituto Claro, como ilustrativo. Foi um erro não fazê-lo, como o senhor apontou. Porém, isso não invalida a reportagem, que traz depoimentos verdadeiros de um professor de universidade americana.
    O título “Universidades americanas começam a proibir o uso do computadores conectados à rede em salas de aula” se mantém mesmo sem o vídeo. Por isso, não seria imprescindível a nós, que tuitamos, checar a veracidade deste vídeo. De qualquer maneira, isso não tira, de forma alguma, o mérito do senhor em ter feito isso.
    Abraço

    • jarbas Says:

      Oi pessoal,

      Obrigado pela atenção. Na internet, como faltam controles sociais, mais frequentes em outros veículos, aparece muita matéria que reflete convicções de quem escreve, não o que está rolando. Numa redação, por exemplo, matéria sem consistência provoca bronca do editor e até demissão.

      Faz algum tempo, minha vizinha, jornalista de nome na praça, publicou notícia de que um casarão ao lado de nosso prédio tinha sido vendido e que uma incorporadora iria começar a construção de um torre bem ao lado de nossas janelas. O informante, síndico do nosso condomínio, não era fonte confiável. Minha vizinha escreveu uma nota para informar a seus leitores que havia errado. A informação era falsa. Sorte que a “notícia” não foi parar na internet.

      A manchete que vocês destacaram num pio do Twitter não é inteiramente neutra. Ela foi repercutida em outros cantos da internet por tecnófilos sempre dispostos a mostrar “atrasos” em situações que sugerem disciplinar usos de novas tecnologias. Percebo, cada vez mais, uma insistência de usos de certos artefatos sem qualquer limite. Isso está vinculado a uma convicção de que tudo é permitido à tecno-ciência. Um grande cientista da computação, Weizenbaum, já apontava para essa questão nos anos de 1970. A situação tem desdobramentos éticos que não podemos ignorar. No dia-adia, a falta de limite provoca, por exemplo, situações irritantes de uso do celular, bem conhecidas por todos. Mas, a coisa é muito maior. Infelizmente quase todos os tecnófilos partem para o ataque e etiquetam de atrasadas as pessoas que se propõem a considerar o fenômeno de maneira não alinhada com a corrente hegemônica.

      Há um número razoável de cientistas da área de computação e ciências do conhecimento preocupado com os aspectos éticos provocados pela proposta de isentar a tecno-ciência de obrigações éticas. Eles não podem ser acusados de atrasados, pois suas contribuições no campo das ciências da informação e comunicação são notáveis. Mas, grande maioria dos entusistas por novas tecnologias desconhece as obras de tais cientistas. Uma pena!

      Estou me alongando. E, ao reler o que escrevi, vejo que não fui muito claro nem disse tudo que deveria. Mas, não devo continuar. A paciência de vocês e de outros leitores já deve ter se esgotado. Por isso, paro por aqui.

      Volto a agradecer o interesse de vocês pelos meus comentários. E acho que aspectos éticos na direção que assinalei deveriam um dia entrar em pauta de discussão sistemática no Instituto. Abraço grande, Jarbas.

  4. Conceição Rosa Says:

    Oi professor

    Achei interessante este retorno ao vídeo e suas observações sobre o tema. Como professora, nem tão “resistente” porque aceito, gosto e pesquiso o uso de tecnologias no ensino, concordo com o senhor quanto às resitências de um modo geral: há motivos mais profundos.
    Lembrei-me de uma cena do filme “Enterrem Meu Coração na Curva do Rio”, quando o indígena finalmente aceita um nome “civilizado”. Ali demonstra-se que perdas, imposições e resitências andam juntas… Será que dá para comparar?

  5. Norberto Says:

    Show…
    E mesmo assim ainda não exprime o que achei do texto, sou um novato como professor e muito mais como blogueiro, mas estou sempre buscando informações para poder fazer com que o meu aluno se interesse e busque tambem o conhecimento…
    Gostei muito do e visitarei o blog com frequencia…
    obrigado…
    mendigosdaeducacao.blogspot.com

    • jarbas Says:

      Caro Norberto,

      Agradeçeo elogio. É sempre uma grande honra receber professores atuantes nete Boteco.
      Visitei seu blog e fiquei impressionado com sua militância consequente. Já é mais que hora de afirmar com todas as letras que os professores precisam ser respeitados. Está mais que na hora de eliminar o lero-lero escolanovistas que nos impôs o roteiro de que o único ator da educação é o aluno. Essa gente acabou reduzindo os docentes a serviçais de palco. E, como diz você em seu blog, essa mesma gente não vai para a sala de aula. Quando as coisas não vão bem colocam toda a culpa nas largas costas dos professores. Quando as coisas vão bem, proclamam aos quatro ventos a suposta competência da “coordenação” ou das soluções maravilhosas encontradas pelos “pesquisadores”. Abraço grande, Jarbas.

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