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Botecos chiques

janeiro 23, 2010

O jornal de livros The New York Review of Books acaba de publicar uma resenha sobre Koestler: The Literary and Political Odyssey of a Twentieth-Century Skeptic, uma biografia de Arthur Koestler. O herói da história é um dos intelectuais do século XX com uma das vidas mais agitadas. Ele bebeu com quase todos os grandes escritores de sua época. Teve vida amorosa com mais aventuras que a de Picasso. Participou de movimentos sociais e políticos  expressivos do século, muitas vezes mudando radicalmente de lado. Em resumo, foi um figura tão interessante quanto personagem de ficção aventurosa.

Além de romances e reportagens, Koestler escreveu obras sobre psicologia, sociologia, cultura, filosofia da ciência. Li, faz tempo, seu The Act of Creation, um livro indispensável para discussões sobre criatividade nas ciências, nas artes, na vida. Lembro-me bem do primeiro capítulo da obra, The Jerster, no qual Koestler procura explicar como se dá e “explosão” de um ato criativo. Ele mostra que a estrutura do humor pode iluminar nossa compreensão. Pense numa piada, por exemplo. A história, no seu desenrolar parece algo banal, o desfecho, porém, surpreende, muda radicalmente para outro campo de significado, provoca um entendimento que dá sentido à graça da piada. Tal estrutura é muito parecida com as metáforas que estiveram presentes em grandes descobertas científicas. Metáforas, ao transitarem de um para outro campo semântico, criam o novo assim que as entendemos [assim que a explosão de entendimento que elas provocam dão sentido a uma nova descoberta ou a uma nova maneira de ver o mundo]

Ao escrever este post, dei uma olhada nas avaliações do The Act of Creation na Amazon Books. Descobri que um dos avaliadores manifesta opinião parecida com a minha. Afirma que a obra é um clássico sobre criatividade e estranha que livros atuais sobre o assunto ignoram Koestler:

Recently, I have read a lot of books on Creativity and Innovation. My big surprise is that virtually none of them mention Koestler’s The Act of Creation. This is unfortunate because this book is probably the most authoritative examination of creativity. Attention to this classic is worth reviving.

Mas, não devo continuar com consideraçoes sobre a obra do autor. Preciso falar do que o título deste post promete: botecos chiques.

Koestler era um grande bebedor (pelos nossos padrões seria visto hoje até como um alcoólatra). Bebeu com muita gente famosa em botecos badalados da velha Europa. Na biografia citada, há uma história que resumo a seguir.

Numa noite de 1946, em Paris, Koestler e sua namortada Mamaine Paget sairam para uma noitada com Jean Paul Sartre , Simone de Beauvoir, Albert Camus e Carmine (esposa de Camus). Jantaram num bistrô argelino. Do restaurante sairam para uma casa de danças, com lluminação de luzes de neon rosa e azul. Dali, por sugestão de Koestler, o grupo foi para um boteco russo. A última escala da noitada, por volta das quatro da matina,  foi o Chez Victor no Les Halles,onde Koestler e amigos ilustres tomaram sopa de cebola e vinho branco.

A bebida correu o tempo todo. A turma inteira estava bêbada e  conversava sobre política, cultura e assuntos corriqueiros. No final, já ao amanhecer, percorriam as margens do Sena. Sartre era o único com compromisso imediato: iria dar uma palestra de manhã sobre a Responsabilidade do Escritor, na Sorbonne. Ao saber do compromisso, Camus disse: faça isso “sem mim” – sans moi. Sartre comentou: “eu também gostaria que a minha palestra fosse sans moi“. O autor de Le Mur tomou umas “bombas” para se manter acordado e amenizar a bebedeira. Foi para a Sorbonne e palestrou. Ao finalizar a narrativa do episópodio, o biógrafo de Koestler comenta: “não é possível, mesmo para um existencialista, palestrar para os estudantes sans moi“.

Os intelectuais citados eram botequeiros. Bebiam pra valer. Bêbados trocavam figurinhas muito diferentes das sérias obras que escreveram. Ao ler a resenha, fiquei imaginando que botecos frequentavam. Não eram pelo jeito casas sofisticadas. Mas deviam ser lugares que ficavam chiques por causa da gente que por eles passavam. Naquela época a produção intelectual não ficava só nas academias, os botecos desempenhavam papel importante na vida de Sartre, Beauvoir, Camus, Koestler e muitos outros gênios da cultura em meados do século XX. Evoé, Baco!

A expressão final deste post foi uma lembrança de versos de Bandeira. Reproduzo-os para o prazer do leitor:

Quero beber! cantar asneiras
    No esto brutal das bebedeiras
    que tudo emborca e faz caco...
          Evoe' Baco!

Celular na sala de aula (2)

janeiro 23, 2010

No primeiro post desta série procurei mostrar que a pseudo-necessidade de manter-se continuamente enredado via celular é hábito que provoca muito desconforto em eventos públicos (aulas, teatros, missas etc.). Fiz uma introdução para chamar a atenção para situações bem conhecidas. Neste post quero abordar algo mais “acadêmico”, a questão do imperialismo da engenharia sobre a cultura.

Em A FLOW OF MONSTERS: Luddism and Virtual Technologies, capítulo de Resisting the VIRTUAL LIFE: The Culture and Politics of Information, Iain Boal conta uma história intrigante. Um grupo de manifestantes organizou um ato público na Sproul Plaza no campus da Universidade de Berkeley. Os ativistas alinharam no local diversas tevês já sem uso. Providenciaram martelos e pequenas marretas para que os passantes pudessem arrebentar as velhas televisões. O ato tinha um apelo simbólico. Era um happening que lembrava ações de luddistas arrebentando teares mecânicos que iriam acabar com seus ofícios de tecelões. A manifestação não durou muito. A polícia chegou e prendeu todos os organizadores do ato público.

Cabe observar que as TV’s levadas para a praça pública eram propriedade dos manifestantes. Eles não estavam destruindo bens alheios. Qual então o motivo da prisão? Para os homens da lei eles estavam praticando um ato anti-social. Boal explica que a atuação da polícia foi orientada por uma crença de que as novas tecnologias não podem ser atacadas. Além disso, pessoas que atacam de modo radical as novas tecnologias são consideradas gente perigosa.

O evento acontecido em Berkeley é esclarecedor. Tenho certeza de que um grupo de manifestantes oferecendo a passantes livros velhos para alimentar um fogueira não teriam sido incomodados. O que rola no caso é uma sacralização do novo que deve ser cultuado, que deve ocupar local de honra. No auge da história televisão, em lares pobres, os caixotões de madeira que acomodavam o aparelhos, feios e pesados, ocupavam o melhor lugar da salinha simples de lares acanhados. Geralmente os aparelhos descassavam sobre a melhor toalha de mesa da família.

Simples existência de artefatos tecnológicos cria obrigaçoes de uso, mudando ou até mesmo extinguindo velhos hábitos. Continuo a exemplificar isso com o caso da TV. Uma vez que os aparelhos de televisão ingressaram nas casas pobres ou ricas, ver TV tornou-se mais importante que conversar. Mesmo quando chegava uma visita o aparelho não era desligado. O visitante passava a ser mais um telespectador. Quando muito havia fiapos de conversa em intervalos comerciais. Levantamentos recentes sobre hábitos de ver tevê constataram que é muito frequente encontrar aparelhos ligados em locais onde não há ninguém.

Os comentários que fiz para a TV valem para outros aparatos tecnológicos. Valem para o celular. Estar sempre disponível para uma chamada, a qualquer hora e em qualquer lugar, converteu-se numa obrigação. A possibilidade converteu-se em dever. Em levantamentos informais, usuários de celular revelam que não suportam a idéia de ter o aparelhinho desativado por uma hora. A possibilidade do contato permanente virou obsessiva obrigação.

A possibilidade de contato contínuo numa rede de celulares tem aspectos positivos. Mas, ao mesmo tempo cria obrigações que podem pertubar determinadas atividades. Uma dessas atividades é o do estudo, tanto no nível individual como grupal, que exige grandes doses de concentração. Leitura de um texto filosófico, por exemplo, não pode ser feita em pequenas unidades com contínuas interrupções. Filosofia exige mergulhos reflexivos totalizantes. Não se aprende filosofia com ingestão de pequenas quantidades de sabedoria em curtos intervalos de tempo. O mesmo vale para outras ciências nas quais o texto é o instrumento central. Vale também para estudos de cálculos avançados. Vale para aprendizagem procedimentos como os de solda ou de cirurgia. Restrições a uso de celular nesses casos é uma necessidade.

Em discussões sobre uso de celulares nas salas de aula muita gente fala em bom senso e auto-controle. Sugere que, em vez de proibir ou restringir o uso, deve-se educar os usuários. Esta é uma sugestão bem intencionada, mas ela ignora a natureza da mídia. Vontade e iniciativa pessoal não é solução no caso. Em algumas atividades é preciso ter norma determinando que o aparelhinho seja desligado. Se confiarmos no bom senso do usuário é certo que a medida não irá funcionar. Vou examinar este ponto na terceira parte desta série de posts sobre celular na sala de aula.