TIC’s e dobra do conhecimento

No post anterior sugeri que os cálculos de dobra do conhecimento humano em prazos cada vez mais curtos, geralmente associados a tecnologias da informação e comunicação, nada mais são que uma espécie de lenda urbana. Para refrescar a memória, listo a seguir exemplos de informações sobre períodos de tempo em que o conhecimenmto humano dobra em nossos dias.

  • O primeiro autor nota que na década de 1960 eram precisos vinte anos para dobrar o conhecimento científico; na década de 1990 a dobra ocorreu em dez anos.
  • O segundo autor revela que a humanidade dobrou o conhecimento humano nos últimos cinco anos, deverá dobrar novamente nos próximos três; e dobrará novamente a cada vinte meses.
  • O terceiro autor diz que antigamente (uma era não especificada) o conhecimento humano dobrava a cada dezoito meses; agora dobra a cada nove.
  • O quarto autor faz a seguinte contabilidade: dobra a cada quatro anos atualmente, dobra em quatro meses em 2014, e dobra talvez a cada hora em 2020.

Os dados apresentados me fazem pensar que a idéia da dobra do conhecimento cada vez mais acelerada graças ao progresso tecnológico é um artigo de fé. E os crentes podem chutar qualquer número, desde que o mesmo impressione almas de gente que precisa ser convertida ao novo credo.

O fenômeno seria apenas uma curiosidade inofensiva caso as informações sobre dobras de conhecimento em nosso tempo não fossem sintomas de certas ideologias. E mais, caso tais informações não fossem aceitas como verdades no campo da educação e da tecnologia educacional.

Gente que faz cálculos sobre crescimento exponencial do conhecimeto humano parece ignorar completamente saberes epistemológicos. Para ficar no feijão-com-arroz da epistemologia, é bom notar que conhecimento tem compromisso com verdade. Afirmações que carecem de comprovação por meio de processo de verificação não são conhecimentos; são equívocos, erros, ou, no máximo, opiniões. É o caso, por exemplo, do que dizem os autores citados. Eles chutam números sem qualquer compromisso com provas. O que afirmam não é conhecimento. É opinião cujos pressupostos convém descobrir.

A insistência sobre dobra do conhecimento em nosso tempo reflete uma ideologia que:

  • desvaloriza o saber construído historicamente pela humanidade,
  • entende como conhecimento qualquer bobagenzinha de aplicação técnica imediata (e que será esquecida em pouco tempo),
  • confunde (parece que de propósito) informação com conhecimento,
  • justifica mudanças prejudiciais para trabalhadores que dominavam saberes apropriados recentemente pelo capital,
  • justifica a precarização das relações de trabalho dada uma suposta velocidade cada vez maior das mudanças no processo de produção.

Se a gente garimpar um pouco mais encontrará outras raízes para a lenda urbana da dobra do conhecimento. Paro por aqui. Espero ter mostrado que a mesma não é inocente “descoberta de lei geral da evolução humana”, mas  uso ideológico de inegáveis mudanças provocadas pelo uso das novas tecnologias.

Voltarei ao assunto.

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3 Respostas to “TIC’s e dobra do conhecimento”

  1. T Says:

    Achei… gostei muito deste seu post.

  2. Anarcoplayba Says:

    Cara, eu ia (na qualidade de quarto autor) deixar quieto… mas quando eu falei nisso, eu não estava querendo dar uma informação precisa, mas sim pegar um conceito, tanto é que, um pouquinho antes eu afirmei que “Obviamente eu dei exemplos imprecisos e errados. E eu fiz isso porque isso é um blog, não a wikipédia, e eu tô cagando e andando pra datas e fatos em comparação com o que eles significam.”

    Obviamente isso não tira o mérito da sua tese, yet, como eu informei: não estava preocupado com fatos, mas com idéias.

    Eventualmente, poderíamos discutir um pouco mais, mas acabaríamos entrando em argumentos de autoridade do tipo “o autor A falou isso” ou “o autor B disse aquilo”, que não são muito proveitosos.

  3. jarbas Says:

    Caro cara,

    Um privilégio tê-lo aqui no Boteco.
    Como você disse, vale no seu texto mais a direção dos argumentos que a precisão dos dados. Entendo e aceito seu ponto de vista. Mas, é claro, não concordo com os pressupostos. Acho uma puta arrogância esse negócio de dobra do conhecimento em tão pouco tempo. O pensamento que vai em tal direção não consegue ver a elaboração dos saberes numa perspectiva histórica e compara coisas incompáraveis. Domesticação dos cerais há uns 10 mil anos atrás por exemplo, dada a originalidade da ‘tecnologia’, é uma conquista muito mais importante que a confecção de chips que podem multipicar por quatro a memória de um computador. E por aí vai a coisa.
    Entendo também que a sua última conta é uma liicença poética para apresentar dramaticamente o crescimento exponencial do conhecimento.
    Na nossa conversa idéias são importantes. São elas que estão em jogo na discussão. Mas não se pode desprezar fatos ou forçar a barra para que as contas favoreçam a tese da dobra do conhecimento em tempos cada vez mais curtos.
    Talvez não discutamos mais a matéria. Mas, como disse, é um privilégio ter você como interlocutor. Abraço grande, Jarbas.

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