Archive for 9 de fevereiro de 2010

Aprendizagem em botecos: Eduardo Galeano

fevereiro 9, 2010

Acabo de ler texto de Eduardo Galeano por indicação de @tiscar. No escrito, o grande autor uruguaio relata que boa parte de sua aprendizagem ocorreu nos velhos cafés de Montevidéu.  Essa declaração tem parentesco com diversas observações que já fiz neste Boteco sobre a natureza dos blogs, botecos internéticos. Por essa razão, resolvi reproduzir aqui o escrito de Galeano:

Sobre mi aprendizaje

Eduardo Galeano

Yo no tuve la suerte de conocer a Sherezade.

No aprendí el arte de narrar en los palacios de Bagdad.

Mis universidades fueron los viejos cafés de Montevideo.

Los cuentacuentos anónimos me enseñaron lo que sé.

En la poca enseñanza formal que tuve, porque no pasé de primero de liceo, fui un pésimo estudiante de historia.

Y en los cafés descubrí que el pasado era presente, y que la memoria podía ser contada de tal manera que dejara de ser ayer para convertirse en ahora.

No recuerdo la cara ni el nombre de mi primer profesor.

Fue cualquier parroquiano de esos que todavía se reúnen, en los pocos cafés que quedan, para evocar los tiempos en que había tiempo para perder el tiempo.

Él contó una historia, ahí en la rueda de amigos donde yo estaba de colado. Era una historia del año 1904.

Por la edad se veía que él no había ni nacido en aquel entonces, pero la contaba como si hubiera estado allí. Fue mi primera lección: el arte es una mentira que dice la verdad.

Y escuchando aprendí que se puede contar lo que pasó de tal manera que vuelva a ocurrir cuando uno lo cuenta, y que uno pueda escuchar ese remoto trueno de los cascos de los caballos, y que uno pueda ver sus huellas en la arena, aunque el suelo sea de baldosa o madera.

Y aquel hombre, para decir la verdad, mintió que él había recorrido las praderas ensangrentadas, después de una batalla, y había visto los muertos. Y uno de los muertos, dijo, era un ángel. Un muchacho bellísimo, con la vincha blanca roja de sangre. Y la vincha decía: «Por la patria y por ella», y la bala había entrado en la palabra «ella».

Esta é a primeira parte de um texto que traz belas declarações do autor sobre palavra, comunicação, história e verdade. Se você quiser ver o escrito completo, clique aqui.

Aproveito a ocasião para um brinde: um VT no qual Galeano fala sobre o mundo de hoje.

Comunicação e significado

fevereiro 9, 2010

Para o senso comum há um significado embutido no que será transmitido ao leitor. Esse entendimento justifica, por exemplo, cobranças de conteúdos decorados ou muito parecidos com o que está no livro didático ou na apostila do professor. Isso é uma bobagem. Descobertas no campo das ciências do conhecimento mostram que o significado é construído pelo leitor.

A discussão sobre atribuição de significado ao texto por parte do leitor aparece num belo artigo de Richard C. Anderson The notion of schemata and the educational enterprise – publicado no clássico Schooling and the Acquisition of Knowledge.

A discussão não se resume a um debate acadêmico. Ela é de importância fundamental para decisões no campo da produção de materiais com finalidades instrucionais. Além disso, a questão precisa ser considerada em propostas de avaliação da aprendizagem. Nesse último caso, a grande pergunta é: o que espero em termos de resultado de quem estudar este material? Isso exige do avaliador uma grande dose de criatividade para inventar desafios que fujam inteiramente de mera reprodução do material de estudo. Essa não é uma tarefa fácil.

O que importa em comunicação é a produção de significados por parte de quem recebe as mensagens. E, para que as coisas rolem comme il faut, é preciso que o comunicador receba respostas dentro do espectro de suas expectativas, sem se esquecer de que o produtor de significado é o leitor.

As observações iniciais deste post foram inspiradas por uma série de pios ouvidos hoje no Twitter de Stephen Downes, pesquisador na área de ciências do conhecimento e pioneiro da blogosfera. @Downes escreveu hoje diversas mensagens sobre comunicação e significado. Fez isso nos limites dos 140 caracteres do Twitter. Tal circunstância muda bastante o modo de se comunicar, pois é preciso passar informações no formato de textos de microliteratura. Cada mensagem deve ser autosuficiente e passar idéias com começo, meio e fim. Ou, por outra, deve ser uma provocação que leve o leitor a elaborar significados com princípio, meio e fim. Mas, como não é possível dizer tudo num só pio, o autor trina numa cadeia de pios que considera suficiente para vender o seu peixe.

Há quem entenda que trinos temáticos não são apropriados em microblogues. Há perda de substância. Há muitos claros e buracos na informação. Não tenho opinião formada sobre a matéria e, quando vale a pena, acompanho trinados temáticos de alguns tuiteiros. No caso de Downes, os pios de hoje tem cara de aforismos. Sugerem muita coisa em poucas palavras. Como os quasi-aforismos de Downes sobre comunicação e significado me pareceram uma provocação que vale a pena ser considerada, traduzi-os livremente para publicá-los aqui. Espero que a medida seja de algum proveito para visitantes deste Boteco.

  • Não significamos diferentes coisas com a mesma palavra. O que fazemos é significar diferentes épocas com diferenças em imagens paradigmáticas.
  • Comunicação não é sobre significado compartido. Isso é impossível. Ela é sobre ser capaz de pelo menos aproximadamente predizer a resposta.
  • Quando você diz “me dá um cerveja”, você não quer uma idéia comum (compartilhada) de cerveja, você quer aumentar as chances de conseguir algo que você deseja.
  • “Me dá uma gazela” funcionaria da mesma maneira se seu ouvinte entendesse e lhe desse uma Heineken; o significado não importa, importa o resultado.
  • O que rola é que a palavra que transmitimos (talvez também gestos, etc.)forma apenas uma pequena parte do entendimento da outra pessoa sobre o que você disse.
  • Sua palavra é apenas um estímulo: boa parte do entendimento de uma pessoa está baseada em conhecimento prévio; e é isso que produz a resposta.
  • Você precisa experimentar – Wittgenstein deu a isso o nome de jogo – para testar e sentir para ver que palavra evoca qual resposta – não há significado comum (compartilhado).
  • Não há experiência prévia compartilhada porque a experiência é irremediavelmente privada – mas eu tenho uma lembrança de história de interações.
  • Você “não entende o significado de alguém”, você chega ao seu novo entendimento baseado no input alheio.
  • Na verdade dificilmente identificamos erros, há uma imensa tolerância para erro em comunicação, é por isso que ela funciona.
  • Não se requer nada parecido com a mesmice – é por isso que podemos usar quase tudo para comunicar, não apenas palavras.
  • Se a mesmice do significado fosse requerida, a comunicação seria reduzida a nada.
  • … e minha sugestão é a de que precisamos ser prudentes para não supormos que as pessoas vêem as coisas da mesma forma que nós, geralmente elas não vêem.
  • Há tanto espaço para erro em comunicação que não notamos que utilizamos significantes completamente diferentes do que queremos, e quando tomamos consciência disso nos surpreendemos.