Archive for 26 de janeiro de 2010

Em defesa da escola pública

janeiro 26, 2010

Países desenvolvidos tem uma rede pública de escolas de boa qualidade. Mas, mesmo neles, ideólogos do neoliberalismo (sic!) costumam puxar sardinha para empreendimentos privatistas. No caso americano, apesar da alma do país ter sido construída a partir de escolas públicas planejadas e administradas localmente, sempre há muita crítica ao sistema educacional mantido pelo estado. Por isso, muitas vozes que defendem uma educação pública e de qualidade para todos buscam mostrar caminhos capazes de manter a responsabilidade social do estado no campo educacional.

O tema da responsabilidade social do estado em matéria educacional é uma das mensagens do mais recente livro de Mike Rose, Why School? reclaiming education for all of us. Há tempos anunciei que estava escrevendo uma resenha sobre essa obra. Escrevi.  O texto está disponível online. Se você quiser vê-lo, basta clicar no destaque que segue:

Computadores e Relógios

janeiro 26, 2010

Hoje na minha casa somos apenas dois, eu e minha mulher. Adivinhem quantos relógios podem ser encontrados em nossa residência? Fiz uma conta rápida e cheguei a 25. Devo ter errado. Há muitos mais relógios aqui em casa. Há relógios nos três computadores. Há relógios nas duas tevês. Há relógios nos aparelhinhos da TV a cabo. Há relógio no microondas. Além disso, temos três despertadores e um velho rádio-relógio. Ah! há relógio no celular. Acho que temos um dezena de relógios de pulso. Quase que me esquecia do relógio de parede. Outros quase esquecidos: o relógio do aparelho de DVD, o relógio do aparelho de som. Deve ter mais, mas paro por aqui.

Antes de seguir em frente, faço um convite: verifique quantos relógios você tem em sua casa.

O relógio é a máquina mais revolucionária até hoje inventada. Os fundadores da ciência contemporânea achavam que o universo é um relógio. O defensor mais conhecido desta metáfora é René Descartes. O relógio mudou modos de pensar sobre a vida. Invadiu o cotidiano das pessoas. Tornou-se tão ubiquo que às vezes não nos damos conta de sua presença. Tornou-se tão “natural” que deixamos de perceber as mudanças fundamentais causadas  por uma medição padronizada e abstrata do tempo. Lewis Mumford, em Technics and Civilization analisa de modo magnifico como o relógio ingressou na história humana, transformando completamente os ritmos vitais.

Ao examinar a história do relógio, Mumford observa que o interesse inicial de medir o tempo com precisão nasceu nos mosteriros medievais. Os monges, diversas vezes ao dia, dirigiam-se ao coro para rezar as horas canônicas. Sem uma máquina que mostrasse com exatidão os momentos do dia em que os religiosos deviam louvar a Deus, o cumprimento da obrigação dependia de observação da natureza. Mas variações das estações e do clima fazem com que a determinação do tempo a partir de observações da natureza seja muito imprecisa. Por isso, os primeiros relógios parecidos com os nossos foram desenvolvidos em mosteiros beneditinos. E dos mosteriros, os relógios foram para as torres de igrejas e prédios públicos da cidade. Dali começaram a reger os ritmos da vida nos centros urbanos.

Ao ler Technics and Civilization marquei alguns trechos que dão uma idéia do impacto causado pelo relógio na vida dos cidadãos. Compartilho com o leitor algumas dessas minhas anotações de leitura:

  • Os sinos do relógio da torre quase definiu a existência urbana. A preocupação em marcar o tempo foi substituída por servir, contar e racionar o tempo. Quando isso aconteceu, a Eternidade deixou gradualmente de servir de medida e foco das ações humanas.
  • Tornar-se “tão confiável como um relógio” era o ideal burguês, e possuir um relógio era um símbolo definitivo de sucesso.
  • O relógio, não a máquina a vapor, é a máquina-chave da moderna era industrial.
  • O relógio, além disso, é uma peça do poder da máquina cujos produtos são segundos e minutos. Por sua natureza essencial, ele dissociou o tempo dos eventos humanos e ajudou a criar a crença num mundo independente  de sequências matematicamente mensuráveis, o mundo especial das ciências.

Procurei não fazer longas citações. Recolhi apenas algumas frases que podem dar uma idéia do impacto causado pela adoção de um tempo mecânico e abstrato no nosso mundo. Nos sete séculos que se seguiram à instalação de aparatos mecânicos de controle de tempo para  reger a vida do seres humanos, o relógio foi se incorporando a todas as atividades, começando pelo trabalho [o relógio do ponto é a perfeita epítome disso!] até as dimensões mais íntimas da vida. Está pois explicado por que há tantos relógios na minha e na sua residência.

No momento vivemos a invasão de uma nova máquina: o computador. Ainda pensamos nele como uma máquina independente, com CPU, tela e outros periféricos, equivalente ao relógio de pulso ou de parede. Mas o que rola e vai rolar de modo mais significativo é a inclusão de computadores em diversos equipamentos que usamos no cotidiano: carros, geladeiras, tevês, fogões, máquinas de lavar e secar, etc. Essa computadorização da vida causará mudanças que não sabemos avaliar muito bem nos dias de hoje. Em análises superficiais sobre avanços tecnológicos aprendemos que isso é uma grande vantagem. As maravilhas sobre o computador capaz de controlar e ordenar uso de máquinas e equipamentos não cessam de ser cantadas. Isso aconteceu com o relógio. As perdas foram ignoradas. O controle aumentou. O tempo natural (vital, em termos bergsonianos) deixou de determinar aspectos importantes do viver. Não sabemos ainda que perdas acontecerão com a progressiva computadorização de todos os instrumentos que utilizamos.

Alguém deve estar perguntando o que faz este post aqui. O Boteco Escola é um espaço para conversas sobre blogs e, mais extensivamente, sobre tecnologia da informação e comunicação. Ubiquidade de relógios e computadores aparentemente não é tema de conversa que possa ser de interesse de educadores comprometidos com tecnologia educacional. É claro que discordo de quem assim pensa. A presença cada vez maior dos computadores em nosso mundo é um tema de muito interesse para a educação. Para começar, ter consciência da ubiquidade dos computadores é assunto que precisa merecer destaque nas conversas dos educadores. Há mais. Porém, acho que o leitor poderá elencar outras razões. Se você tem alguma que julga importante, entre no papo registre suas idéias em comentário a este post.

Ao escrever este post, fiz pequena incursão por sites sobre monges e mosteiros. Numa certa altura, lembrei-me que em dias festivos as horas canônicas eram cantadas em gregoriano. Fui até o Youtube e escolhi uma versão muito bonita de Dies Irae. Escutei-a algumas vezes enquanto digitava toda essa arenga. Para sua admiração, incrustrei aqui o VT com Dies Irae. Boa audição.