Celular na sala de aula (1)

O uso do celular invadiu a maior parte do espaço público. Ou, dito de outra forma, o uso do celular eliminou quase todos os espaços públicos em nome da liberdade individual da comunicação contínua. Antigas práticas de convívio perderam importância e devem ceder espaço para interesses individuais sempre que um sinal de celular convocar seu propietário para se comunicar com alguém que está chamando. Não importa o assunto, os chamados sempre são atendidos.

A cultura do celular nos termos apontados no parágrafo anterior incomoda muita gente. Incomoda por exemplo o ator Antônio Fagundes que promete suspender espetáculo de teatro se alguém da platéia esquecer o aparelhinho ligado. No teatro também, gente que veio ver um drama sente-se incomodada com a quantidade enorme  de luzinhas de aparelhos que estão fotografando ou filmando trechos da peça, em gravações sem qualquer valor artístico ou documental. Incomoda passageiros de um elevador abarrotado quando um jovem (de qualquer idade) garganteia a ‘ficada’ de ontem, via telefone móvel, em conversas sem pudor e cheias de detalhes íntimos.  E por aí vai. Como não costumo frequentar igrejas, não sei se os fiéis têm o cuidado de desligar celulares durante as missas. Meu palpite é o de que há muitos crentes usando o celular durante celebrações litúrgicas.

Tempos atrás, num evento de tecnologia educacional fiquei incomodado com um educadora que viera de longe, numa viagem paga com dinheiro público, e durante uma palestra muito interessante passou o tempo todo concentrada  num joguinho no celular. Fiquei me perguntando porque ela não ficara no seu local de trabalho onde poderia jogar no conforto do escritório sem pertubar gente que estava querendo dialogar com um grande especialista em TV e educação. Só tenho uma palavra para isso: desrespeito.

Vez ou outra, soa em minha aula algum celular. Na maior parte dos casos, o dono do aparelhinho pede desculpas. Alguma vezes, porém, o assinante do telefone móvel atende ao chamado em voz baixa ou pede para se retirar e falar com mais liberdade com quem o chamou. Tenho certeza que a maior parte de tais chamados não tem qualquer importância, não é caso de vida ou morte, não exige decisão imediata. E antes que alguém diga que isso ocorre porque minhas aulas são chatas, devo dizer que esta não costuma ser a opinião dos alunos, inclusive daqueles que não conseguem desligar seus celulares. Outra coisa: devo deixar registrado que já planejei e executei atividades de sala de aula que incluíam uso de celulares.

Muitas das minhas aulas acontecem em laboratórios de informática. Não gosto deles (dos laboratórios de informática) por razões de arquitetura escolar. Gosto menos ainda da disposição das máquinas em bancadas que repetem o arranjo tradicional de carteiras em salas de aula. Mas é o que tenho na universidade. Tento me adaptar e utilizar os tais laboratórios da melhor maneira possível. No geral, meus alunos trabalham no laboratório em projetos próprios e não reproduzem algo que coloco no quadro branco. Mas, muito eventualmente, sinto que devo fornecer oralmente uma rápida explicação para a turma toda. Numa dessas raras ocasiões, enquanto eu explicava algo de interesse comum, um aluno na primeira bancada, a um metro e meio de onde eu estava, falou o tempo todo em seu celular. Não devia ser algo muito importante e considerei aquilo uma ofensa pessoal. O dono do celular era um adulto, professor e pastor de uma igreja evangélica. Ele simplesmente me desconsiderou e apartou-se da turma sem abandonar fisicamente o local. Atender a uma chamada via celular era muito mais importante que participar de uma conversa comunal sobre assunto de interesse de toda a classe. E não venha alguém me dizer que eu poderia utilizar o maravilhoso celular para conversar com meus trinta alunos que estavam ali no laboratório. De vez em quando comunicações orais, cara a cara, olho no olho, são a forma mais efetiva de passar informação ou debater ponto de interesse comum.

O que está acontecendo? Acredito que o padrão de uso dos celulares, estabelecido ou apoiado pelos fabricantes via sugestão (cf. propagandas das operadoras) de supostas necessidades de comunicação, converteu-se em verdade. No discurso de muita gente, o uso indiscriminado do telefone móvel é visto como um traço cultural definitivo, um sinal de progresso, uma mudança que precisa ser aceita. Já que a tecnologia permite comunicação contínua, não há mais escapatória, quem tem celular precisa estar ligado o tempo todo. [Sobre este tipo de dependência, reforçado por ações das operadoras em propaganda e em “pesquisas” sobre usos do aparelhinhos, ver um post antigo que publiquei neste Boteco sobre  o novo sentido da palavra periférico]. E tal constatação é complementada por uma conclusão de teor político: o uso do celular sem restrições é sinal de liberdade.

Comecei este post com a intenção de examinar a questão de restrições ao uso do celular em sala de aula, caracterizada por alguns tecnófilos como censura. Mas, me estendi demais no registro de algumas situações. O texto está muito longo. Por isso paro por aqui sem concuir. Voltarei ao assunto brevemente. Aguardem partes 2, 3 e talvez 4 desta minha arenga.

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5 Respostas to “Celular na sala de aula (1)”

  1. T Says:

    Estou a acompanhar atentamente.Registro aqui outras situações, pois o uso do celular, como liberdade e o professor como opressor, ou ligações para o ensino-aprendizagem sem que eu saiba quem vai pagar a conta são questionáveis!
    1- mais de 40 alunos em sala, liberei o celular, contanto que o aluno ao atender, em sua primeira frase, comunicasse ao interlocutor que estava em aula e/ou se gostaria de falar comigo !
    2-A aula era sobre coleta de dados, e ao atender o telefone o aluno questionaria ao interlocutor que estava em aula e havia a necessidade de que respondesse a uma questão etc etc…
    Para mim, em tom de brincadeira, seria uma forma de informar que naquele horario o aluno estava em aula e que tal colaborar ou não atrapalhar (mesmo atrapalhando) !!!
    abraço

  2. Antonio Morales Says:

    O ator Antonio Fagundes, em uma entrevista ao Jornal Bom dia Bauru, diz, “Não tenho Twitter, Orkut, My Space, Facebook, nada disso. Sou analfabyte. Nem e-mail eu tenho. Não uso computador. Tenho tantos livros para ler. Não vou perder tempo naquela maquininha. Deve ficar mesmo “pê da vida” quando está no palco e um celular toca na platéia!

  3. Sérgio Lima Says:

    Opa Prof. Jarbas,

    Tirando a frase “gravações sem qualquer valor artístico ou documental” que quase joga todo texto por terra (qual o critério para algo ter valor artísitico e documental?), vejo como positiva a lembrança do bom senso.

    Como diria meu pai, tudo de mais faz mal (sexo, dinheiro, férias, etc)… então não se trata de satanizar nem endeusar os celulares, mas usá-los com bom senso!

    Respeito a espaços coletivos e bom senso fazem muito bem, com celulares e com tudo mais!

    by the way Feliz 2010 🙂

  4. adawany Says:

    eu concordo com essa lei pois se ta na escola e pra estudar e nao pra fuçar celular se vc ta mexendo no celular na hora q o professor(a) tive explicando como vc vai entender a materia q ele ou ela esta passando

  5. juliaguimaraespereira@gmail.com Says:

    valeu, ajudou bastante !!!!!!!!

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