Comunicação e significado

Para o senso comum há um significado embutido no que será transmitido ao leitor. Esse entendimento justifica, por exemplo, cobranças de conteúdos decorados ou muito parecidos com o que está no livro didático ou na apostila do professor. Isso é uma bobagem. Descobertas no campo das ciências do conhecimento mostram que o significado é construído pelo leitor.

A discussão sobre atribuição de significado ao texto por parte do leitor aparece num belo artigo de Richard C. Anderson The notion of schemata and the educational enterprise – publicado no clássico Schooling and the Acquisition of Knowledge.

A discussão não se resume a um debate acadêmico. Ela é de importância fundamental para decisões no campo da produção de materiais com finalidades instrucionais. Além disso, a questão precisa ser considerada em propostas de avaliação da aprendizagem. Nesse último caso, a grande pergunta é: o que espero em termos de resultado de quem estudar este material? Isso exige do avaliador uma grande dose de criatividade para inventar desafios que fujam inteiramente de mera reprodução do material de estudo. Essa não é uma tarefa fácil.

O que importa em comunicação é a produção de significados por parte de quem recebe as mensagens. E, para que as coisas rolem comme il faut, é preciso que o comunicador receba respostas dentro do espectro de suas expectativas, sem se esquecer de que o produtor de significado é o leitor.

As observações iniciais deste post foram inspiradas por uma série de pios ouvidos hoje no Twitter de Stephen Downes, pesquisador na área de ciências do conhecimento e pioneiro da blogosfera. @Downes escreveu hoje diversas mensagens sobre comunicação e significado. Fez isso nos limites dos 140 caracteres do Twitter. Tal circunstância muda bastante o modo de se comunicar, pois é preciso passar informações no formato de textos de microliteratura. Cada mensagem deve ser autosuficiente e passar idéias com começo, meio e fim. Ou, por outra, deve ser uma provocação que leve o leitor a elaborar significados com princípio, meio e fim. Mas, como não é possível dizer tudo num só pio, o autor trina numa cadeia de pios que considera suficiente para vender o seu peixe.

Há quem entenda que trinos temáticos não são apropriados em microblogues. Há perda de substância. Há muitos claros e buracos na informação. Não tenho opinião formada sobre a matéria e, quando vale a pena, acompanho trinados temáticos de alguns tuiteiros. No caso de Downes, os pios de hoje tem cara de aforismos. Sugerem muita coisa em poucas palavras. Como os quasi-aforismos de Downes sobre comunicação e significado me pareceram uma provocação que vale a pena ser considerada, traduzi-os livremente para publicá-los aqui. Espero que a medida seja de algum proveito para visitantes deste Boteco.

  • Não significamos diferentes coisas com a mesma palavra. O que fazemos é significar diferentes épocas com diferenças em imagens paradigmáticas.
  • Comunicação não é sobre significado compartido. Isso é impossível. Ela é sobre ser capaz de pelo menos aproximadamente predizer a resposta.
  • Quando você diz “me dá um cerveja”, você não quer uma idéia comum (compartilhada) de cerveja, você quer aumentar as chances de conseguir algo que você deseja.
  • “Me dá uma gazela” funcionaria da mesma maneira se seu ouvinte entendesse e lhe desse uma Heineken; o significado não importa, importa o resultado.
  • O que rola é que a palavra que transmitimos (talvez também gestos, etc.)forma apenas uma pequena parte do entendimento da outra pessoa sobre o que você disse.
  • Sua palavra é apenas um estímulo: boa parte do entendimento de uma pessoa está baseada em conhecimento prévio; e é isso que produz a resposta.
  • Você precisa experimentar – Wittgenstein deu a isso o nome de jogo – para testar e sentir para ver que palavra evoca qual resposta – não há significado comum (compartilhado).
  • Não há experiência prévia compartilhada porque a experiência é irremediavelmente privada – mas eu tenho uma lembrança de história de interações.
  • Você “não entende o significado de alguém”, você chega ao seu novo entendimento baseado no input alheio.
  • Na verdade dificilmente identificamos erros, há uma imensa tolerância para erro em comunicação, é por isso que ela funciona.
  • Não se requer nada parecido com a mesmice – é por isso que podemos usar quase tudo para comunicar, não apenas palavras.
  • Se a mesmice do significado fosse requerida, a comunicação seria reduzida a nada.
  • … e minha sugestão é a de que precisamos ser prudentes para não supormos que as pessoas vêem as coisas da mesma forma que nós, geralmente elas não vêem.
  • Há tanto espaço para erro em comunicação que não notamos que utilizamos significantes completamente diferentes do que queremos, e quando tomamos consciência disso nos surpreendemos.
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5 Respostas to “Comunicação e significado”

  1. Comunicação e significado « Boteco Escola – comunicacao Says:

    […] https://jarbas.wordpress.com/2010/02/09/comunicacao-e-significado/O que importa em comunicação é a produção de significados por parte de quem recebe as […]

  2. jordano santos cerqueira Says:

    Realmente, muitas vezes esquecemos que temos um objetivo ao enfatizar um ensino. Ta ai um texto que a tempo não encontrava, dada a sua elaboração e complexidade, aliado a relevância! Acima de excelente! Supremo!

    http://www.google.com.br/reader/shared/zxyproject

  3. Priscila Says:

    Jarbas, muito obrigada por este post. Era tudo que eu precisava (twitei uma pergunta sobre isso dia 01/02). Obrigada!!!
    Eu observei que o artigo que vc linkou fala de Ausubel. Na época que li sobre ele, pesquisei na internet “críticas à teoria da aprendizagem significativa”. E não encontrei muita coisa senão que a teoria dele funcionava bem para a aprendizagem de conceitos, não para procedimentos.
    Não sei se estou certa, me corrija por favor, mas os procedimentos, assim como as informações de detalhes, datas, nomes, essas coisas de decoreba mesmo, nós conseguimos guardar muito mais fácil depois de entender a matéria conceitualmente.
    Obrigada mais uma vez.

  4. jarbas Says:

    Oi Priscila,

    Parece que saber o significado ajuda a guardar informação. Isso não é necessariamente “entender conceitualmente”. Há uma série de experimentos famosos sobre memorização, comparando memorização de listas de termos sem significado com listas de palavras que fazem sentido para o aprendiz. Os termos sem significado são memorizados com muito mais dificulade.

    Temo que “entender conceitualmente” seja entendido como teoria na famosa dobradinha teoria/prática. Se este for o caso, há um engano. Bom entendimento nesse sentido nada tem a ver com a guarda de dados informativos (necessários).

    No caso de procedimentos a coisa vai mais longe. Estes são uma categoria de saber com status epistemológico próprio. Requerem estratégias de aprendizagem específicas e em nada dependem da teoria.

    Não há aqui espaço para mais desenvolver a matéria. Mas posso voltar a ela numa outra ocasião. Abraço,

    Jarbas

  5. Priscila Says:

    Jarbas, antes de mais nada muito obrigada pela resposta anterior. Me ajudou muito e eu nem tinha agradecido. Obrigada. Estive lendo alguns artigos sobre “discurso docente”. Me veio à mente isso pq eu estava pensando sobre o “explicar”, que é diferente de “conduzir”. (A propósito, esse conduzir me incomoda um pouco, me parece difícil demais pra quem não é psicólogo, exige que se entenda o outro, que não se julgue, parece até que elimina o “explicar”, este que tanto me encanta)Achei este trecho aqui: “Tal como expresa De Posada (2000), la teoría de Ausubel resalta la adquisición de conceptos pero minimiza la influencia del desarrollo de las operaciones cognitivas del individuo (Lawson, 1982; White, 1988). Gil (1993) coincide en expresar que el modelo de aprendizaje significativo esboza explícitamente la asimilación de conceptos impìdiendo a los estudiantes participar en la construcción de dichos conceptos.” Pois bem, estamos falando de 2 coisas conflitantes? Sabe, às vezes eu tenho epifanias de coisas que estudei na escola e me decepciono por não ter entendido antes. Por exemplo, a gente estudava história, mas eu mal via notícias internacionais pra entender o que era diplomacia ou um tratado entre países. Eu fico pensando que a partir da compreensao de um significado o aluno vai começar a pensar naquele conteúdo, naquela informação. Que vai raciocinar. Que vai ver o mundo de um jeito diferente quando observar. E isso pra mim é construir seus conceitos, seu próprio conhecimento, quando ele está pensando. Estou errada? Ou será que depois de entender ele precisa ser conduzido pra observar. Será que eu estou vendo as coisas sob o meu único ponto de vista (o de uma pessoa curiosa que gosta de aprender)? Ou será que o “entender” provoca motivação para aprender? Obrigada mais uma vez. Nao tenho palavras para te agradecer.

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