Archive for 25 de janeiro de 2010

Computadores são argila

janeiro 25, 2010

No mesmo artigo que citei no post passado, Alan Kay propõe outra metáfora criadora:

  • COMPUTADORES SÃO ARGILA.

Mostro a seguir os trechos que desenvolvem tal metáfora naquele mesmo artigo publicado na Scientific American em 1995.

Quando a conveniência supera a qualidade em educação, mergulhamos diretamente na aprendizagem  “sucateada”. Essa situação é análoga a outros fenômenos de sucateamento, onde imitações baratas substituem as coisas de valor. Aprendizagem sucateada leva a uma vida também sucateada. Como diz Neil M. Postman, da Universidade de Nova Iorque, não é importante se um meio propaga sucatas, uma vez que todos os meios tem um potencial sucateador. Precisamos, porém, ter segurança de que meios incapazes de propagar importantes tipos de discurso – a televisão, por exemplo – sejam impedidos de desalojar os que podem.

Os meios também podem nos fazer pensar que estamos criando de modo planejado, quando na verdade estamos apenas improvisando. Considere a dificuldade de transformar a argila – uma substância perfeitamente maleável e responsiva – em qualquer coisa esteticamente satisfatória. A perfeita plasticidade e maleabilidade não substitui a ausência de imagens internas e de habilidades de dar forma à argila. Infelizmente os computadores possuem as virtudes da argila; eles tentam os usuários a construir, por meio de tentativa e erros, valendo-se apenas da plasticidade e maleabilidade da máquina.

Para um estudo de metáforas criativas, um livrro indispensável é Metaphors We Live By, de Lakoff e Johnson.

O computador é um piano

janeiro 25, 2010

Na minha tribo tuiteira, Sônia Bertocchi deu um RT para o seguinte pio de @ptdrumm:

  • A música não está no piano

Por causa de limites de espaço no Twitter ou de falta de informação,  ficou a impressão de que a métafora o “computador é um piano” é uma invenção do tuiteiro que a divulgou. Entrei na conversa para lembrar que essa metáfora muito criativa foi proposta [até onde sei] por Alan Kay , importante cientista no campo das ciências da computação. Kay, além ser uma bamba em informática, é biólogo e músico amador.

Um belo artigo de Alan Kay, abordando questões de educação e tecnologia foi publicado nos anos noventa em número especial da Scientific American. Aponto a referência completa para prováveis interessados:

  • Alan Kay (1995). Computers, Networks and Education, Scientific American, 1995, special issue: The Computer in the 21st Century. P. 148-155.

No citado artigo, o autor apresenta a metáfora do computador como piano da seguinta forma:

Sempre houve confusão entre embalagens e conteúdos. Os pianistas sabem que a música não está no piano. Ela começa dentro dos seres humanos como impulsos especiais para comunicar sentimentos. Mas muitas crianças são forçadas a “aprender piano” antes de desenvolverem impulsos musicais; por essa razão, abandonam a música pelo resto da vida. O piano, quando muito, pode apenas amplificar sentimentos, articulando múltiplas notas em harmonias e polifonias que a voz humana é incapaz de produzir.

O computador é o maior “piano” já inventado, pois ele pode embalar qualquer tipo de representação. Hoje há uma pressa para que as pessoas, particularmente as crianças em idade escolar, “aprendam computação”. Os computadores podem amplificar desejos de um modo mais profundo que os instrumentos musicais. Mas se os professores não alimentarem o romance da aprendizagem e da auto-expressão, qualquer proposta de uma nova “alfabetização” (alfabetização em informática) será um peso mais esmagador do que ser forçado a tocar uma sonata de Beethoven sem sentir a sua beleza. O acesso instantâneo às informações numa escala universal provavelmente terá um efeito oposto ao esperado: os estudantes ficarão paralisados em vez de iluminados.

Além da noção de que a mera presença dos computadores irá melhorar o aprender,  muitos outros enganos sobre a aprendizagem  ainda retardam a educação moderna. Idéias mais adequadas precisam substituir esse enganos para que qualquer recurso, seja ele um computador ou papel-e-lápis, torne-se efetivo. Um desses enganos pode ser chamado de teoria “fluídica” da educação: os estudantes são vistos como depósitos aos quais o conhecimento deve ser doado, gota a gota, desde o depósito cheio chamado professor. Uma idéia parecida é a de que a educação é como uma pílula amarga que, para ser palatável, precisa ser envolvida por uma camada de açúcar – uma visão, aliás, que ignora o profundo prazer proporcionado pelo próprio aprender.

Com este post espero ter contribuído para que gentes da minha tribo tuiteira, assim como visitantes deste Boteco Escola,  tenham uma informação mais completa sobre a origem da bela metáfora “o computador é um piano”.

Aproveito a ocasião para apontar algumas informações sobre KAY: