Celular na sala de aula (2)

No primeiro post desta série procurei mostrar que a pseudo-necessidade de manter-se continuamente enredado via celular é hábito que provoca muito desconforto em eventos públicos (aulas, teatros, missas etc.). Fiz uma introdução para chamar a atenção para situações bem conhecidas. Neste post quero abordar algo mais “acadêmico”, a questão do imperialismo da engenharia sobre a cultura.

Em A FLOW OF MONSTERS: Luddism and Virtual Technologies, capítulo de Resisting the VIRTUAL LIFE: The Culture and Politics of Information, Iain Boal conta uma história intrigante. Um grupo de manifestantes organizou um ato público na Sproul Plaza no campus da Universidade de Berkeley. Os ativistas alinharam no local diversas tevês já sem uso. Providenciaram martelos e pequenas marretas para que os passantes pudessem arrebentar as velhas televisões. O ato tinha um apelo simbólico. Era um happening que lembrava ações de luddistas arrebentando teares mecânicos que iriam acabar com seus ofícios de tecelões. A manifestação não durou muito. A polícia chegou e prendeu todos os organizadores do ato público.

Cabe observar que as TV’s levadas para a praça pública eram propriedade dos manifestantes. Eles não estavam destruindo bens alheios. Qual então o motivo da prisão? Para os homens da lei eles estavam praticando um ato anti-social. Boal explica que a atuação da polícia foi orientada por uma crença de que as novas tecnologias não podem ser atacadas. Além disso, pessoas que atacam de modo radical as novas tecnologias são consideradas gente perigosa.

O evento acontecido em Berkeley é esclarecedor. Tenho certeza de que um grupo de manifestantes oferecendo a passantes livros velhos para alimentar um fogueira não teriam sido incomodados. O que rola no caso é uma sacralização do novo que deve ser cultuado, que deve ocupar local de honra. No auge da história televisão, em lares pobres, os caixotões de madeira que acomodavam o aparelhos, feios e pesados, ocupavam o melhor lugar da salinha simples de lares acanhados. Geralmente os aparelhos descassavam sobre a melhor toalha de mesa da família.

Simples existência de artefatos tecnológicos cria obrigaçoes de uso, mudando ou até mesmo extinguindo velhos hábitos. Continuo a exemplificar isso com o caso da TV. Uma vez que os aparelhos de televisão ingressaram nas casas pobres ou ricas, ver TV tornou-se mais importante que conversar. Mesmo quando chegava uma visita o aparelho não era desligado. O visitante passava a ser mais um telespectador. Quando muito havia fiapos de conversa em intervalos comerciais. Levantamentos recentes sobre hábitos de ver tevê constataram que é muito frequente encontrar aparelhos ligados em locais onde não há ninguém.

Os comentários que fiz para a TV valem para outros aparatos tecnológicos. Valem para o celular. Estar sempre disponível para uma chamada, a qualquer hora e em qualquer lugar, converteu-se numa obrigação. A possibilidade converteu-se em dever. Em levantamentos informais, usuários de celular revelam que não suportam a idéia de ter o aparelhinho desativado por uma hora. A possibilidade do contato permanente virou obsessiva obrigação.

A possibilidade de contato contínuo numa rede de celulares tem aspectos positivos. Mas, ao mesmo tempo cria obrigações que podem pertubar determinadas atividades. Uma dessas atividades é o do estudo, tanto no nível individual como grupal, que exige grandes doses de concentração. Leitura de um texto filosófico, por exemplo, não pode ser feita em pequenas unidades com contínuas interrupções. Filosofia exige mergulhos reflexivos totalizantes. Não se aprende filosofia com ingestão de pequenas quantidades de sabedoria em curtos intervalos de tempo. O mesmo vale para outras ciências nas quais o texto é o instrumento central. Vale também para estudos de cálculos avançados. Vale para aprendizagem procedimentos como os de solda ou de cirurgia. Restrições a uso de celular nesses casos é uma necessidade.

Em discussões sobre uso de celulares nas salas de aula muita gente fala em bom senso e auto-controle. Sugere que, em vez de proibir ou restringir o uso, deve-se educar os usuários. Esta é uma sugestão bem intencionada, mas ela ignora a natureza da mídia. Vontade e iniciativa pessoal não é solução no caso. Em algumas atividades é preciso ter norma determinando que o aparelhinho seja desligado. Se confiarmos no bom senso do usuário é certo que a medida não irá funcionar. Vou examinar este ponto na terceira parte desta série de posts sobre celular na sala de aula.

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9 Respostas to “Celular na sala de aula (2)”

  1. Silvana Nunes Says:

    Excelente texto. Obrigada por dividi-lo com a gente.
    Que os bons ventos soprem a favor da educação neste ano de 2010.
    FOI DESSE JEITO QUE EU OUVI DIZER… aproveita a visita para desejar um bom final de semana.
    Saudações Florestais !

  2. cremilda Says:

    14/02/2010 – 12:47
    JUSTIÇA É O DIREITO DO MAIS FORTE ????
    Escola pública é situação de risco para alunos. Escola onde se omite socorro a aluno que sofre acidente. Alunos sendo agredidos,perseguidos e humilhados, sofrendo tortura psicológica e física. Desde que o Governador Geraldo Alckimin criou a Ronda Escolar, os pais perderam o sossego…A Ronda Escolar está a serviço da direção da escola onde aluno é considerado culpado sempre, sem ter a quem recorrer.
    O Celular se tornou um instrumento que deixava os pais minimamente seguros. Qualquer violência o aluno podia recorrer aos pais pedindo socorro. Podia gravar e fotografar agressão que ele ou seu colega sofressem.
    As professoras então não queriam mais o celular, nada que pudesse registrar os abusos da escola.
    Pediram ao Deputado Orlando Morando SP,que criasse uma lei proibindo o celular. O deputado mesmo declarou várias vêzes que essa lei foi criada para atender as professoras. Os outros deputados aprovaram essa lei e o Governador Serra, frouxo não teve coragem de vetar.
    Esta semana em Fernadópolis SP, a familia de uma aluna que atendeu duas ligações no celular na sala de aula, foi condenada a pagar uma multa .Como a família não pode pagar a multa, os jornais noticiam que terá seus bens penhorados.
    Penhorar bem em casa de pobre, é para levar algum eletrodoméstico ou algum carrinho tipo “pois é”.
    E ordem judicial não se discute se cumpre.
    Espero que o pais de alunos de escola pública se lembrem na hora de votar.
    Lembrem das leis absurdas criadas pelos nossos deputados para prejudicar pais e alunos.
    Na escola pública JUSTIÇA É O DIREITO DO MAIS FORTE.
    Como aluno é o elo mais frágil dessa corrente, ele sempre paga a conta e é sempre punido nos rigores da lei….

    • jarbas Says:

      Aos amigos dester Boteco,

      Aprovei o comentário deste senhora. Mas, aposto que ela não leu meu post. O negócio dela ´usar pais de alunos da rede pública para se promover. E mais: ela é inimiga declarada dos professores. Não os ouve. Sempre os vê como culpados.

  3. cremilda Says:

    Negativo….
    Agradeço ter liberado o meu comentário, mas acho que você deve ser um professor que nao precisa ter nenhuma preocupação .
    Eu sou inimiga do mau professor. Do professor corrupto
    Acho que professor é a profissão mais importante do planeta. Nâo poderia ser exercida por qualquer um
    Temos maus professores e precisamos de educadores.
    Nâo basta ser professor, tem que ser educador….
    Professor é profissão, educador vocaçao
    Escola forma professor, educador já nascer feito .
    Professor é a única corporaçao que devende os maus colegas.
    Protegendo sempre os maus, estaremos desprotegendo os bons…
    Luto por uma escola laica e de boa qualidade.
    Só teremos escola decente se nos livrarmos da corrupção e da impunidade na escola pública…

  4. Carlos Silveira Says:

    É lastimavel ver comentários como esse, onde uma pessoa que obviamente desconhece a rede de ensino público do estado de São Paulo, vem com argumentos furados onde celular ser uma arma de defesa dos estudantes contra professores e a escola.
    O celular na escola é usado para se mostrar na maioria dos casos, e caso essa besteira de celular para gravar e tirar fotos para se defender fosse verdade os alunos poderiam desligar somente a função de celular e manter a de gravador e máquina fotográfica funcionando, mas logo percebe-se que a falta de informação desta senhara vai além do ensino publico brasileiro, também é mal informada sobre o funcionamento de aparelhos eletrônicos.
    Penso eu, onde ela mora? no Brasil?
    Se for, não é no mesmo Brasil que eu.
    Eu gostaria de ver essa senhora dando uma aula de matemática, e um celular tocar interropendo seu raciocínio, e isso se repetir por várias vezes. Acho que comentário seria outro.
    E também a obrigação de educar é e sempre será dos pais, um professor tem a obrigação de ensinar e informar, e no máximo complementar a educação que os pais passam para esses alunos.
    Infelismente o pensamento de que o professor tem que educar totalmente o aluno reflete um pensamento onde os pais acham que a escola é analoga a um microondas, onde você coloca seu filho lá aperta um botão 12 anos e estará pronto.
    Para terminar deixo uma dica para essa senhora:
    Não faça comentários de assuntos dos quais desconhece TOTALMENTE para não perder tempo, não fazer outras pessoas perderem tempo com esses argumentos, não fazer papel de desinformada e intrometida.

  5. Natália Says:

    O uso do celular em sala de aula é algo de muitos benéficio desde que quem o manusei tenha consciência e se ele ficar em modo silêncioso!
    Se os professores e Diretores das escolas podem porque não os alunos?

  6. Lila Says:

    Penso que em um Estado Democrático de Direito, todas as opiniões devem ser permitidas e respeitadas, como a da professora Cremilda, pois caso contrário será um blog em que só se admite opiniões favoráveis. Ás ofensas a quem não compartilha com as mesmas ideias também devem ser evitadas, ainda mais por se tratar de professores interagindo, que devem demonstrar profundo respeito pelo ser humano.
    Cada um expressa-se de acordo com suas observações, percepções, experiências de vida, …
    Agora, quanto ao tema, entendo que não podemos endeusar as tecnologias e nem diabilizá-las. Hoje faz parte das relações.
    Na escola, é também desagradável quando nas reuniões pedagógicas e mesmo em sala de aula, os professores atendem ou ficam mandando mensagem pelo celular.
    É um absurdo recorrer à lei para impedir um ato que depende muito mais da autoridade dos que educam.
    É preciso sim, um trabalho de educação para o uso consciente dessa tecnologia. E, começa com pais e professores. Pois hoje, o uso dessa tecnologia tornou-se algo necessário no coditiano dos adultos, e também das crianças e adolescentes, que também são pessoas de direito e de deveres, portanto, cidadãs.
    É necessário passar por esse processo de educação, assim como em outros tempo havia necessidade de ensinar as pessoas a usarem talheres e comerem com educação, a não urinar em lugares públicos,
    A Cremilda cita o caso dos pais punidos por terem ligado 2 vezes para a filha. Mas, é inconcebível que os próprios pais façam isso, sabendo que se o aluno está em sala, o mesmo não poderia ou deveria acessar ao celular (as escolas despõe de telefone para comunicação dos pais). O mau exemplo começa com os pais.
    Agora, pensando concretamente, crimilizar todos os comportamentos, é banalizar a justiça deste país, que deveria se ocupar com questões mais relevantes. Pois se formos levar essas situações para o Judiciário, teremos muitas outras dentro da escola que também precisam. Se for assim, então, precisaríamos de um Juizado instalado em cada escola para dirimir todos os conflitos ali existentes.
    Espero não ser hostilizada por emitir minhas consideraçõs sobre o tema.

  7. jarbas Says:

    Prezada Lila,

    Não costumo censurar nenhum comentário. Só não publico textos que contenham palavrões ou ofensas pessoais. Todos são benvindos neste Boteco. Por outro lado, não deixo de manifestar opinião contrária a crenças ou atitudes que não considero corretas. E posso ser duro nisso. Foi o que fiz em resposta ao primeiro comentário da Cremilda, pois ela desconsiderou inteiramente o que eu escrevi no post e introduziu uma conversa que me irrita, a conversa de gente que costuma colocar todas as culpas pelos males da educação nas amplas costas dos professores.

    Como vê,seu texto aqui está. Na íntegra. Não sei se alguém vai discordar do que você escreveu. Se isso ocorrer e os termos do comentário não forem ofensivos, não vou censurar. Caberá a você, se achar conveniente, responder comentários de quem não compartilha suas convicções. Isso não é hostilidade. é debate livre.

    Obrigado por sua visita a este Boteco. Abraço democrático,

    Jarbas

  8. Maria José Matos Says:

    Vou aqui falar de uma experiência própria: sou professora de Inglês e, tenho trabalhado como substituta em várias escolas, por vários anos. Em 2011, de agosto a dezembro, lecionei em uma escola estadual, onde o celular é proibido na sala de aula. Porém, ninguém atende a essa solicitação. A Diretora dizia: “pode tomar do aluno, se ele estiver usando o celular”. E eu, ingênua, fui tentar fazer isso várias vezes, e, numa delas, o aluno puxou com força para o seu lado e o meu braço ganhou uma tendinite aguda que eu não conseguia levantá-lo para escrever no quadro. Sofri muito, mas não fiz boletim para não prejudicar o aluno. Criei um projeto na escola sobre a proibição do celular. Todos participaram, aproximadamente 10 classes. No momento, parece que foi aceito, mas, depois, tenho certeza que tudo iria continuar como era antes: os alunos não respeitam as normas da escola e abusam mesmo dos professores, deturpando a aula preparada pelo professor com tanto carinho. Ao término da minha pós-graduação em língua estrangeira, percebi que nós, os professores, devemos lutar para modernizarmos e modificar a didática, utilizando o celular como peça importante durante as aulas. Deve haver mais conhecimento da tecnologia e criatividade para agradar aos alunos e formá-los de acordo com a evolução do mundo. Estou fazendo então a monografia sobre este assunto, com a certeza de que o futuro dos nossos netos seja brilhante e sábio, porque desde criança, o ser humano, hoje, porta o celular e não sabe a hora certa de desligá-lo. Pelo contrário – 24 horas ligado. Peço um grande favor às autoridades, que a Secretaria de Educação seja totalmente preparada para formação dos educadores nessa área de tecnologia e comunicação para formar urgentemente todos os educadores para abrilhantar o futuro dos nossos jovens brasileiros. Obrigada por este espaço tão importante… Abraços.

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