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Xadrez, inteligência e computadores

janeiro 22, 2010

Acaba de sair um artigo muito interessante na New York Review o Books: The Chess Master and de Computer. O autor é um dos maiores jogadores de xadrez de todos os tempos: Garry Kasparov.

O texto examina diferenças entre o jogo humano e o jogo computacional do xadrez. O primeiro é intuitivo, não calcula explicitamente todas as possibilidades de cada jogada. O segundo é “lógico”, basea-se na força bruta da máquina, capaz de realizar milhões de cálculos num segundo. A força bruta dos programas computacionais que jogam xadrez utiliza uma imensa base de dados de grandes jogos e uma imensidão de possibilidades de movimentos que o adversário pode fazer durante uma partida. Em 1997, o Deep Blue, um computador da IBM planejado para jogar xadrez contra grandes mestres, derrotou Kasparov. A força bruta da calculeira derrotou a sutileza e criatividade de um grande mestre.

No artigo Kasparov tece diversas considerações sobre xadrez e ciência do conhecimento. Mostra que o jogo é uma invenção humana cujas bases criativas ainda não foram “compreendidas” por nenhum programa computacional. Copio integralmente trecho que aborda isso:

The number of legal chess positions is 1040, the number of different possible games, 10120. Authors have attempted various ways to convey this immensity, usually based on one of the few fields to regularly employ such exponents, astronomy. In his book Chess Metaphors, Diego Rasskin-Gutman points out that a player looking eight moves ahead is already presented with as many possible games as there are stars in the galaxy. Another staple, a variation of which is also used by Rasskin-Gutman, is to say there are more possible chess games than the number of atoms in the universe. All of these comparisons impress upon the casual observer why brute-force computer calculation can’t solve this ancient board game. They are also handy, and I am not above doing this myself, for impressing people with how complicated chess is, if only in a largely irrelevant mathematical way.


Mais à frente Kasparov mostra importância  do jogo de xadrez para fazer inferências sobre nossas capacidades cognitivas. Segue um trecho interessante sobre isso:

Here I agree wholeheartedly, if for different reasons. I am much more interested in using the chess laboratory to illuminate the workings of the human mind, not the artificial mind. As I put it in my 2007 book, How Life Imitates Chess, “Chess is a unique cognitive nexus, a place where art and science come together in the human mind and are then refined and improved by experience.” Coincidentally the section in which that phrase appears is titled “More than a metaphor.” It makes the case for using the decision-making process of chess as a model for understanding and improving our decision-making everywhere else.

Num outro trecho, Kasparov faz uma observação que pode ser muito interessante para a educação. Ele aponta como diversos talentos precisam ser desenvolvidos. Usa o xadrez para ilustrar essa observação. Ressalta a necessidade de dedicação e estudo para bem aprender e obter resultados que valham a pena:

There is little doubt that different people are blessed with different amounts of cognitive gifts such as long-term memory and the visuospatial skills chess players are said to employ. One of the reasons chess is an “unparalleled laboratory” and a “unique nexus” is that it demands high performance from so many of the brain’s functions. Where so many of these investigations fail on a practical level is by not recognizing the importance of the process of learning and playing chess. The ability to work hard for days on end without losing focus is a talent. The ability to keep absorbing new information after many hours of study is a talent. Programming yourself by analyzing your decision-making outcomes and processes can improve results much the way that a smarter chess algorithm will play better than another running on the same computer. We might not be able to change our hardware, but we can definitely upgrade our software.

Uma das observações finais do autor merece muita atenção. Ele afirma que o jogo representativo de nosso tempo é o poker, não o xadrez. Consequências disso para educação, ética, valores, sentido da vida são claras. Melhor seria se nosso tempo escolhesse o xadrez como o “jogo” que vale a pena ser jogado. Para melhor apreciar tal proposta reproduzo o trecho que a discute:

Like so much else in our technology-rich and innovation-poor modern world, chess computing has fallen prey to incrementalism and the demands of the market. Brute-force programs play the best chess, so why bother with anything else? Why waste time and money experimenting with new and innovative ideas when we already know what works? Such thinking should horrify anyone worthy of the name of scientist, but it seems, tragically, to be the norm. Our best minds have gone into financial engineering instead of real engineering, with catastrophic results for both sectors.

Perhaps chess is the wrong game for the times. Poker is now everywhere, as amateurs dream of winning millions and being on television for playing a card game whose complexities can be detailed on a single piece of paper. But while chess is a 100 percent information game—both players are aware of all the data all the time—and therefore directly susceptible to computing power, poker has hidden cards and variable

Avaliação de professores

janeiro 21, 2010

A recente medida de avaliar professores da rede pública paulista é um equívoco em muitos sentidos. O maior deles é o de presumir que bons resultados num teste indicam bom desempenho dos mestres na sala de aula.

A idéia de que testes padronizados podem indicar como anda a educação tem críticos de peso. Um desses críticos é a Professora Deborah Meier. Acompanho as reflexões de Deborah no blog Bridging Diffferences, onde ela dialoga com uma das minhas educadoras favoritas, Diane Ravitch.

Em post recente, Deborah discute as limitaçoes de testes padronizados, muito comuns nos EUA, para avaliar desempenho de alunos. No final do post ela formula três princípios aos quais, jocosamente, dá o nome de Leis de Meier. Traduzi e adaptei essas três Leis para o caso da avaliação de professores no Estado de São Paulo. Vamos a elas.

Para avaliar professores, seguiremos sempre as três Leis de Meier:

  1. Aqueles que exigem que os professores sejam submetidos a testes padronizados devem fazer os mesmos testes e tornar públicas as suas notas.
  2. Antes de criar novas leis para avaliar professores, todos devem entrar em acordo quanto a modos de avaliação já existentes e prometer que não inventarão modas desnecessárias no campo da verificação da capacidade de ensinar dos mestres.
  3. Enquanto isso, sempre que encontrarmos a palavra “desempenho” para caracterizar resultado obtidos em testes por professores, vamos substituí-la por “resultados nos testes”, sem estabelecer qualquer ilação entre nota nos testes e qualidade do trabalho docente.

Habilidades para o século XXI

janeiro 21, 2010

Movimentos de reforma educacional dos últimos tempos utilizam muito conceitos de competência e habilidade. Listam competências e habilidades desejáveis para o futuro. Abominam conteúdo e educação clássica. Definem-se como inovadores. Tem entre seus mais fervorosos advogados gente da área de tecnologia educacional. Apresentam idéias que julgam ter sido inventadas muito recentemente.

Sou um crítico da reforma que tem como bandeira conceitos de competência e habilidade. Vejo o movimento como uma forma ideológica de promover valores neoliberais de modo muito sutil nos meios educacionais. Uma das faces de tal movimento é o entusiasmo desmedido pela tecnologia como algo necessariamente bom.

Não vou examinar mais a fundo a matéria. Fiz apenas uma introdução para justificar divulgação de um pequeno texto de Mike Rose, publicado mês passado no Truthdig. O que segue é uma tradução que fiz. Prováveis erros interpretativos são de minha inteira responsabilidade.

Habilidades do século XXI: Um novo clichê educacional

Mike Rose

Em todas as conversas de hoje sobre reformas educacionais, há uma expressão que se ouve sempre, tanto do presidente da república como do conselho de educação do município. Esta expressão é “Habilidades do século XXI”. Forneçam aos estudantes do século XXI habilidades para uma economia do século XXI. O rótulo é muito poderoso, anunciando uma nova era, próspera e de alta tecnologia.

Mas, assim como muitas outras coisas em reformas educacionais, uma idéia que tem certo mérito pode rapidamente ser reduzida a um clichê. Num documento que li, a expressão habilidades do século XXI é repetida vinte e cinco vezes em menos que duas páginas. E uma vez que entra no mérito da proposta, você percebe que a abordagem das habilidades para o século XXI tem implicações perturbadoras para a educação.

Quais são essas habilidades? Há muitas definições e listas, algumas delas atingindo mais de nove páginas. Faço aqui um resumo da proposta do Southern Regional Education Board. As habilidades do século XXI incluem o uso de um repertório de tecnologias eletrônicas para acessar, sintetizar e aplicar informação; capacidade para pensar critica e criativamente, e avaliar a produção do pensamento; capacidade de se comunicar efetivamente e colaborar com outros, particularmente em ambientes multiculturais e diversos.

A abrangência de habilidades é admirável, assim como é a intenção de que elas se apliquem a todos os alunos – um imperativo de equidade. Mas, o que há de novo nisso? As tais habilidades em nada diferem daquelas desejadas para o século XX, ou para épocas muito mais longínquas.

Você pode encontrar discussões sobre avaliar evidências ou comunicar-se efetivamente em Aristóteles. A exceção é a ênfase nas mídias eletrônicas, mas mesmo aí, as competências subjacentes – avaliar fontes, sintetizar informações – são coisas bem antigas.

Por que as habilidades do século XXI são envolvidas pelo manto poderoso da novidade?

A caracterização dessas habilidades como novas sugere que elas não eram ensinadas anteriormente. E essa caracterização tem como base uma conclusão pouco acurada – bastante popular nos círculos conservadores da reforma – de que as escolas americanas falharam em grande escala. Essa conclusão perigosa nos afasta daquilo que já fazemos bem, e cria uma separação falsa entre uma era educacional e outra. A retórica do novo apresenta uma dicotomia simplista do “velho é ruim/ novo é bom” e alimenta o fetiche da grande coisa que vem a seguir, a descrição do que deve ser uma habilidade do século XXI.

Preocupa-me a filosofia da educação que está por trás da reforma.

Mesmo nas listas mais extensas das habilidades do século XXI, há tópicos que jamais serão encontrados: estética, jogos intelectuais, imaginação, o prazer proporcionado por uma área de conhecimento, admiração. O foco das listas – mesmo quando criatividade é mencionada – está voltado para utilidade e produtividade do mercado de trabalho.

A ironia é que o engajamento com matérias centrais para as reformas baseadas em habilidades – matemática, ciência, tecnologia eletrônica – envolve para muitos jovens entusiastas (para não mencionar especialistas) as mesmas qualidades estéticas e imaginativas [da velha educação]. Porém, a concentração utilitária das listas deixa de fora esses aspectos menos tangíveis, mas, intelectualmente importantes de uma boa educação.

A filosofia educacional das habilidades do século XXI é econômica. A meta principal é formar trabalhadores eficientes e efetivos.

A motivação econômica sempre esteve presente na expansão da educação de massas nos EUA, mas recentemente tornou-se predominante, afastando todas as outras razões –cívicas, sociais, éticas, de desenvolvimento – pelas quais mandamos as crianças para a escola. Mesmo aquelas habilidades do século XXI que se relacionam com o cívico, como o entendimento intercultural, são expressas em termos de efetividade do mercado de trabalho.

Tomemos, por exemplo, estes itens retirados de propostas de um grupo que defende as habilidades do século XXI:

  • Entender, negociar, e avaliar visões e crenças para chegar a soluções adequadas ao trabalho, particularmente em ambientes multiculturais.
  • Alavancar diferenças sociais e culturais para criar novas idéias tanto para a inovação como para a qualidade do trabalho.

Essas habilidades são valiosas, e nós certamente podemos nos beneficiar de seu espírito cooperativo. Mas o foco está muito mais em se conseguir que algo seja feito no trabalho. Há outros fins educacionais e cívicos relacionados com diferentes backgrounds e crenças. Para iniciantes, há práticas e conhecimentos culturais – incluído-se aí a própria noção de cultura – direcionados para a apreciação de nossa humanidade comum [compartilhada]. Não há nada imediatamente “alavancável” em tal entendimento., mas ele tem grande valor cívico e pessoal.

Este é um tempo promissor para a educação. A reforma é prioridade em muitos estados, e o governo federal está a ponto de investir uma quantidade de dinheiro nunca vista em educação. Tudo isso está acontecendo num tempo de grande ansiedade a respeito da economia, por isso foco no mercado de trabalho tem um apelo compreensível. Mas precisamos ser cautelosos para não deixar que a ansiedade apequene a finalidade da educação nos EUA, não importa em que século estejamos.

Inteligência do trabalhador

janeiro 20, 2010

Sempre que posso, divulgo a importante obra de Mike Rose, professor da UCLA. Uma das obras mais bonitas de Mike é um livro que mostra o conhecimento em ação nas situações de trabalho ou de aprendizagem de um ofício. Essa obra foi traduzida para o português: O Saber no Traballho.Vale a pena ler, não só pela importância do conteúdo, mas também pela beleza poética do texto.

Hoje vi que a rede pública de rádio dos Estados Unidos acaba de fazer um programa com Mike, numa prosa agradável sobre sua obra e vida. Para quem arranha o inglês, vale a pena ouvir o citado programa. Ele pode ser encontrado com uma clicada no destaque que segue:

Invasão de privacidade

janeiro 20, 2010

Sou fã de carteirinha do blog De Rerum Natura, um espaço português que fala de ciência com muito conhecimento. Além disso, os autores do blog escrevem bem e bonito. O De Rerum Natura publica informações e comentários sobre rumos da ciência em nosso mundo. É um espaço de prosa séria. Mas, seriedade não implica em sisudez, falta de humor. Muito pelo contrário. Por isso, de vez em quando, aquele blog referência brinca com novidades que rolam pelo mundo.

A observação jocosa mais recente do De Rerum aborda o uso de scanners em aeroportos da Europa. Num dos posts sobre o assunto, aparece a figura [autêntica] que reproduzo logo abaixo.

Taí. Antes de viagens internacionais, toda a nudez será revelada. Deve ter muito tarado se candidatando a scaneador de mulheres nas áreas de segurança dos aeroportos internacionais.

Depois de milhares de anos de história, conquistamos direitos a certa privacidade. Parece que tais direitos estão indo para o brejo. Duas razões principais se articulam para eliminar nosso direito de não ser pertubados, e para ter espaço e vida pessoal invadidos policiescamente: possibilidades tecnológicas e supostas razões de segurança. E isso não rola só em aeroportos. Rola em escolas, em shoppings, em ruas movimentadas, em lojas, em toda parte.

Outro dia li matéria que apresenta como vantagem câmaras distribuídas por toda a parte numa escola de educação infantil. Argumento dos defensores da medida: pais de alunos podem observar seus pimpolhos a todo e qualquer momento via imagens na Internet. Ao ler tal matéria, lembrei-me de observação do grande educador italiano Francesco Tonucci: crianças odeiam ser espionadas por adultos. Em outras palavras, querem um pouco de privacidade.

Fica a pergunta: será que ainda teremos algum espaço de privacidade nos próximos anos?

Celular na sala de aula (1)

janeiro 19, 2010

O uso do celular invadiu a maior parte do espaço público. Ou, dito de outra forma, o uso do celular eliminou quase todos os espaços públicos em nome da liberdade individual da comunicação contínua. Antigas práticas de convívio perderam importância e devem ceder espaço para interesses individuais sempre que um sinal de celular convocar seu propietário para se comunicar com alguém que está chamando. Não importa o assunto, os chamados sempre são atendidos.

A cultura do celular nos termos apontados no parágrafo anterior incomoda muita gente. Incomoda por exemplo o ator Antônio Fagundes que promete suspender espetáculo de teatro se alguém da platéia esquecer o aparelhinho ligado. No teatro também, gente que veio ver um drama sente-se incomodada com a quantidade enorme  de luzinhas de aparelhos que estão fotografando ou filmando trechos da peça, em gravações sem qualquer valor artístico ou documental. Incomoda passageiros de um elevador abarrotado quando um jovem (de qualquer idade) garganteia a ‘ficada’ de ontem, via telefone móvel, em conversas sem pudor e cheias de detalhes íntimos.  E por aí vai. Como não costumo frequentar igrejas, não sei se os fiéis têm o cuidado de desligar celulares durante as missas. Meu palpite é o de que há muitos crentes usando o celular durante celebrações litúrgicas.

Tempos atrás, num evento de tecnologia educacional fiquei incomodado com um educadora que viera de longe, numa viagem paga com dinheiro público, e durante uma palestra muito interessante passou o tempo todo concentrada  num joguinho no celular. Fiquei me perguntando porque ela não ficara no seu local de trabalho onde poderia jogar no conforto do escritório sem pertubar gente que estava querendo dialogar com um grande especialista em TV e educação. Só tenho uma palavra para isso: desrespeito.

Vez ou outra, soa em minha aula algum celular. Na maior parte dos casos, o dono do aparelhinho pede desculpas. Alguma vezes, porém, o assinante do telefone móvel atende ao chamado em voz baixa ou pede para se retirar e falar com mais liberdade com quem o chamou. Tenho certeza que a maior parte de tais chamados não tem qualquer importância, não é caso de vida ou morte, não exige decisão imediata. E antes que alguém diga que isso ocorre porque minhas aulas são chatas, devo dizer que esta não costuma ser a opinião dos alunos, inclusive daqueles que não conseguem desligar seus celulares. Outra coisa: devo deixar registrado que já planejei e executei atividades de sala de aula que incluíam uso de celulares.

Muitas das minhas aulas acontecem em laboratórios de informática. Não gosto deles (dos laboratórios de informática) por razões de arquitetura escolar. Gosto menos ainda da disposição das máquinas em bancadas que repetem o arranjo tradicional de carteiras em salas de aula. Mas é o que tenho na universidade. Tento me adaptar e utilizar os tais laboratórios da melhor maneira possível. No geral, meus alunos trabalham no laboratório em projetos próprios e não reproduzem algo que coloco no quadro branco. Mas, muito eventualmente, sinto que devo fornecer oralmente uma rápida explicação para a turma toda. Numa dessas raras ocasiões, enquanto eu explicava algo de interesse comum, um aluno na primeira bancada, a um metro e meio de onde eu estava, falou o tempo todo em seu celular. Não devia ser algo muito importante e considerei aquilo uma ofensa pessoal. O dono do celular era um adulto, professor e pastor de uma igreja evangélica. Ele simplesmente me desconsiderou e apartou-se da turma sem abandonar fisicamente o local. Atender a uma chamada via celular era muito mais importante que participar de uma conversa comunal sobre assunto de interesse de toda a classe. E não venha alguém me dizer que eu poderia utilizar o maravilhoso celular para conversar com meus trinta alunos que estavam ali no laboratório. De vez em quando comunicações orais, cara a cara, olho no olho, são a forma mais efetiva de passar informação ou debater ponto de interesse comum.

O que está acontecendo? Acredito que o padrão de uso dos celulares, estabelecido ou apoiado pelos fabricantes via sugestão (cf. propagandas das operadoras) de supostas necessidades de comunicação, converteu-se em verdade. No discurso de muita gente, o uso indiscriminado do telefone móvel é visto como um traço cultural definitivo, um sinal de progresso, uma mudança que precisa ser aceita. Já que a tecnologia permite comunicação contínua, não há mais escapatória, quem tem celular precisa estar ligado o tempo todo. [Sobre este tipo de dependência, reforçado por ações das operadoras em propaganda e em “pesquisas” sobre usos do aparelhinhos, ver um post antigo que publiquei neste Boteco sobre  o novo sentido da palavra periférico]. E tal constatação é complementada por uma conclusão de teor político: o uso do celular sem restrições é sinal de liberdade.

Comecei este post com a intenção de examinar a questão de restrições ao uso do celular em sala de aula, caracterizada por alguns tecnófilos como censura. Mas, me estendi demais no registro de algumas situações. O texto está muito longo. Por isso paro por aqui sem concuir. Voltarei ao assunto brevemente. Aguardem partes 2, 3 e talvez 4 desta minha arenga.

Microcontos

janeiro 17, 2010

Houve uma época em que fui curador de uma publicação eletrônica sobre microcontos. A meta era escrever mil microcontos. Os autores convocados trabalharam muito mais rápido que o esperado. Em pouco tempo alcançamos a meta. Toda essa produção pode ser vista em:

Relembro minha aventura microliterária porque acabo de encontrar referência a ela numa revista eletrônica sobre a matéria. Vocês podem ver tal referência em:

Microcontos são um formato interessante para desenvolver escrita e para construir projetos pedagógicos com usos da Internet. Uma dica: os microcontos são textos que cabem no pequeno espaço da tela de um celular.

Barato e Baratto

janeiro 16, 2010

Barato (Baratto), meu sobrenome italiano, dizem, significa gente comum. Nos velhos tempos, quando sobrenome ainda não era algo oficial, as pessoas agregavam a seus nomes local de origem (Di Sena)  0u profissão (Ferrero). Mas servos de gleba nada tinham para mencionar. Eram gente comum. Por isso, alguns deles, em momento de necessidade chamaram-se ou foram chamados de Baratto. Essa explicação pode não ser verdadeira, mas é bem interessante e tem razão de ser pelo menos num caso: meu bisavô que imigrou para o Brasil era um pobre camponês, gente comum, Baratto. E os filhos dele, entre os quais meu vô Luis, ficaram ainda mais comuns, perderam um T no sobrenome, ficaram Baratos.

De vez em quando busco na Internet pistas de Baratos ou Barattos pelo mundo. Há alguns. Não tanto quanto a gente poderia esperar para pessoas que são apenas “gente comum”. Há Barattos na Argentina, nos Estados Unidos, na Itália, no Brasil. É bom deixar claro que não há uma família Barato ou Baratto. O sobrenome não surgiu por causa de origem geográfica ou de vinculação dos velhos nonos a uma profissão. Foi no início apenas um rótulo de conveniência para quem nada tinha que pudesse usar como nome complementar. Vários Barattos que vieram para o Brasil tinham em comum apenas a origem camponesa.

Meu bisavô era vêneto. E parace que no Veneto há um número razoável de Barattos. Um dia encontrei na Internet um deles. Era professor da Universidade de Milão. Mas, de todos os Barattos, destaco a Paola, romancista cuja foto decora este post. Infelizmente não consigo ler o que ela escreve. Minha herança genética italiana (1/4) não realizou o milagre da transmissão automática do belo idioma de Dante.

Mano Meneses na Academia

janeiro 16, 2010

Hoje de manhã, ouvi na CBN entrevista do Mano Meneses, técnico do Corinthians. Perguntado sobre favoritismo de sua equipe no campeonato paulista deste ano, o “professor” deu a seguinte resposta:

  • É uma questão teórica, de análise subjetiva.

Você não entendeu? Nem eu. Desconfio que o treinador do meu time está escrevendo tese de doutorado. A linguagem que ele utilizou é típica dos escritos acadêmicos que usam frases obscuras para aparentarem erudição e saber científico. Já escrevi sobre isso neste Boteco Escola:

Solicito à assessoria do Mano enviar-me cópia da tese assim que a mesma for defendida e aprovada. Preciso de mais exemplos da tal linguagem científica. Para quem sabe ler, ela costuma ser muito engraçada.

Novas tecnologias: papel de alunos e professores

janeiro 16, 2010

No final dos anos 90 fiz uma das palestras na Jornada Catarinense de Tecnologia Educacional. Não houve tempo suficiente para comentar todas as perguntas enviadas à mesa.  Me comprometi a preparar respostas para todas as questões pendentes. Ainda tenho os registros das respostas que encaminhei aos perguntadores via e-mail. Hoje reli alguns desses textos.

Numa das respostas conversei com a professora que me fez uma pergunta sobre uso de novas tecnologias e insistência em considerar os alunos como atores principais das tramas de ensinar e aprender. Reproduzo aqui a pergunta da e a resposta que enviei à interessada.

MENSAGEM PARA LAIR: PROFESSORA EM CURSOS DE PEDAGOGIA

Compareço aqui para tentar responder pergunta que você me endereçou por ocasião da Jornada Catarinense de Tecnologia Educacional. A questão era a seguinte:

  • Endeusamento do aluno x saber do professor: o que exatamente significa isto em Tecnologia Educacional?

Não sei se consigo dar-lhe uma resposta exata. No campo de usos de novos recursos eletrônicos em educação, tornou-se lugar comum mostrar como os jovens usam as maquinetas com naturalidade e, ao mesmo tempo, como os adultos enfrentam grandes dificuldades para incorporar o uso das novidades em suas vidas cotidianas. Nessa trilha, é também um lugar comum mostrar que professores não sabem lidar com computadores, enquanto os alunos utilizam as maquinetas sem qualquer sobressalto, medo ou dificuldade. Muitos veem aqui uma oportunidade para que aprendizes se tornem mestres de seus professores. Tudo isso é, a meu ver, uma simplificação, além de esconder sem muitos disfarces uma vontade de ridicularizar os pobres mestres.

Saber ou não particularidades sobre DOS, Windows e outros sistemas operacionais, ter habilidade para manejar joysticks, mouses e teclados em jogos eletrônicos, assim como outras proezas características da infância e juventude deste final de século, não é um conhecimento significativo. Não é conhecimento de informática, nem é conhecimento de como fazer uso consequente dos novos meios eletrônicos em nossas vidas. É apenas uma qualificação necessária para ser um usuário e consumidor na sociade do espetáculo. Não tenho nada contra a tal sociedade. Aliás adoro um joguinho. E até acho que a jogatina pode ser um bom modo de iniciação em usos de computadores. Mas a questão, repito, é a dos conhecimentos significativos. Um bom manejador de comandos de um sistema operacional não é, por conseqüência, alguém capaz de comunicar-se com eficiência, beleza e elegância em nossa língua nativa. Aprender português pode ocorrer em parte via computadores. É possível pensar em estratégias de uso do Word que ajudariam as pessoas a melhorarem suas capacidades de botar idéias no papel de modo claro, correto, bonito e elegante. Mas o domínio do vernáculo não é um função de tecnologias… Possivelmente, melhores desempenhos na língua de Camões e Machado de Assis dependem muito de bons professores de português (informatizados ou não). Muita gente que escreve melhor que a média das pessoas escolarizadas reconhece que seus desempenhos muito devem a um bom professor (ou professora). Raciocínios semelhantes podem ser construídos para descrever histórias de aprendizagem em todas as disciplinas que fazem parte dos currículos escolares.

O educador e criador de softwares educacionais, Tom Snyder, levanta essa lebre do endeusamento do aluno (uma expressão, diga-se de passagem, que não utilizei na minha fala; na verdade, ela está é na sua pergunta). Snyder observa que a mania de elogiar as qualidades dos estudantes no uso da maquineta, com o contraponto da ignorância e sem-jeitismo dos professores, retrata a transferência simplificada do escolanovismo para o campo de usos de novos recursos informacionais. O escolanovismo simplificado converteu-se numa ideologia que os próprios professores aceitam com resignação. Ele reserva para os professores um espaço extremamente limitado no palco da educação. Os únicos atores aceitos são os alunos. Espera-se que professores comportem-se como  serviçais de camarins cuidando do conforto das estrelas… É claro que exagero nas tintas, mas a desvalorização do papel do professor também vai por ai. É claro também que não defendo a idéia de professores-sargentos. Mas, de todos os modos, é preciso reconhecer que o professor deve ir ao palco e contracenar com os alunos. Em algumas ocasiões pode inclusive ter papéis relevantes e falas mais acentuadas.

Se tivesse mais tempo, meus argumentos iriam na senda da tal apropriação do escolanovismo pelos vendedores das novidades elétrico-eletrônicas. Mas acho que você mesma pode desenvolver tal linha de raciocínio. Boa sorte.