Síndrome do bezerro de ouro

Em recente conversa sobre celulares no Twitter, fiz referência à síndrome do bezerro de ouro. Citei meu amigo Carlos Seabra como fonte para tal expressão. No fundo, a metáfora a que me referi sugere considerações sobre o instrumentismo, aquela insistência em usar certos produtos tecnológicos com indicador de modernidade, de avanço, de progresso. E muitas vezes essa bobagem é apenas a aceitação de imposições de vendedores de bugigangas. Qualquer semelhança com o paradigmático espelhinho para enganar índios é semelhança mesmo.

Agora, revendo meus velhos guardados, notei que um belo comentário sobre a sídrome do bezerro de ouro foi feita por Donald Norman no Design of Everyday Things. O texto é de uma época em que estavam em voga os sistemas de som. Daí o exemplo analisado pelo autor. Mas, para bons leitores será fácil relacionar o que diz Norman com celulares ou qualquer outro sonho de consumo dos compradores obsessivos de ‘tecnologia’.

Traduzi o texto do Norman há muitos anos. Revi o escrito e acho que vale a pena divulgá-lo. Segue, portanto a tradução.

A ADORAÇÃO DE FALSAS IMAGENS

(A síndrome do bezerro de ouro)

Donald A. Norman

POET  p. 174-6

O designer – e o usuário – pode ser tentado a adorar a complexidade. Alguns de meus alunos realizaram um estudo sobre máquinas copiadoras de escritórios. Descobriram que as máquinas com mais funções, e muito mais caras, eram sucesso de vendas entre as empresas de advocacia. As empresas precisavam das muitas funções extras de tais máquinas? Não. Na verdade elas gostavam de colocar as máquinas na parte da frente dos escritórios perto da sala de espera dos clientes. Um show de equipamentos com luzes flamejantes e lindas telas. As empresas, assim, ganhavam uma áurea de modernidade, mostrando sua capacidade de lidar com os rigores da alta tecnologia. O fato de que as máquinas eram muito complexas para serem operadas pela maioria das pessoas nas empresas era irrelevante; as copiadoras sequer tinham que ser usadas, importava a aparência. Em tempo: os adoradores de falsas imagens neste caso eram os clientes.

Uma colega me narrou as dificuldades que ela enfrentou com o seu conjunto caseiro de audio/TV, formado por diferentes componentes que, isoladamente, não eram muito complexos. Mas as combinações eram tão difíceis que ela não podia usar o conjunto. A solução de minha amiga foi trabalhar cada operação que ela queria fazer  e escrever instruções explícitas para si própria. E mesmo com essas instruções, não foi fácil operar o aparelho. Aqui, claramente, o culpado são as interações entre componentes. Imagine-se tendo de escrever diversas páginas de instrução para poder utilizar seu próprio aparelho de som!

No caso do conjunto de audio/TV extremamente complexo, os componentes eram de diferentes fabricantes. Foram concebidos para serem comprados e usados isoladamente. Mas eu já vi complexidade igual em componentes produzidos por um único fabricante. Alguns vendedores tentam criar a impressão de que é assim que deve ser, pessoas com alguma competência técnica podem fazer com que o aparelho funcione. Não, esta atitude não é correta. O equipamento simplesmente é muito complexo, a interação entre os equipamentos é muito difícil. Não há nada particularmente avançado com relação ao equipamento de minha colega. E ela é uma pessoa razoavelmente sofisticada quanto à tecnologia – é uma doutora em ciência de computação – mas foi derrotada por um audio caseiro.

Um dos problemas com equipamentos de audio e vídeo é o de que, mesmo que os componentes tenham sido planejados com cuidado, a interação intercomponentes não é fácil. O receptor, o toca-fitas, a televisão, o videocassete, o aparelho de CD, etc  parecem ter sido planejados de modo relativamente isolado. Colocá-los juntos é o caos: uma admirável proliferação de controles, luzes, medidores e interconexões que podem derrotar até mesmo tecnófilos de talento.

Neste caso, a falsa imagem é a aparência de sofisticação técnica. Este é o pecado responsável pela complexidade extra de muitos dos nossos instrumentos, dos telefones e televisões às lavadoras e secadoras de roupa, dos painéis de automóveis aos conjuntos audiovisuais. Não há remédio aqui  a não ser educação. Você pode argumentar que este é um pecado sem vítimas, ferindo apenas aqueles que o praticam. Mas isto não é verdade. Fabricantes e designers fazem produtos para aquilo que eles percebem como  demandas de mercado; assim, se um número razoável de pessoas comete o tal pecado – e a evidência é que elas irão pecar – todos nós pagamos pelo prazer de uns poucos. Pagamos na forma de equipamentos coloridos e elegantes cujo valor de uso é quase zero.

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3 Respostas to “Síndrome do bezerro de ouro”

  1. Roldinei Licenciatura USJT Says:

    Acredito que o princípio da utilidade seria muito bem aplicado neste texto, pois nos dias de hoje o que ocorre é realmente a aquisição segundo a aparência, esquecendo-se da funcionalidade e utilidade. Desta forma, nos deparamos com a babel dos equipamentos eletrônicos, dificultando o seu uso, mas nos trazendo uma bela imagem!

  2. Antonio Morales Says:

    Essa síndrome do bezerro de ouro é mais frequente do que parece.
    Os celulares são um bom exemplo dela, pois os usuários são tentados a todo momento por “novidades” por uma campanha maciça de propaganda.

    E a troca de um aparelho por outro “mais sofisticado” é constante e muitas vezes inútil, pois pouco acrescenta em termos de utilidade para os usuários. E como isso gera montanhas de dinheiro para as empresas que exploram os serviços e vendem os aparelhos, mais pode ser aplicado nesse verdadeiro “massacre” propagandistico. Isso tudo se torna um círculo vicioso que se auto alimenta.

    Donald Norman coloca sua esperança na educação para quebrar esse círculo. Contudo isso não parece depender do nível educacional das pessoas. A síndrome está presente em todos os níveis educacionais.
    Pelo menos não depende da quantidade de educação. Quem sabe, talvez… da qualidade!

  3. Legal » Blog Archive » A Síndrome do Bezerro de Ouro Says:

    […] som (mas aplicável à questão da tecnologia de um modo geral). Recortado e colado direto lá do Boteco Escola: A ADORAÇÃO DE FALSAS IMAGENS (A síndrome do bezerro de […]

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