Archive for 9 de janeiro de 2010

TIC’s e dobra do conhecimento

janeiro 9, 2010

No post anterior sugeri que os cálculos de dobra do conhecimento humano em prazos cada vez mais curtos, geralmente associados a tecnologias da informação e comunicação, nada mais são que uma espécie de lenda urbana. Para refrescar a memória, listo a seguir exemplos de informações sobre períodos de tempo em que o conhecimenmto humano dobra em nossos dias.

  • O primeiro autor nota que na década de 1960 eram precisos vinte anos para dobrar o conhecimento científico; na década de 1990 a dobra ocorreu em dez anos.
  • O segundo autor revela que a humanidade dobrou o conhecimento humano nos últimos cinco anos, deverá dobrar novamente nos próximos três; e dobrará novamente a cada vinte meses.
  • O terceiro autor diz que antigamente (uma era não especificada) o conhecimento humano dobrava a cada dezoito meses; agora dobra a cada nove.
  • O quarto autor faz a seguinte contabilidade: dobra a cada quatro anos atualmente, dobra em quatro meses em 2014, e dobra talvez a cada hora em 2020.

Os dados apresentados me fazem pensar que a idéia da dobra do conhecimento cada vez mais acelerada graças ao progresso tecnológico é um artigo de fé. E os crentes podem chutar qualquer número, desde que o mesmo impressione almas de gente que precisa ser convertida ao novo credo.

O fenômeno seria apenas uma curiosidade inofensiva caso as informações sobre dobras de conhecimento em nosso tempo não fossem sintomas de certas ideologias. E mais, caso tais informações não fossem aceitas como verdades no campo da educação e da tecnologia educacional.

Gente que faz cálculos sobre crescimento exponencial do conhecimeto humano parece ignorar completamente saberes epistemológicos. Para ficar no feijão-com-arroz da epistemologia, é bom notar que conhecimento tem compromisso com verdade. Afirmações que carecem de comprovação por meio de processo de verificação não são conhecimentos; são equívocos, erros, ou, no máximo, opiniões. É o caso, por exemplo, do que dizem os autores citados. Eles chutam números sem qualquer compromisso com provas. O que afirmam não é conhecimento. É opinião cujos pressupostos convém descobrir.

A insistência sobre dobra do conhecimento em nosso tempo reflete uma ideologia que:

  • desvaloriza o saber construído historicamente pela humanidade,
  • entende como conhecimento qualquer bobagenzinha de aplicação técnica imediata (e que será esquecida em pouco tempo),
  • confunde (parece que de propósito) informação com conhecimento,
  • justifica mudanças prejudiciais para trabalhadores que dominavam saberes apropriados recentemente pelo capital,
  • justifica a precarização das relações de trabalho dada uma suposta velocidade cada vez maior das mudanças no processo de produção.

Se a gente garimpar um pouco mais encontrará outras raízes para a lenda urbana da dobra do conhecimento. Paro por aqui. Espero ter mostrado que a mesma não é inocente “descoberta de lei geral da evolução humana”, mas  uso ideológico de inegáveis mudanças provocadas pelo uso das novas tecnologias.

Voltarei ao assunto.

Quantas palavras há para neve em inuit?

janeiro 9, 2010

Durante muito tempo acreditei na afirmação de que os esquimós ou, mais propriamente, o inuit e outros idiomas falados por povos indígenas do Ártico tinham algumas dezenas de palavras para neve. Ao ler The Language Instinct, de Steven Pinker, fiquei sabendo que tal informação não é verdadeira. Mas, ela continua a circular por aí com muita força, sendo repetida inclusive por gente bem informada como Cristovam Buarque.

Destaco o assunto por que recentemente @SoniaBertocchi, competente tuiteira, escreveu o que segue:

[eu sabia que eles tinham +de 20 p branco] Os esquimós têm mais d 100 palavras diferentes para “gelo”. #TweetsCuriosos (via @TweetsCuriosos)

Para desencanto da Sonia, essa riqueza vocabular dos idiomas dos nativos do Ártico não é verdadeira. A informação, porém, oferece oportunidade para conversas sobre certas informações tidas como descobertas de boa ciência.

Acabo de reler as observações de Steven Pinker sobre o caso (cf. The Instinct of Language, p. 64 e seguintes). Resumo a ópera em poucas palavras. A história começou em 1911 com um comentário informal de Franz Boaz dizendo que os esquimós tinham quatro diferentes palavras para neve. Boaz apresentou tal idéia no bojo do argumento de que os povos ‘primitivos’ têm idiomas tão sofisticados quanto os povos ‘civilizados’. O linguista amador Whorf esticou um pouquinho a conta e publicou num artigo que os esquimós tinham sete diferentes palavras para neve, deixando no ar que talvez o número fosse maior.

O texto de Whorf foi amplamente reproduzido mundo afora. A informação foi para a imprensa e livros didáticos. A conta inicial foi sofrendo acréscimos até chegar à casa das centenas.

Na verdade, os idiomas esquimós não têm a alegada riqueza vocabular. Dicionários de inuit registram uma ou duas palavras para neve, nada mais. É bom observar que Boaz e Whorf desconheciam os idiomas esquimós. Propuserram a alegada riqueza vocabular sem qualquer base em estudos linguísticos dos idiomas a que se referiam.

Essa história toda nos remete a duas considerações: a pobreza científica de livros didáticos, a armadilha da pseudociência. Em parte, a idéia errada de que os esquimós possuem dezenas de diferentes palavras para neve se deve à divulgação do artigo de Whorf em livros didáticos (inclusive com um aumento constante do número original do mencionado item de vocabulário). Em parte, tal idéia errada invadiu nosso espaço informativo porque sempre veio associada com suposta base científica.

Ao rever o caso fiquei me perguntando se não há outras situações que têm script similar. Conclui que há muitas. Algumas delas,  como certas barbaridades vendidas a professores a título de construtivismo, são muito sutis. Para abordá-las seriam necessárias várias páginas. E isso não fica bem num blog. Continuei minha busca e acho que encontrei algo similar ao mito das muitas palavras para neve nos idiomas dos esquimós. E da mesma forma que o caso citado, minha descoberta tem a ver com número. Trata-se do mito de que vivemos numa época na qual, em períodos de tempo cada vez mais curtos,  o conhecimento humano é multiplicado por dois.

Eu tinha uma lembrança difusa de que analistas de impactos das novas tecnologias da informação e comunicação afirmam que o conhecimento humano dobrou nos últimos vinte anos. Mas, não tinha certeza do número. Uma lembrança mais apagada me dizia que alguém disse que o número da dobra era muito menor. Para desfazer dúvidas, fiz um pequeno levantamento via Google. Registro aqui parte das minhas descobertas.

No post de um blog encontrei o que segue:

Estamos acelerando cada vez mais em direção a uma incógnita. Na década de 1960, o conhecimento científico dobrava a cada 20 anos, nos anos 1990 passou a dobrar a cada 10 anos. Atualmente o conhecimento na área da informática dobra a cada 1,5 anos.

Em publicação informativa de uma faculdade, a conta aparece da seguinte maneira:

O mundo passa hoje por mudanças drásticas e aceleradas, provavelmente a mais profunda já sofrida pela humanidade. Calcula-se que a humanidade dobrou o conhecimento humano nos últimos cinco anos e que deverá dobrar novamente nos próximos três anos. Daí em diante calcula-se que dobrará novamente a cada vinte meses.

Em artigo de uma revistona conhecida, encontrei o seguinte:

O conhecimento humano está aumentando explosivamente. Antigamente, dizia-se que o conhecimento humano dobrava a cada dezoito meses. Hoje, parece que ele dobra a cada nove.

Num outro blog, a contabilidade do progresso do conhecimento é apresentada da seguinte forma:

Bem, segundo cálculos a média hoje é de que todo o conhecimento humano dobra em cerca de 4 anos. Espera-se que por volta de 2014 todo o conhecimento humano dobre em cerca de 4 meses. E lá pra 2020, talvez dobre a cada hora.

As afirmações sobre dobra do conhecimento em nosso tempo, associadas às maravilhas das tecnologias da informação e comunicação, repetem o enredo que caracterizou o mito da riqueza vocabular esquimó. Números mudando sempre, de acordo com cada texto de divulgação, nenhuma referência a dados de pesquisas sólidos, traço nítido de crença cientificista.

Além da inconsistência dos números, há no caso completa falta de informação sobre o que os autores chamam de conhecimento. Sempre fico com a impressão de esta gente não tem qualquer idéia do que seja epistemologia. Além disso, essa mesma gente não tem qualquer senso de história. Caso tivesse, seria mais cuidadosa ao fazer comparações. Não importa muito quanto tempo foi necessário para que algumas civilizações desenvolvessem de modo completamente original a escrita. Esse tempo, mesmo que longo, não pode ser comparado, por exemplo, com o tempo gasto na invenção de uma linguagem avançada de programação de computador. Esta última, em termos de originalidade, fica anos luz atrás da primeira.

Há muito mais o que dizer sobre essa lenda urbana da dobra do conhecimento. Voltarei ao assunto noutra ocasião. E antes que eu me esqueça, isso tem muito a ver com educação e tecnologia educacional…