Xadrez, inteligência e computadores

Acaba de sair um artigo muito interessante na New York Review o Books: The Chess Master and de Computer. O autor é um dos maiores jogadores de xadrez de todos os tempos: Garry Kasparov.

O texto examina diferenças entre o jogo humano e o jogo computacional do xadrez. O primeiro é intuitivo, não calcula explicitamente todas as possibilidades de cada jogada. O segundo é “lógico”, basea-se na força bruta da máquina, capaz de realizar milhões de cálculos num segundo. A força bruta dos programas computacionais que jogam xadrez utiliza uma imensa base de dados de grandes jogos e uma imensidão de possibilidades de movimentos que o adversário pode fazer durante uma partida. Em 1997, o Deep Blue, um computador da IBM planejado para jogar xadrez contra grandes mestres, derrotou Kasparov. A força bruta da calculeira derrotou a sutileza e criatividade de um grande mestre.

No artigo Kasparov tece diversas considerações sobre xadrez e ciência do conhecimento. Mostra que o jogo é uma invenção humana cujas bases criativas ainda não foram “compreendidas” por nenhum programa computacional. Copio integralmente trecho que aborda isso:

The number of legal chess positions is 1040, the number of different possible games, 10120. Authors have attempted various ways to convey this immensity, usually based on one of the few fields to regularly employ such exponents, astronomy. In his book Chess Metaphors, Diego Rasskin-Gutman points out that a player looking eight moves ahead is already presented with as many possible games as there are stars in the galaxy. Another staple, a variation of which is also used by Rasskin-Gutman, is to say there are more possible chess games than the number of atoms in the universe. All of these comparisons impress upon the casual observer why brute-force computer calculation can’t solve this ancient board game. They are also handy, and I am not above doing this myself, for impressing people with how complicated chess is, if only in a largely irrelevant mathematical way.


Mais à frente Kasparov mostra importância  do jogo de xadrez para fazer inferências sobre nossas capacidades cognitivas. Segue um trecho interessante sobre isso:

Here I agree wholeheartedly, if for different reasons. I am much more interested in using the chess laboratory to illuminate the workings of the human mind, not the artificial mind. As I put it in my 2007 book, How Life Imitates Chess, “Chess is a unique cognitive nexus, a place where art and science come together in the human mind and are then refined and improved by experience.” Coincidentally the section in which that phrase appears is titled “More than a metaphor.” It makes the case for using the decision-making process of chess as a model for understanding and improving our decision-making everywhere else.

Num outro trecho, Kasparov faz uma observação que pode ser muito interessante para a educação. Ele aponta como diversos talentos precisam ser desenvolvidos. Usa o xadrez para ilustrar essa observação. Ressalta a necessidade de dedicação e estudo para bem aprender e obter resultados que valham a pena:

There is little doubt that different people are blessed with different amounts of cognitive gifts such as long-term memory and the visuospatial skills chess players are said to employ. One of the reasons chess is an “unparalleled laboratory” and a “unique nexus” is that it demands high performance from so many of the brain’s functions. Where so many of these investigations fail on a practical level is by not recognizing the importance of the process of learning and playing chess. The ability to work hard for days on end without losing focus is a talent. The ability to keep absorbing new information after many hours of study is a talent. Programming yourself by analyzing your decision-making outcomes and processes can improve results much the way that a smarter chess algorithm will play better than another running on the same computer. We might not be able to change our hardware, but we can definitely upgrade our software.

Uma das observações finais do autor merece muita atenção. Ele afirma que o jogo representativo de nosso tempo é o poker, não o xadrez. Consequências disso para educação, ética, valores, sentido da vida são claras. Melhor seria se nosso tempo escolhesse o xadrez como o “jogo” que vale a pena ser jogado. Para melhor apreciar tal proposta reproduzo o trecho que a discute:

Like so much else in our technology-rich and innovation-poor modern world, chess computing has fallen prey to incrementalism and the demands of the market. Brute-force programs play the best chess, so why bother with anything else? Why waste time and money experimenting with new and innovative ideas when we already know what works? Such thinking should horrify anyone worthy of the name of scientist, but it seems, tragically, to be the norm. Our best minds have gone into financial engineering instead of real engineering, with catastrophic results for both sectors.

Perhaps chess is the wrong game for the times. Poker is now everywhere, as amateurs dream of winning millions and being on television for playing a card game whose complexities can be detailed on a single piece of paper. But while chess is a 100 percent information game—both players are aware of all the data all the time—and therefore directly susceptible to computing power, poker has hidden cards and variable

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2 Respostas to “Xadrez, inteligência e computadores”

  1. Fred de Sanctis Says:

    O nome é KASPAROV e não GASPAROV.

    • jarbas Says:

      OK, Fred,

      Dormi no ponto. Ou talvez meus registros fonéticos estivessem desregulados quando escrevi este post. Escrevi Gasparov (devo ter lido isso no original, num momento em que não foi possível vencer falhas inevitáveis que a idade provoca…).

      Muito obrigado pelo alerta. Fiz a devida correção no texto. Abraço, Jarbas

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