Archive for 3 de março de 2010

Tecnologia: dependência e fatalidade

março 3, 2010

Preocupa-me um discurso entusiasmado de educadores sugerindo que o uso de tecnologias é um fatalidade. A cadeia argumentiva é mais ou menos a seguinte:

1. as novas tecnologias são maravilhosas;

2. abrem horizontes para assimilação de mais informação e conhecimento;

3. crianças e jovens usam-nas naturalmente;

4. o uso delas é preferível a qualquer outra alternativa;

5.  velhas tecnologias morrerão fatalmente;

6. professores precisam utilizá-las;

7. elas devem estar disponíveis o tempo todo nas escolas;

8. quem não usa tecnologia em educação é atrasado.

Minha descrição parece caricata. Não acho. Eu até poderia carregar um pouco mais nas tintas, pois os tecnófilos rezam sempre um credo tecnológico mais ortodoxo que o credo de Nicéia.

Hoje, caiu uma ficha importante sobre consequências da fé inabalável dos tecnófilos. Percebi “on the spur of the moment” que a tecnofilia resulta em aceitação de depedência e em declarações de fatalidade. Isso é contraditório, uma vez que a maior parte do educadores entusiasmados com artefatos tecnológicos são, consciente ou inconscientemente, escolanovistas. E um dos principais itens da fé da Escola Nova é o de que o aluno deve ser o centro de toda a prática educacional.

E onde está a contradição? Ela está num modo de ver as novas tecnologias como invenções científicas e de engenharia portadoras de progresso. Este último lhes é inerente. Ou seja, quem as usa é progressista, quem não as usa ou sugere moratórias para alguns usos é retrógado. Assim, uma vez que as tecnologias são ontologicamente boas, é preciso a elas se converter e proceder de acordo com o que ditam. Isso não é novo. Donald Nornan, que já foi vice-presidente de pesquisas da Apple e da HP, chama a nossa atenção para o bordão da Feira de Chicago de 1933

  • A ciência descobre, a indústria aplica, os homens se adaptam.

Já nos idos da primeira metade do século passado, a idéia de submissão do humano a conveniências de engenharia (tecnológicas) era um must. Norman, importante cientista no campo das ciências da informação e do conhecimento, denuncia isso. A tecnofilia coloca a tecnologia no centro do palco. O papel dos humanos neste drama é o de submissos personagens que fazem tudo o que o personagem principal determina. Em poucas palavras: no mundo da fé tecnófila as ferrramentas são mais importantes que os seres humanos. Em educação isto significa deslocar o aluno para papel secundário de usuário de tecnologias. O discurso continua escolanovistas, mas a prática nega o ideário inaugurado por Rousseau e concretizado por Dewey.

Alguém dirá que a centralidade do humano se resolverá colocando ferramentas a serviço de seus criadores. Mas esse caminho voluntarista nada muda. A  prioridade continua a ser de máquinas e sistemas. O que é preciso é reconceber a tecnologia a partir de sua gestação. Isso implica em ferramentas bastante diferentes das ferramentas às quais devemos nos adaptar.

Como não posso me estender demais num post, resolvi colocar em Páginas, neste Boteco, um texto de Donald Norman sobre o assunto. Interessados poderão acessá-lo com uma clicada aqui.

Yo te nombro libertad

março 3, 2010

Esta noite escuto Yo Te Nombro Libertad. Caminho para a música já existe em meu computador há muito tempo. Mas, eu me esqueço dessa beleza. E me lembro vez ou outra. Numa das versões de que mais gosto, a cantoria é do conjunto chileno Quilapayun. Vou indicar link no final deste post. Por agora, fiquem com as palavras de Yo Te Nombro Libertad.

Por el pajaro enjaulado.

Por el pez en la pecera.

Por mi amigo, que esta preso porque ha dicho lo que piensa.

Por las flores arrancadas.

Por la hierba pisoteada.

Por los arboles podados.

Por los cuerpos torturados yo te nombro, Libertad.

Por los dientes apretados.

Por la rabia contenida.

Por el nudo en la garganta.

Por las bocas que no cantan.

Por el beso clandestino.

Por el verso censurado.

Por el joven exilado.

Por los nombres prohibidos yo te nombro, Libertad.

Te nombro, en nombre de todos, por tu nombre verdadero.

Te nombro y cuando oscurece, cuando nadie me ve, escribo tu nombre en las paredes de mi ciudad.

Escribo tu nombre en las paredes de mi ciudad.

Tu nombre verdadero, tu nombre y otros nombres que no nombro por temor.

Por la idea perseguida.

Por los golpes recibidos.

Por aquel que no resiste.

Por aquellos que se esconden.

Por el miedo que te tienen.

Por tus pasos que vigilan. Por la forma en que te atacan.

Por los hijos que te matan yo te nombro, Libertad.

Por las tierras invadidas. Por los pueblos conquistados.

Por la gente sometida. Por los hombres explotados.

Por los muertos en la hoguera. Por el justo ajusticiado.

Por el heroe asesinado. Por los fuegos apagados yo te nombro, Libertad.

Te nombro, en nombre de todos, por tu nombre verdadero.

Te nombro y cuando oscurece, cuando nadie me ve, escribo tu nombre en las paredes de mi ciudad.

Escribo tu nombre en las paredes de mi ciudad. Tu nombre verdadero, tu nombre y otros nombres que no nombro por temor.

Yo te nombro, Libertad.

Como prometido, segue link para a cantoria:

Problema clássico de epistemologia

março 3, 2010

Com o título Problema Clássico de Epistemologia, recriei uma velha história indiana. Publiquei-a originariamente em Episteme, um blog iniciado para conversas com meus alunos de filosofia. Mas, o Episteme ficou no meio do caminho. Por essa razão, num momento que estou de novo começando conversas sobre a questão do conhecimento com um novo grupo de alunos, resolvi trazer a hitória para o Boteco. Leitores habituais podem estranhar, mas o texto tem a ver também com a matéria central deste blog, conversas sobre tecnologia. Não vou explicar por que tenho tal opinião. Isso estragaria a graça da metáfora. Sem mais, portanto, vamos à história.

O Que É Elefante?

Versão de velha história, recontada por Jarbas Novelino Barato.

Havia antigamente, no norte da Índia, uma cidade cujos habitantes eram todos cegos desde o nascimento. Mas, apesar de não poderem conhecer o mundo iluminado pelo sol, os cegos de Ray Bhan (pois é… esse era o nome da cidade) queriam ter idéias claras de tudo o que existe no mundo. Por isso, a URB (Universidade de Ray Bhan) sempre mandava equipes de pesquisadores para estudos em todas as partes do planeta. Foi assim que começou a aventura de seis sábios de Ray Bhan enviados ao Ceilão. A missão deles incluía estudos sobre o chá, os búfalos, as areias de praias do Oceano Índico etc. Mas a tarefa mais emocionante que receberam foi a de descobrir o que era um elefante. E a pesquisa desses seis estudiosos de Ray Bhan sobre o famoso paquiderme virou história. Talvez você a conheça. Mas, eu quero recontá-la, pois ela nos diz muito sobre meios e modos do conhecer. É um clássico mundial de epistemologia.

Um guia de elefantes trouxe para estudo dos sábios seu bicho mais bonito, um animal de sessenta anos, grande, forte e saudável. A equipe de Ray Bhan usou seu preciso e fino tato para examinar o bicho. Os sábios analisaram profundamente aquele magnífico animal. Depois do exame, cada pesquisador procurou oferecer uma definição bem fundamentada de elefante.

— Dizia um: Que bicho esquisito! Nunca apalpei nada igual. Parece uma coluna coberta de pêlos!

— Você está variando? Coluna que nada! Elefante é um enorme abano, bom para espantar o calor! Dizia um outro cientista da URB.

— Qual abano, colega! Elefante é uma adaga ou uma espada. Uma arma poderosa, dizia o terceiro pesquisador. Seu tato anda falhando…

— Vocês estão todos enganados, caros colegas, dizia o quarto pesquisador. O bicho não é arma, não é espada, não é coluna. É apenas uma corda viva, não muito comprida.

— Quanta ignorância, doutores! Como é que vocês não perceberam que o elefante é uma enorme e poderosa serpente capaz de derrubar até árvores? Essa era a linha de pesquisa do quinto investigador.

— Colegas! Espanta-me a ignorância de vocês. Apesar de muita prática de pesquisa, não perceberam que o elefante é uma enorme montanha que se move? Assim argumentava o sexto sábio.

E a discordância continuou durante os muitos dias de viagem na volta para Ray Bhan. Não houve acordo. Por isso, na enciclopédia da URB há seis definições de elefante. Uma conflitando com a outra. E até hoje os habitantes de Ray Bhan não têm uma idéia definitiva do que vem a ser bicho tão afamado.

Morais da história:

Aqui estão duas morais da história fornecidas por um dos narradores da famosa aventura dos pesquisadores cegos de Ray Bhan:

Quando algo é tido como verdade, o que é diferente parece mentira.

Se você for falar sobre um bicho para uma pessoa que nunca viu um, melhor fazer com que ela o veja primeiro.

Gostou? Agora é sua vez. Mande seu comentário na forma de duas outras morais para a história dos cegos e do elefante.