Pesquisem na internet

O pedido ou ordem que aparece no título deste post é um dos indicadores de modernidade no ensino de nossos dias. Ou, pelo menos, é o entendimento de modernidade que predomina na mídia quando se fala em usos das novas tecnologias de informação e comunicação.Muita gente deve se lembrar de uma propaganda que tem tal indicador como fundo. Trata-se de uma história para promover um provedor de banda larga. No final da história, uma criança que não possui a maravilhosa novidade, é apresentada como um menino das cavernas entregando sua “pesquisa” gravada em blocos de pedra. Já a criança cujo pai assinou aquele serviço da internet apresenta um volume imenso de páginas com muito texto e ricas imagens.

Esse modo de mostrar as virtudes da modernidade é recorrente. Já o vi, por, exemplo, num vídeo educacional do Senac que aponta diferenças entre a antiga a nova secretária. A aprimeira tem um trabalho triste, dominado por máquinas velhas, lentas, feias. A segunda vive num ambiente de trabalho alegre,  e usa máquinas lindas.

No ano 2000, numa visita à Universidade de Guadalajara, recebi um vídeo institucional sobre trabalho docente. Nas primeiras cenas, em um mundo triste, preto e branco, um professor desastrado entra na sala de aula com uma valise surrada e usa um quadro negro que vai quebrando em pedaços um giz que não “pega”. Total desinteresse dos estudantes. Nas cenas finais, brilhantemente coloridas,  um mestre alegre usa datashow, encanta os alunos entusiasmados pelo que é ensinado. Há, ao que parece, um padrão único de script para todas essas histórias sobre modernidade em educação. Mas não vou analisar toda a paisagem. Quero apenas registrar observações sobre utilizações da internet.
Num post em seu blog,  meu amigo Bernie Dodge, tenta, mais uma vez, mostrar que não é um expert em Triângulo das Bermudas. A razão para esse cuidado do Bernie é o grande número de pedidos que ele recebe, via e-mail, de auxílios para trabalhos escolares sobre o misterioso (pseudo) fenômeno que alimenta diversas lendas sobre sumiços de aviões e barcos no trecho bermudense do Caribe. E por que alunos de diversas escolas recorrem ao professor da San Diego State University? Porque uma velha sinopse de WebQuest que teria o Triângulo das Bermudas como um chamariz para investigações de caráter científico, confrontando mito e história, continua no ar. E em tal página, Bernie aparece como coordenador do trabalho (instructor).

A sinopse não apresenta nenhum conteúdo sobre o suposto mistério do Triângulo da Bermudas. Apenas delineia possíveis caminhos que os autores da WebQuest deveriam percorrer para chegarem ao produto final. Mas alunos de várias escolas continuam a recorrer ao Bernie como fonte para “projetos” que têm o misterioso fenômeno como alvo. O pedido mais recente é o de uma luno de 7ª série que está produzindio um documentário sobre o famoso Triângulo. Como acha que descobriu via internet que Bernie é um expert no assunto, o interessado solicita uma entrevista via e-mail e quer resposta rápida pois o trabalho precisa ser entregue logo (dois ou três dias).
Situação parecida com a do professor da San Diego anconteceu com o Dr. Aquiles Von Zuben, da Unicamp. Aquiles mantinha um site sobre bioética, com materiais de interesse para seus alunos de filosofia no doutorado em educação. Volta e meia, estudantes de ensino médio pediam ajuda do professor da Unicamp via e-mail e fazendo referência ao site sobre bioética. Eis aqui um desses pedidos:

Prezado Professor Aquiles,
Sou aluno de curso médio. Procurei o sentido da vida na Internet. Nada encontrei. Mande-me, por         favor, uma resposta. Nada muito longo. Bastam duas páginas. E mande logo, tenho de entregar o         trabalho na próxima terça. Abraço,
Fulano de Tal.

O texto é autêntico. Eliminei apenas o nome do aluno e alguns erros gramaticais foram corrigidos.
Os dois casos aqui narrados retratam um padrão muito frequente nas escolas. Um professor, convencido de que seus alunos devem usar novas tecnologias, faz o grande pedido: pesquisem x (sentido da vida, Triângulo das Bermudas etc.) na internet. E os alunos acionam os poderosos buscadores. Aparece um lista imensa de fontes. Algumas dessas fontes são aproveitadas. Em muitos casos, professores, autores ou pesquisadores citados nas páginas listadas são convidados a colaborar. Mas, como mostram os casos de Bernie e Aquiles, os pedidos de ajuda não são bem informados. São mais mensagens de socorro emitidas por náufragos da internet. Tais resultados são consequência de um entendimento que o saber nascerá automaticamente de usos não estruturados das novas ferramentas de informação e comunicação. Isso mostra a necessidade dos professores dominarem modelos de apoio (andaimes, mapas, scripts, roteiros) capazes de fornecer apoio suficiente para pesquisas bem feitas e consequentes.Caso contrário, os náufragos do imenso mar informacional da rede internacional de computadores continuarão fazendo consultas equivocadas a professores como Bernie e Aquiles.
Ambos os casos sinalizam uma outra coisa. A página de Aquiles não era um sítio dedicado a questões como o sentido da vida. Era um repositório de textos e informações filosóficas. A página sobre Triângulo das Bermudas, construída por alunos do mestrado da San Diego State University, não é uma fonte de informação sobre o assunto. É um roteiro de planejamento de tecnólogos educacionais. Leitores competentes jamais concluiriam,  num ou noutros caso, que o coordenador da página era um expert no assunto pesquisado. Os pedidos de socorro feitos aos dois professores universitários aqui citados são sintomas ou de dificuldade de leitura ou de uma leitura muito desatenta. De qualquer forma, ambos os casos indicam problemas de leitura nessas atividades que as escolas convencionaram chamar de “pesquisa”.
Cabe aqui uma observação sobre o sentido de urgência que domina nosso tempo. Em ambas as consultas, os alunos querem respostas rápidas, pois os resultados precisam ser apresentados logo. Quando o professor Aquiles me contou a história aqui narrada, fez a seguinte observação: “filosofo há mais de quarenta anos sobre o sentido da vida, ainda não encontrei qualquer resposta satisfatória, aí aparece esse menino e quer uma solução imediata para o problema”.
Os dois casos aqui contados sugerem muitos caminhos de conversa e investigação nos meios educacionais. Esbocei apenas um começo.

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9 Respostas to “Pesquisem na internet”

  1. Miriam Salles Says:

    Jarbas,
    Esses pedidos de “trabalhos prontos”, sobre assuntos geralmente relacionados a ciências e questões ambientais, são comuns nos emails que recebo. Idem para as reclamações, às vezes grosseiras, porque no blog não foram encontradas as respostas exatas para as perguntas feitas ao google.
    O que tem me preocupado nas últimas semanas, são os emails pedindo para que eu escreva tccs sobre informática na educação, ou me perguntando quanto custaria o trabalho! Fica complicado a gente pensar que em um futuro próximo, vamos ter professores que formem outros para que o pesquise na internet deixe de existir! ou será que estou sendo muito pessimista?
    abço

  2. Sérgio Lima Says:

    Olá Prof. Jarbas,

    Como já disseram, “peopleware” é mais importante que hardware + software (tecnologia) 🙂

    Em Educação mais ainda. Agora, fazendo uma especulação, é possível que problemas desta natureza (plágio, pedido de respostas prontas, discernimento se a fonte é confiável/adequada, etc) pudessem ser minimizados/diminuídos se os professores atendessem um número menor de alunos.

    Se pudessem transformar as pesquisas em processo e não em produto já haveria um grande filtro para estes “causos”.

    A mudança de paradigma da Escola (com mudança de paradigma da pesquisa na internet) passa, também por proporcionar melhores condições para que os professores possam acompanhar a produção dos alunos.

    Professores que atendem em média, 600 ALUNOS (estimativa para baixo de um professor de ensino médio com 30 tempos de aula semanais) terão dificuldades de acompanhar, com uma boa resolução, a produção dos alunos.

    Não me entenda mal. Isto não justifica que isto ocorra! Estou apenas problematizando que a questão vai além da simples questão metodológica.

    Abração

  3. Miriam Salles Says:

    Sergio,
    Especulando também: eu desconfio que não é só uma questão número de alunos que se atende, do absurdo número de aulas semanais que precisam dar para ter um salário melhorzinho… tenho cá pra mim que é falta de conhecimento mesmo, de não ter a menor idéia de como levar adiante uma outra forma de ensinar. Muitos pensam que é dá para usar bem a tecnologia propondo as mesmas tarefas e atividades que eram propostas antes das TICs.
    No meu tempo, era pesquise na enciclopédia… a diferença é que, pelo menos eu, não tínhamos essa facilidade comunicação com pessoas que supostamente poderiam me dar a resposta procurada. Era mais fácil para o professor nos pegar copiando o trabalho, já que os livros e as enciclopédias disponíveis (pelo menos nos meus anos de escola lá em São João) não eram tantas assim.
    O que não dá é pra gente se conformar e aceitar que isso aconteça porque o professor poderia ter um salário melhor!
    abço

  4. jarbas Says:

    Queridos Miriam e Sérgio,

    Obrigado por comparecerem. A discussão sobre o tema é mais que necessária. Ilusões de que as novas ferramentas podem per se revolucionar a educação são muito comuns. Geralmente são reforçadas pela mídia.

    Capacitação do professor, condições de trabalho e outras cositas más são ignoradas. Além disso, se a coisa não andar bem já há um culpado: o professor.

    No momento não posso dar a vocês toda a atenção que merecem. Voltarei para comentar devidamente seus comentários. Abraço grande,

    Jarbas

  5. Alysson Bruno Says:

    Outra causa para isso, além do professor não ter tempo para atender corretamente todos os alunos e de não conhecer outras formas de ensinar, é que muitos professores não sabem pesquisar na internet, se eles não sabem como extrair desta grande rede de computadores as informações que precisam como vão passar isso aos alunos?

    Arrisco chutar que a grande maioria dos professores que passam trabalhos como estes (qual o sentido da vida??) não se derem nem mesmo ao trabalho de fazer uma busca semelhante na internet antes de pedir isso aos alunos. Não se dão ao trabalho de ver quais páginas aparecerão no google sobre o assunto solicitado.

    Por tudo isso ainda me parece que os alunos se acostumaram com professores que fazem de conta que ensinam e os professores se conformaram em fazer de conta que são mais modernos e ensinam melhor, quando educação mesmo que é bom cadê?.

  6. www.voyagebrindes.com.br Says:

    (o texto abaixo foi digitado sem acentos de proposito para evitar erros de codificacao)

    Ola!

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    Obrigado e bons negocios!

    • jarbas Says:

      As vezes aceito algum spam inofensivo aqui no Boteco Escola. É o caso deste malho de vendas. Mas, de qualquer forma, a inocência não é tanta. A firma invadiu meu espaço na Web. No Boteco não estou interessado em negócios. Estou interessado em conversa. Sobre blogs. Sobre educação. Sobre vida.
      A reprodução do comentário-propaganda desta firma de brindes é uma forma de mostrar uma ocorrência frequente nos comentários.
      Está feito o registro e explicado o motivo pelo qual reproduzi o spam.

  7. Conceição Rosa Says:

    Oi professor

    Considerando a realidade com a qual trabalho, penso que os pedidos de pesquisa são “genéricos” demais, e os alunos ficam meio (muito) perdidos quando há a solicitação de uma pesquisa deste tipo. Não é costume oferecer um roteiro (qualquer que seja) para realizá-la, ou delinear uma forma de apresentá-la. Não há sugestão de sites ou orientação quanto àqueles que seriam confiáveis – já vi aluno pesquisando na Desciclopédia achando que aquilo que estava escrito era tudo verdade!
    Por outro lado, ouvi, há alguns anos, de aluna que aborreceu-se porque não poderia imprimir sua ‘pesquisa” no laboratório da escola, o seguinte comentário: “Vamos embora fulana, eu peço a meu filho para ‘puxar’ nosso trabalho na lan house!”, demonstrando seu desinteresse pelo assunto, oportunismo eletrônico dentro da lei do menor esforço e intenção de apenas cumprir tarefa.
    Eu, particularmente, acho que deveria haver nas escolas uma disciplina de “orientação para a pesquisa”, porque, até agora, esta é uma responsabilidade órfã; talvez pelas questões apresentadas pelo Sérgio ou pela Míriam, talvez por inércia, ou talvez porque no âmbito da grade curricular esta orientação não esteja como um “conteúdo” a ser trabalhado, e portando, possa ser protelada para o próximo professor.

    • jarbas Says:

      Oi Conceição,

      Bela contribuição para a conversa.
      Ao ver os aspectos que você levantou lembrei-me de um pensamento pedagógico que centra tudo no aluno e condena iniciativas dos professores para elaborar mapas de navegação para os estudantes. Um educador famoso me chamou a a tenção quando num debate sobre usos da internet propus que professores se vissem com cartógrafos. O grande educador (?) me disse que a cartografia também devia ser feita pelos alunos (pro professor nada sobrava…). E fiquei me perguntando: que mapas podem fazer pessoas que nunca navegaram pelo mar desconhecido (para elas)?
      Há aqui uma boa discussão a ser feita sobre construtivismo. Meu oponente se acha construtivista. Nãoé. É apenas um escolanovista que não leu Dewey com o devido cuidado. Abraço.

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