Habilidades para o século XXI

Movimentos de reforma educacional dos últimos tempos utilizam muito conceitos de competência e habilidade. Listam competências e habilidades desejáveis para o futuro. Abominam conteúdo e educação clássica. Definem-se como inovadores. Tem entre seus mais fervorosos advogados gente da área de tecnologia educacional. Apresentam idéias que julgam ter sido inventadas muito recentemente.

Sou um crítico da reforma que tem como bandeira conceitos de competência e habilidade. Vejo o movimento como uma forma ideológica de promover valores neoliberais de modo muito sutil nos meios educacionais. Uma das faces de tal movimento é o entusiasmo desmedido pela tecnologia como algo necessariamente bom.

Não vou examinar mais a fundo a matéria. Fiz apenas uma introdução para justificar divulgação de um pequeno texto de Mike Rose, publicado mês passado no Truthdig. O que segue é uma tradução que fiz. Prováveis erros interpretativos são de minha inteira responsabilidade.

Habilidades do século XXI: Um novo clichê educacional

Mike Rose

Em todas as conversas de hoje sobre reformas educacionais, há uma expressão que se ouve sempre, tanto do presidente da república como do conselho de educação do município. Esta expressão é “Habilidades do século XXI”. Forneçam aos estudantes do século XXI habilidades para uma economia do século XXI. O rótulo é muito poderoso, anunciando uma nova era, próspera e de alta tecnologia.

Mas, assim como muitas outras coisas em reformas educacionais, uma idéia que tem certo mérito pode rapidamente ser reduzida a um clichê. Num documento que li, a expressão habilidades do século XXI é repetida vinte e cinco vezes em menos que duas páginas. E uma vez que entra no mérito da proposta, você percebe que a abordagem das habilidades para o século XXI tem implicações perturbadoras para a educação.

Quais são essas habilidades? Há muitas definições e listas, algumas delas atingindo mais de nove páginas. Faço aqui um resumo da proposta do Southern Regional Education Board. As habilidades do século XXI incluem o uso de um repertório de tecnologias eletrônicas para acessar, sintetizar e aplicar informação; capacidade para pensar critica e criativamente, e avaliar a produção do pensamento; capacidade de se comunicar efetivamente e colaborar com outros, particularmente em ambientes multiculturais e diversos.

A abrangência de habilidades é admirável, assim como é a intenção de que elas se apliquem a todos os alunos – um imperativo de equidade. Mas, o que há de novo nisso? As tais habilidades em nada diferem daquelas desejadas para o século XX, ou para épocas muito mais longínquas.

Você pode encontrar discussões sobre avaliar evidências ou comunicar-se efetivamente em Aristóteles. A exceção é a ênfase nas mídias eletrônicas, mas mesmo aí, as competências subjacentes – avaliar fontes, sintetizar informações – são coisas bem antigas.

Por que as habilidades do século XXI são envolvidas pelo manto poderoso da novidade?

A caracterização dessas habilidades como novas sugere que elas não eram ensinadas anteriormente. E essa caracterização tem como base uma conclusão pouco acurada – bastante popular nos círculos conservadores da reforma – de que as escolas americanas falharam em grande escala. Essa conclusão perigosa nos afasta daquilo que já fazemos bem, e cria uma separação falsa entre uma era educacional e outra. A retórica do novo apresenta uma dicotomia simplista do “velho é ruim/ novo é bom” e alimenta o fetiche da grande coisa que vem a seguir, a descrição do que deve ser uma habilidade do século XXI.

Preocupa-me a filosofia da educação que está por trás da reforma.

Mesmo nas listas mais extensas das habilidades do século XXI, há tópicos que jamais serão encontrados: estética, jogos intelectuais, imaginação, o prazer proporcionado por uma área de conhecimento, admiração. O foco das listas – mesmo quando criatividade é mencionada – está voltado para utilidade e produtividade do mercado de trabalho.

A ironia é que o engajamento com matérias centrais para as reformas baseadas em habilidades – matemática, ciência, tecnologia eletrônica – envolve para muitos jovens entusiastas (para não mencionar especialistas) as mesmas qualidades estéticas e imaginativas [da velha educação]. Porém, a concentração utilitária das listas deixa de fora esses aspectos menos tangíveis, mas, intelectualmente importantes de uma boa educação.

A filosofia educacional das habilidades do século XXI é econômica. A meta principal é formar trabalhadores eficientes e efetivos.

A motivação econômica sempre esteve presente na expansão da educação de massas nos EUA, mas recentemente tornou-se predominante, afastando todas as outras razões –cívicas, sociais, éticas, de desenvolvimento – pelas quais mandamos as crianças para a escola. Mesmo aquelas habilidades do século XXI que se relacionam com o cívico, como o entendimento intercultural, são expressas em termos de efetividade do mercado de trabalho.

Tomemos, por exemplo, estes itens retirados de propostas de um grupo que defende as habilidades do século XXI:

  • Entender, negociar, e avaliar visões e crenças para chegar a soluções adequadas ao trabalho, particularmente em ambientes multiculturais.
  • Alavancar diferenças sociais e culturais para criar novas idéias tanto para a inovação como para a qualidade do trabalho.

Essas habilidades são valiosas, e nós certamente podemos nos beneficiar de seu espírito cooperativo. Mas o foco está muito mais em se conseguir que algo seja feito no trabalho. Há outros fins educacionais e cívicos relacionados com diferentes backgrounds e crenças. Para iniciantes, há práticas e conhecimentos culturais – incluído-se aí a própria noção de cultura – direcionados para a apreciação de nossa humanidade comum [compartilhada]. Não há nada imediatamente “alavancável” em tal entendimento., mas ele tem grande valor cívico e pessoal.

Este é um tempo promissor para a educação. A reforma é prioridade em muitos estados, e o governo federal está a ponto de investir uma quantidade de dinheiro nunca vista em educação. Tudo isso está acontecendo num tempo de grande ansiedade a respeito da economia, por isso foco no mercado de trabalho tem um apelo compreensível. Mas precisamos ser cautelosos para não deixar que a ansiedade apequene a finalidade da educação nos EUA, não importa em que século estejamos.

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5 Respostas to “Habilidades para o século XXI”

  1. Tweets that mention Habilidades para o século XXI « Boteco Escola -- Topsy.com Says:

    […] This post was mentioned on Twitter by Jarbas Barato, TICs em Educação. TICs em Educação said: #educacao o fetiche das "habilidades do século XXI" por @Novelino http://zapt.in/2Xw via @suzzinha no Greader #edubl […]

  2. Claudio Giovannini Says:

    No colegio em que trabalho são todas as condições possiveis para realização de um trabalho em podemos intercalar a sala de aula tradicional com a sala interativa, ou seja, depois de detalhar o conteudo em sala vamos visualizar na sala interativa atraves de imagensw e movimentos e muitas vezes incentivo os alunos a no computador criarem a melhor forma de gerar condições para melhorar sua pesquisa e desenvolvimento cultureal. Até os exercicios sdão desenvolvidos na tela interativa pois isso gera o debata para a resolução.

  3. Rosimeire Says:

    No colégio em que trabalho também já existe professores que utilizam-se de material disponível na sala interativa para unir forças aos alunos que muitas vezes não são bons ouvites e sim bons de visão só conseguem entender um conteú do atraves de uma boa aula multimidia.

  4. Roseli Cabral Says:

    Trabalho em um colégio onde a interatividade acontece a todo momento. Todas as salas de aulas possuem datashow e possuimos duas lousas digitais. A tecnologia faz parte da dinâmica de aula de todo o corpo docente. Mas o que me preocupa na verdade, é como são utilizados esses recursos tecnológicos?! Muitas vezes me parece como uma obrigação imposta pela direção e coordenação e não fluindo do professor e dessa forma muitas vezes o resultado são sai como o esperado. Acredito que as práticas pedagógicas tecnologicas devam ser reavaliadas para um melhor aproveitamento de todo o conteúdo pedagógico e não utilizado somente como uma reprodução do livro, como muitas vezes acontece.

  5. Estamos no caminho certo de como construir o estudante do século 21? | Caldeirão de Ideias Says:

    […] ( Spare Parts, A Rainha de Katwe,  Moonlight, A Chegada e Estrelas Além do Tempo) , textos ( 1 2 3 4 5 ) e livros (1) que leio e até andar sem rumo nas redes sociais tá nesse rolo ( 1 2 3 ). […]

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