Computadores e Educação: visão equilibrada

Em 1997 participei de uma teleconferência tendo como parceiro o educador português Vitor Teodoro, físico e criador do Modellus, um software de estudo de ciências conhecido mundialmente. Na sua fala, Vitor fez muitas observações importantes sobre computadores e educação. Aproveitei tais observações para escrever um subsídio para meus alunos de tecnologia educacional em 1998. Acabo de ler tal subsídio e acho que ele ainda tem muita atualidade. Mérito do Vitor, claro. Ele é um cientista e educador de muita visão.

Eu poderia publicar o subsídio em que comento a fala do Vitor na seção páginas deste Boteco Escola. Resolvi, porém, publicá-lo neste post. É um texto longo para mensagem blogueira convencional. Mas, acho que vale a pena romper com algumas convenções. Como as idéias do educador português são importantes, vou dar a elas destaque de post. Espero que alguns leitores esqueçam a impaciência de ver textos longos na Web e cheguem até o fim da conversa.

Se você acreditou no que eu disse até agora e está com alguma paciência para a leitura, veja a seguir o subsídio que preparei a partir de idéias de Vitor Teodoro.

O MEIO NÃO É A MENSAGEM

PALESTRA DO PROFESSOR VITOR DUARTE

EDUCANDO/SUCESU  1997

JARBAS NOVELINO BARATO

Nos anos sessenta, o analista dos meios de comunicações, Marshall McLuhan, sugeriu em um de seus livros que o “meio é a mensagem”. A afirmação de McLuhan marca  a posição de que os meios de comunicação não são neutros, têm características próprias e não respeitam, necessariamente, boas intenções de seus usuários. Os meios, independentemente de intenções, fazem aquilo que lhes é próprio em termos de veículos de comunicação.

Para provocar os palestrantes de uma das teleconferências do Educando/Sucesu 1997, os organizadores de evento propuseram o tema “o meio não é a mensagem”, procurando ver até que ponto é possível contrariar o famoso dito de Mcluhan.

Interessa-nos aqui as opiniões do Professor Vitor Duarte, da Universidade Nova Lisboa, Portugal.  Vitor é um especialista em usos educacionais do computador, conhecido internacionalmente. Não vou propriamente resumir a palestra do professor  Duarte. Vou apenas destacar alguns pontos que me parecem interessantes  para iniciar os estudos de tecnologia educacional no 4º APGN/ST de 1998.

O meio não é a mensagem, mas… Vitor Duarte não aceita inteiramente a famosa idéia de McLuhan, mas observa que os meios transformam as mensagens. Esta é uma observação importante: há coisas que podem ser apenas ditas, outras apenas escritas, outras apenas televisados, etc. Quando a fala vira escrita, há transformações, há mudança. Quando um texto vira vídeo, há transformação, há mudança. Etc.

Uma coisa que as pessoas muitas vezes não observam são as características de cada meio. Acham que os meios mais recentes incluem todas as virtudes dos velhos meios e, além disto, as novas virtudes que lhes são próprias. Isto não é verdade. Um conteúdo passado para a TV perde quase tudo que consegue passar enquanto texto. Geralmente uma bela palestra quando transcrita (quando vira texto, sem qualquer revisão) é ilegível. Além disto os processos de produção da fala, do texto, da imagem, do roteiro de transparências, do vídeo, do programa de computador são inteiramente diferentes. Há coisas que só conseguimos passar falando. Outras só ficam claras se escritas. E assim por diante. Por outro lado, há mensagens que não cabem em determinados meios. Assim, por exemplo, não é adequado fazer exposição em vídeo ou TV. Exposições agradáveis e claras quando filmadas perdem as características de “olho no olho” que só a fala pode garantir.

Reparem que não estou mais falando das idéias do Vitor. Estou tirando conseqüências da observação que ele faz sobre transformação da mensagem quando esta migra de um meio para outro.

O computador está se aproximando da televisão… Vitor Duarte observa que o computador está cada vez mais perto da televisão. Há muita gente que acha isto vantajoso. Não é o que pensa o professor da Universidade Nova Lisboa. A TV é sobretudo diversão, espetáculo. Não é um veículo que substitui, com  vantagem, livros e salas de aulas. Como observa o grande crítico dos meios de comunicação, Neil Postman, a TV só educa para ela mesma.

Creio que esta observação do Vitor sugere uma perda em termos de bom aproveitamento do computador enquanto veículo de educação. Se os sistemas computacionais tornarem-se cada vez mais ambientes de diversão, seu aproveitamento educacional será muito pequeno.

Ler e escrever é essencial para a aprendizagem. Os novos meios, sobretudo a televisão, privilegiam a imagem. E há quem pense que isto é muito bom, pois já dizia o velho ditado: “mais vale uma imagem que mil palavras”. Infelizmente este, como muitos outros ditos populares, não é tão sábio quanto parece. Escrita e leitura são dois mecanismos básicos de transformação. E não há aprendizagem sem transformação. Ler e escrever trabalham sobretudo no nível das capacidades analíticas, uma dimensão importante do pensar. É claro que aprendemos fora dos livros e sem lápis e caneta. Há analfabetos sábios. Mas, sem ler e escrever, perdemos muito em termos de ativar algumas capacidades mentais que não são ativadas por experiências, fala, imagens ou outros recursos.

Em conversa, no dia da palestra, Vitor me disse que enfrenta alguma dificuldade para negociar mais leitura e mais produção escrita com seus alunos na Universidade de Nova Lisboa. O problema, portanto, não é brasileiro. Os novos meios de comunicação estão secundarizando a leitura e a escrita em toda parte. É claro que escrever e ler não tem um valor em si mesmos. Seu maior valor está na ativação de capacidades analíticas que não são ativadas por outros meios. Neste sentido, escolas e centros de treinamento enfrentam um grande desafio: como promover leitura e escrita como uma necessidade de aprendizagem.

Professores ( e outros profissionais de educação, incluindo especialistas em treinamento) são intelectuais. Vitor observa que, infelizmente, os professores deixaram de ser intelectuais. Sabem apenas a sua matéria  no limite  daquilo que é preciso passar aos alunos. Não vou falar aqui de professores. Vou falar dos educadores que trabalham em empresas ou em instituições de capacitação profissional. Acho que eles também, deveriam ser intelectuais.

Os educadores deixaram de estudar matérias e assuntos que vão mais longe do que a sua prática cotidiana. Querem receitas. Admiram as coisas da moda. Lêem pouco. Ignoram a cultura em que vivem. Definitivamente não são intelectuais. Acham que um sentido prático baseado em suas próprias experiências (ou experiências alheias) é o bastante para irem tocando o seu ofício. E é aí que mora o perigo. Educadores não são profissionais de ensino ou treinamento. São profissionais do conhecimento preocupados com aprendizagem. A ciência do conhecimento é, cada vez mais, um saber que vem de várias fontes: psicologia, sociologia, antropologia, lingüística etc. Além disso, trabalhar com o saber exige muita capacidade de análise, de síntese e de criatividade. Em parte, esta capacidade depende de muita leitura, sobretudo de bons livros de ficção. Em suma: ensinar – ou mais que isto, ajudar as pessoas a aprender – é uma tarefa intelectual.

Aprender exige esforço. Nosso amigo Vitor rema contra a corrente. Numa época que valoriza tanto o afeto e a diversão, ele insiste em lembrar que aprender exige esforço. Na mesma direção que o Professor Vitor Duarte, o cientista do conhecimento Donald Norman afirma que há um engano muito comum entre os educadores: eles acham que tudo pode ser aprendido experencialmente. Acontece, porém, observa Norman, que muitas aprendizagens exigem capacidade de reflexão. E refletir  não é fácil. Não é uma experiência que possa ser vivida sem dedicação, vontade, concentração.

E quem perde quando não há esforço? O aprendiz. O professor Demerval Saviani costuma dizer que professores e alunos fazem um pacto de mediocridade do tipo: “nem eu ensino tudo o que sei, nem vocês aprendem tudo o que podem”. No âmbito deste pacto, aprendizes e mestres seguem uma lei de menos esforço. O resultado, infelizmente, é menos aprendizagem.

Os professores estudam pelos livros dos alunos. Um professor, obrigado a dar uma matéria que pouco conhecia, dizia ter descoberto que mestres são aquelas pessoas que estão uma lição na frente dos alunos. Isto parece uma brincadeira mas retrata um fenômeno crescente em todas as áreas e níveis de ensino. Educadores desintelectualizados não conhecem a matéria em profundidade. Em treinamento, por exemplo, esta pouca profundidade dos conteúdos resulta em excessiva valorização das formas de apresentação, dinâmicas e estratégias. Há quem, inclusive, ache que é possível ensinar criatividade sem qualquer conteúdo!

Ter baixas expectativas para obter melhores resultados. Vitor observa que as pessoas, de modo geral, alimentam altas expectativas quanto ao papel que as novas tecnologias podem desempenhar no campo da aprendizagem. No que diz respeito ao computador, por exemplo, muita gente acredita que simples presença de máquina é um passo importante na direção de uma educação mais eficaz. Esta é uma forma de messianismo pedagógico. Ou seja, as pessoas esperam que um salvador, um messias (a tecnologia, neste caso), venha resolver todos ou quase todos os problemas de aprendizagem hoje enfrentados. Esta expectativa muito alta é fonte de decepção. As máquinas não salvam ninguém.

O professor Duarte propõe uma visão de equilíbrio. Sugere que as expectativas quanto ao papel das tecnologias sejam baixas. Em vez de grandes esperanças, sugere trabalhos dedicados e aparentemente pequenos. Em outras palavras, propõe trabalho em vez de infundadas esperanças nos meios…

Acho que há ainda outros pontos de palestra do Vitor que podem ser destacados e comentados. Porém, paro por aqui. As idéias que apontei e comentei são suficientes para um começo de conversa sobre alguns rumos da tecnologia educacional.

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2 Respostas to “Computadores e Educação: visão equilibrada”

  1. T Says:

    a tal “paciência”para bons posts seguramente existe!Muito bom e obrigado.

  2. jarbas Says:

    Quem deve dizer muito obrigado sou eu. Afinal de contas, trata-se de um texto ‘velho’, de uma época que discutíamos mais “computadores e educação”, e não “Internet e educação”.
    Acho que as conversas de hoje são reducionistas. Ao ficarmos só na Internet, estamos nos esquecendo das virtudes maiores dos computadores, máquinas que podem “imitar praticamente tudo”. Tal característica deveria ser mais aproveitada em educação. Em parte ela não ocorre porque converter computadores em nichos ecológicos, sistemas linguísticos, sociedades complexas de qualquer época histórica, etc. exige muito investimento de grana e cabeça. Contentamo-nos com usos superficiais ou com algumas ferramentas de vida efêmera.
    Abraço, Jarbas.

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