Andragogia: dignidade acadêmica equivocada

Sempre que ouço a palavra andragogia fico incomodado. Estudei um pouco de grego. Hoje pouco sei desse idioma, mas algumas coisas ficaram. Uma delas é o significado de aner/andros. Fico com a  última expressão, andros, genitivo de aner. E o que significa tal palavra grega? Significa ser humano do sexo masculino. Uma tradução literal de andros, portanto, é do homem. Por isso Andrea em italiano é nome de menino homem (aliás, com propriedade).

Muitos educadores que trabalham com adultos dizem que sua área de estudos é a ANDRAGOGIA. Literalmente, andragogia quer dizer condução de homem (pela mão) – ê gogia tos andros. Uma expressão infeliz. Creio que a mesma começou  a ser usada para dar ares de importância acadêmica a estudos sobre educação de adultos. Boa intenção. Erro grave de etimologia. Infelizmente para quem a usa, a expressão não é algo que se oponha a Pedagogia [Paidos (criança) + gogia (condução ou dar a mão para)]

Mais uma lembrança. Aner é o oposto de gine. Em termos mais crus, aner é macho, gine é fêmea. Para lembrar: gine está na raiz da palavra gineco-logia. Se houvesse um formulário em grego clássico, no campo gênero teríamos gine (mulher) e aner (homem), precedidos por aqueles quadradinhos nos quais o freguês indica sua escolha.

Acho conveniente escolher outra palavra com ares de dignidade acadêmica para estudos de educação de adultos. Andragogia é um equívoco, provavelmente fruto de decisão de alguém que teve preguiça de consultar um bom dicionário de etimologia.

Para diversão de quem gosta de etimologia, aqui vai um esclarecimento sobre o nome Alexandre – alexein (defender) + andros (homem) que encontrei num blog macedônio.

From the Greek name Alexandros, which meant defending men’; from Greek alexein to defend, protect, help’; and aner man’; (genitive andros). Alexander the Great, King of Macedon, is the most famous bearer of this name. In the 4th century BC he built a huge empire out of Greece, Egypt, Persia, and parts of India. The name was borne by five kings of Macedon.

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10 Respostas to “Andragogia: dignidade acadêmica equivocada”

  1. jordano santos cerqueira Says:

    Adoro linguas antigas!! Amo simbologia!!!!!!

  2. T Says:

    Devem ter seguido a palavra Andropausa ihihihih

  3. Dmarina Says:

    Olá!
    Estou no meio de uma pesquisa e encontrei esta outra definição para andragogia: http://socc1.blogspot.com/2008/02/andragogia-ferramenta-antropolgica-para.html
    O significado de Andragogia vem do grego: andros = adulto e
    agogos = educar)
    É o caminho que busca compreender adultos, que não são aprendizes sem experiência, visto que o conhecimento está na realidade.
    O que me diz?

    • jarbas Says:

      Cara Dmarina,

      Não sei de que dicionário alguém viu que aner/andrós corresponde a adulto. Essa, parece-me, é uma definição pos factum. Ou seja, quem elaborou a definição, traduziu andrós por adulto depois de cometido o erro etimológico de designar educação de adultos com o rótulo Andragogia.
      Em medicina, você já deve ter ouvido falar em andropausa, uma condição própria de homens (seres do sexo masculino). Continuo a insistir que o termo andragogia é um erro de quem quis dar dignidade acadêmica ao estudo da educação de adultos.
      De qualquer forma, se você descobrir um bom dicionário etimológico de grego que mostre que aner/andrós corresponde a adulto, mande-me indicação. A informação que você me enviou no momento tem pinta de
      ser opinião de quem nada sabe do velho idioma da Grécia.
      Abraço grande, Jarbas.

    • jarbas Says:

      Complemento minha resposta. Fui à fonte que você indicou. A autora diz:

      “O significado de Andragogia vem do grego: andros = adulto e

      agogos = educar) ”

      Posso afirmar com certeza de que andros não é = adulto. Como não tenho dicionário etimológico, fui ao Houais para para conferir o verbete andro e palavras de nosso idioma que tem a raiz andros. No verbete andro, o dicionario Houais afirma:

      “Andro: antepositivo do gr anêr,andrós homem como macho em oposisão a mulher (no sentido genérico, como ser humano que inclui homens, mulheres, crianças, velhos)”.

      Em todos os vocábulos com o antepositivo andro as referências falam de características masculinas. Dê uma passada pelo Houais e confira.

      Como você pode ver, um dos grandes dicionários de nosso idioma não faz qualquer indicação de que o antepositivo andro possa ser utilizado em vocábulos que façam referência a adultos. Em usos genéricos, andros pode ser utilizado da mesma forma que utilizamos homem para designar seres humanos de todos os gêneros e idades. Mas essa generalização nada tem a ver com idade adulta.

      Outra observação. Sua fonte diz: agogos+educar. Não é por aí. Se ela quiser utilizar o verbo no infinitivo, o certo seria gogein=conduzir. E se tratarmos a questão linguística com rigor, gogein não é igual a educar. Gogein é conduzir pela mão. É daí que vem a palavra pedagogia: paidos (criança)+gogein (conduzir pela mão). Na sua origem, a palavra pedagogo descrevia literalmente a atividade de um escravo de confiança que conduzia pela mão as crianças da nobreza ateniense até o mestre que lhes ensinava primeiras letras (confira isso na História da Educação na Antiguidade, do Marrou).

      É interessante observar que gogein corresponde ao latino educere=conduzir. E de educere vem a nossa palavra educação. Ou seja, etimologicamente educação é condução.

      Outra curiosidade. O brazão do estado de São Paulo tem o dístico: Duco non ducor. Tradução: conduzo, não sou conduzido. Tradução livre: lidero, não sou liderado.

      Insisto no cuidado que devemos ter se quisermos criar palavras com raízes gregas e/ou latinas. Para tanto é preciso respeitar o dicionário e não imaginar que o significado de X pode ser manipulado ao bel prazer de candidatos a intelectuais. E para ser rigoroso, a palavra andragogia precisa ser banida do vocabulário educacional. Ela é um engano até bem intencionado. Mas, é uma barbaridade linguística. Abraço, Jarbas.

  4. Maria José de Oliveira Arruda Says:

    Sou aluna de Mestrado em educação, e faço em meu anteprojeto uma pequena abordagem sobre Andragogia, e meu orientador quer uma definição de andragogia, porém, lendo estes argumentos, preciso ser mais orientada ao tratar dessa definição, estou aberta a receber contribuições, como então definirei esta ciência?

    • jarbas Says:

      Cara Maria José,

      Minhas considerações não anulam necessidade de se pensar em educação de adultos como uma prática específica. Ou seja, os educadores precisam sempre considerar interesses, necessidades e modos de aprender dos adultos. O que busco mostrar é que a educação de adultos, por razões etimológicas, não pode ser chamada de andragogia. Tal cuidado com palavras nada tem a ver com definições. Estas dependem do objeto de saber que você quer definir. Em outras palavras, sua definição de educação de adultos deverá mostrar que há uma área de saber (e uma prática social) com status próprio, voltada para os modos de aprender gente mais madura.

      Não considero educação de adultos uma ‘ciência’. Ela é muito mais uma arte vinculada a muitas ciências como biologia, psicologia e sociologia. Mas, esta é outra discussão. Nada a ver com o uso equivocado de andrós com prefixo para designar a especificidade do trabalho educacional com pessoas adultas. Abraço,

      Jarbas

  5. Mauro de França Says:

    Creio que a acepção do termo homem, neste caso, não distingue gênero. Refere-se ao hominídeo, ao humano, sendo macho ou fêmea. Embora, dentre as acepções do termo, a habitual refira-se à segmentação biológica de gênero, não creio que o emprego neste contexto deva ser considerado um “crime”, tampouco caracterizado como “grave”. O mesmo, comumente faz referência à fase adulta do homem em textos filosóficos, religiosos, etc.
    Grande abraço,

    Mauro.

    • jarbas Says:

      Gostaria de ver exemplos do uso de andrós com significado genérico de gênero humano em textos de filosofia. Nunca vi. Aliás há um termo com tal sentido e que é bastante usado no discurso filosófico: antropos. Há uma antropologia filosófica, não uma androgolagia filosófica. Em ciências sociais, há estudos antropológicos, não andragológicos. O uso de aner-andrós me parece mesmo um desvio etimológico de gente da educação não muito afeita a cuidados com uso de termos derivados do grego.

      • Júlio Says:

        jarbas, penso semelhante ao Mauro de França. Mas também entendi o seu estudo que é muito certo. Existem muitas palavras que definem um todo e em sua etimologia puxam a sardinha para os homens. “O homem do século XXI…” Mas nós sabemos, não é mesmo? Sabemos quando se referem de forma genérica a humanidade, e que reflete um pouco a sociedade com a predominância do poder masculino. Mas vamos ao que interessa:
        Essa palavra foi utilizada a primeira vez por Alexander Kapp, educador alemão, em 1833. E como você bem explicou vem do grego “andros” genitivo de “aner” (a pronúncia é anír) que significa “macho” ou “homem”. Na época em que escreveu o livro defendia a necessidade do modo de aprender do adulto diferenciado, e se referia a teoria do filosofo grego Platão. Então conclui-se que foi um equívoco etimológico. Mesmo assim os estudiosos mais dedicados, que desenvolvem/difundem essas técnicas e habilidades de ensino ao adulto, pensam em modificar esse termo. Eu tenho uma sugestão. E você como acha que poderia se chamar?

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