NTIC’s: imaginação é fundamental

A imaginação é mais importante que o conhecimento

Albert Eistein

Novas tecnologias sempre nos desafiam a redesenhar espaços, produções, modos de organizar a sociedade, formas de comunicação, relações com os outros, conhecimentos, a vida enfim. Mas as mudanças não acontecem imediatamente, pois  as novidades técnicas geradas por soluções de engenharia são apenas um começo. Para produzirem efeitos inteiramente novos, as tecnologias que entram na história precisam ganhar contornos originais, superando antigos modos de ver o mundo e a vida. Caso contrário elas apenas resultarão num fazer “más de lo mismo” como dizem os espanhóis.

Redesenhar espaço e vida a partir do potencial de uma nova tecnologia não é tarefa simples. No começo quase sempre se opta por manter as velhas formas. Um exemplo clássico disso aconteceu com os automóveis. Os primeiros carros a motor tinham a cara das velhas carruagens. O assento do motorista era desenhado num lugar alto assemelhado ao espaço antes destinado ao cocheiro. Os primeiros desenhistas de automóveis não perceberam uma mudança fundamental: o cavalo deixara de ser a força motriz. Assim, o cocheiro, digo o motorista, não precisava mais de ficar numa posição que favorecesse o controle do animal de tração. Passaram-se alguns anos para que os designers de veículos automotores começassem a produzir uma arquitetura mais adequada ao novo veículo.

O caso dos automóveis tem uma grande vantagem: pode ser mostrado graficamente. Há, porém, outros exemplos mais expressivos que a gente quase sempre ignora uma vez que o design de produtos para a nova tecnologia não passou por uma fase de cópia do velho paradigma. A dificuldade no caso era de outra natureza: como inventar situações criativas e inteiramente originais que aproveitem o potencial de uma nova tecnologia. O exemplo mais ilustrativo dessa outra circunstância é o cinema. A invenção dos irmãos Lumière foi, durante décadas, uma curiosidade que atraia multidões mas nada acrescentava em termos de comunicação. Admirava-se, no caso, a novidade de imagens em movimento. Mas o cinema como o conhecemos teve que esperar o gênio de Griffith que, no ano de 1915,  em “O Nascimento de uma Nação”, fez o primeiro filme com as características da arte cinematográfica. Por causa de exemplos como o do cinema, Donald Norman, ao apresentar Computer as Theatre, livro de Brenda Laurel, faz a seguinte observação:

Já é hora dos engenheiros voltarem para a engenharia. Para desenvolver estas novas tecnologias [tecnologias de comunicação e informação] precisamos de uma nova raça de pessoas criativas, principalmente aquelas envolvidas com poesia, escrita e direção teatral.

Além de Norman, importantes pesquisadores da área das ciências do conhecimento como Alan Kay, Terry Winograd, Brenda Laurel,  Nardy e muitos outros insistem na idéia de que usos mais amigáveis, efetivos e humanos das novas tecnologias da informação e da comunicação dependem de invenções criativas de “artistas”, não de mais e mais soluções inventadas por “engenheiros”.  Esta convicção gerou nos últimos anos muita pesquisa no campo da interação entre os seres humanos e os novos sistemas de informação e comunicação. Volto a citar Donald Norman para mostrar uma direção que me parece interessante:

No passado, a tecnologia tinha de se preocupar com a adaptação aos corpos das pessoas; atualmente ela tem de se adaptar às mentes dos seres humanos. Isto significa que as velhas abordagens não funcionam mais. Os mesmos métodos analíticos que se aplicavam tão bem às coisas mecânicas não se aplicam às pessoas. Hoje em dia,  ciência e engenharia  geralmente vêem o desenho das máquinas desde um ponto de vista que é centrado nas próprias máquinas. Este ponto de vista acaba influenciando o modo pelo qual as pessoas são vistas. Conseqüentemente, a tecnologia planejada para ajudar a cognição e prazer humanos muitas vezes mais interfere e confunde que ajuda e clarifica.

A análise de Norman clareia uma das tendências para a qual não estamos muito atentos: a de que o senso comum nos leva a acreditar que é preciso adaptar-se às máquinas e sistemas. Este desvio faz com que nos esqueçamos de que comunicação e informação são atividades “humanas”. Máquinas, equipamentos e sistemas deveriam apenas oferecer-nos oportunidades para expandir nossas capacidades de criar, negociar, transformar e usar informações para enriquecer a vida. Felizmente a submissão a conveniências de engenharia no desenho de máquinas e equipamentos vem sendo substituída por uma atitude que procura encontrar caminhos determinados pelas necessidades e características humanas. Tal tendência é bastante nítida hoje nos estudos sobre interfaces dos sistemas computacionais.

Os estudos e tendências delineados nos parágrafos anteriores podem nos alertar quanto a cuidados que precisam ser tomados em educação no que se refere a usos de novas tecnologias da informação e da comunicação. Aparentemente, ainda predominam em educação entendimentos de que os usos das novas tecnologias devem ser determinados por conveniências de engenharia. O laboratório de informática nas escolas, com um informata responsável por seu uso, é uma evidência de tal fenômeno. A insistência em treinamentos “informáticos” para professores é outra. Ao observamos o uso das novas tecnologias em educação sentimos um certo vazio.Falta alguma coisa no cenário. Falta imaginação. Parece que ainda estamos usando os novos meios da mesma forma que o cinema foi concebido até a revolução de formato criada por Griffith. Submetemo-nos ás conveniências da engenharia, deslumbrados com as inúmeras novidades técnicas que aparecem continuamente.

Como mudar o jogo? Recorro mais uma vez ao exemplo do cinema. A tecnologia das imagens em movimento só se tornou uma forma importante de comunicação quando um artista inventou modos de fazer cinema para contar histórias, emocionar, criar suspense etc. Assim, para mudar o jogo, estamos precisando de projetos educacionais que recriem as novas tecnologias “com imaginação”. E, como diz Norman, escritores, atores, poetas, pintores, artistas gráficos, músicos, comunicadores são os profissionais de quem se pode esperar uma mudança significativa nos usos de novas tecnologias em educação. Mas não podemos ficar esperando. Devemos ser proativos. Ou seja, é preciso que os educadores utilizem as inspirações das áreas de arte e comunicação para criar formas verdadeiramente novas de ensinar e aprender.

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Uma resposta to “NTIC’s: imaginação é fundamental”

  1. leticia Says:

    Sou professora de teatro no Cefet/RJ e venho estudando as tecnologias para a educação. Atualmente desenvolvo um projeto com os alunos de teatro e jogos eletrônicos.
    Concordo com as suas ideias. A tecnologia precisa de artistas, poetas e enfim, pessoas que pensem criativamente como utilizar as mídias digitais de maneira geral.
    A educação parece meio barata tonta. Nossos alunos já estão transitando por elas e aqueles que não possuem computador, muitos tem celulares e sabem muito bem manejá-los; melhor do que muito professor. Esses pequenos objetos podem ser instrumentos de criação na escola.
    Vc concorda?
    Parabéns pelo seu artigo foi muito bom compartir essas ideias.
    um abraço leticia

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